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17/03/2015Editorial

Pela radicalização da democracia e contra retrocessos

Ainda que a democracia brasileira tenha muito que se fortalecer e se ampliar, sendo necessárias as críticas ao atual sistema político, a FASE considera inadmissíveis clamores pelo retorno dos militares ao poder


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Não só em cartazes espontâneos, mas mensagens reacionárias também nos carros de som de organizadores. (Foto: Paulo Pinto/ Fotos Públicas)

O país viveu um fim de semana importante. Houve massivas manifestações pró e contra o governo da presidenta Dilma Rousseff nas capitais e também no interior dos estados. O sistema democrático nos dá essa oportunidade. Mas, lamentavelmente, nos protestos desse domingo (15), certos grupos usaram o espaço da rua , exatamente no marco dos 30 anos de redemocratização, para bradarem por intervenção militar. Para a FASE, ainda que a nossa democracia tenha muito que se fortalecer e se ampliar, sendo válidas e necessárias as críticas ao atual sistema político, são inadmissíveis clamores pelo retorno da ditadura civil-militar. Não se pode desejar a volta de um período marcado pelo assassinato dos opositores do regime. Nem minimizar o significado de faixas e falas extremamente reacionárias, enaltecendo os que deram o golpe em 1964.

Ironicamente, foi no regime militar que se aprofundou a corrupção ainda tão presente na sociedade brasileira. Foram os ditadores, a serviço das classes dominantes, que contribuíram para que a falta de transparência e de respeito ao dinheiro público se tornasse um problema estrutural no Brasil. Foi nesse período, aliás, que cresceu a concentração de renda e riquezas, acompanhada da concentração de poder. Por isso, é um erro personificar a corrupção e a crise política na figura de Dilma ou delegar responsabilidade exclusiva ao PT. Nesse sentido, a FASE repudia a ideia de impeachment e, ao mesmo tempo, defende o rigor nas investigações da Operação Lava Jato, que apura um esquema de lavagem e desvio de dinheiro público envolvendo a Petrobras, empreiteiras e políticos.

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Nacionalismo pode ser perigoso e ir além de um inocente grito de gol. (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

Aliás, cabe a pergunta: por qual motivo Eduardo Cunha, presidente da Câmara de Deputados, e Renan Calheiros, presidente do Senado, ambos do PMDB e citados na lista de investigados, não foram alvo de críticas nos protestos? Talvez pelo fato dos vários Brasis desse grande Brasil não terem ainda acesso à participação política para além do voto, o que traz sombras para o entendimento das dinâmicas em Brasília. Aqui cabe destacar o papel dos meios de comunicação, que poderiam frutificar o debate sobre a política, para que ela pudesse ser vista como outra que não só a institucional. Pelo contrário, a concentração da mídia, também estruturada nos anos de chumbo, é um grande calo ou mesmo o calcanhar de Aquiles da democracia brasileira.

A FASE não se identifica com os protestos do dia 15, mas não os reduz à condução por grupos golpistas. É fato que uma elite abastada, que apenas se pauta por seus interesses e que tanto se farta de vantagens diante de um sistema político em que o poder econômico fala mais alto, deu cara às manifestações. Mas não apenas. Infelizmente, o conservadorismo também encontra terra fértil entre trabalhadores. Existe uma disputa de visões de mundo em que, com apoio amplo da mídia corporativa, ganha vantagem o discurso da “moral e dos bons costumes”.

Protestos 15 de março em São Paulo
A elite branca era ampla, mas não foi a única a protestar de verde e amarelo (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

A camisa da seleção brasileira, com escudo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), foi a marca das manifestações contra o governo. Entidade essa que é um dos símbolos da própria corrupção, rejeitada pelos discursos. Também esteve presente um nacionalismo que corre o risco de ir muito além de um grito alegre de gol. Ele pode somar xenofobia, racismo, machismo, homofobia, dentre muitos outros sentimentos de ódio. Por outro lado, não podemos negar a indignação, que já está por aí, em variados tons, desde 2013. Nesse sentido, a FASE não se contenta com o enredo de novela do “bem contra o mal”, que tanto serve de audiência na mídia e cria ruídos, impedindo reflexões que apontem mudanças reais. Que tanto faz a maioria torcer o nariz para a política mesmo estando, de alguma forma, fazendo política.

Acreditamos que a conjuntura dá recados que deveriam alertar o governo para a necessidade de se abrir às reivindicações dos movimentos sociais do campo popular, algo que não fez quando os protestos cobravam pautas progressistas. Pelo contrário, a Copa do Mundo chegou e o que se viu foi mais remoção, militarização, além do agravamento de um modelo de cidade injusto, com comida e transporte caros, especulação imobiliária, etc. Agora, com tanta abertura de guarda, setores mais reacionários avançaram para as ruas e por dentro do governo, vide desmontes de direitos dos trabalhadores com a atual política econômica.

Protesto de sindicalistas na sede da Petrobras em São Paulo
Protesto de sindicatos e movimentos em São Paulo na sexta-fera (13). (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

Na sexta-feira (13), centrais sindicais e movimentos sociais do campo popular mostraram sua capacidade de convocação e levaram pautas unificadas a favor da reforma política, contra o ajuste fiscal e em defesa do resultado eleitoral de outubro de 2014. Mas mesmo nesses protestos existiram várias posturas: das acríticas às que cobraram mudanças. Para além dos grupos que compareceram às manifestações do dia 13, existem ainda outros setores de esquerda, não alinhados ao governo, que também querem avanços.

O que Dilma e o PT farão? Diante das incertezas da conjuntura, a FASE tem uma certeza: pelo seu histórico de compromisso com a transformação da sociedade, continuará se movimentando contra qualquer tentativa de retorno a um passado autoritário e violento, e contra ações que possam evoluir para o pior dos resultados: a paralisia causada pelo medo.

Ainda temos uma longa caminhada a ser feita pela universalização de direitos e a distribuição da riqueza no país. Ela passa pela ampliação da participação social na política e pela mudança radical do sistema político eleitoral, com o fim do financiamento empresarial das campanhas. Passa também pela construção de outro modelo de desenvolvimento, com combate às desigualdades e à concentração de renda, com a taxação de fortunas, com justiça ambiental, soberania alimentar, igualdade de gêneros e direito à cidade. É preciso radicalizar a democracia, sem mais nem um retrocesso.

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