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11/08/2016Mato Grosso

Agricultura familiar se mostra como alternativa para sistema insustentável

Agricultoras e agricultores familiares viajaram de Mato Grosso até Minas Gerais para participar do Intercâmbio Caminhos do Cerrado e trocar experiências sobre o aproveitamento dos frutos desse bioma


Andrés Pasquis¹

O intercâmbio aconteceu na Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do Centro de Agricultura Alternativa.
O intercâmbio aconteceu na Área de Experimentação e Formação em Agroecologia do Centro de Agricultura Alternativa.

No final do mês de julho, cerca de 50 campesinas e campesinos partiram de Cáceres, no Mato Grosso, para o município de Montes Claros, em Minas Gerais, acompanhados por educadores da FASE e do Centro de Tecnologia Alternativa (CTA) para visitar o Centro de Agricultura Alternativa (CAA), com objetivo de participar do “Intercâmbio Caminhos do Cerrado” e trocar experiências sobre o aproveitamento e beneficiamento dos frutos desse bioma. O encontro reuniu representantes de associações como a Associação Produtiva Indígena Chiquitana (Apic), a Associação Regional de Produtores Agroecológicos (Arpa), a Associação Regional de Produtoras Extrativistas do Pantanal (Arpep), a Associação das Mulheres Agricultoras Familiares Araras do Pantanal (Amafap), entre outras instituições.

Honorio Dourado, do CAA, falou sobre as boas práticas agroecológicas ligadas à segurança alimentar, com um amplo conhecimento de mais de 600 plantas e suas propriedades medicinais. “Hoje, uma das grandes contradições é tratarmos somente dos sintomas das doenças e não localizarmos a raiz do problema. A maior parte das doenças é explicada pelo estilo de vida que levamos e principalmente pelo tipo de alimentação”, explicou Honorio. Após enumerar várias propriedades, receitas e técnicas medicinais elaboradas a partir de produtos do cerrado, ele guiou uma visita pela mata e a horta da Aefa.

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Traca de técnicas de produção de alimentos. (Foto: Andrés Pasquis/Gias)

Durante a caminhada, além de testemunhar a riqueza e variedade dos plantios e da organização da horta e dos sistemas agroflorestais, os agricultores e agricultoras aprenderam uma série de técnicas, como a criação de microrganismos eficientes, a elaboração de adubo orgânico com recuperação e aproveitamento do chorume e a construção do pé de galinha² para a elaboração de curvas de nível. “A agricultura familiar tem que se libertar das normas impostas pelo agronegócio, que não são adaptadas para essa realidade. Ela tem que criar, recuperar e valorizar sua própria tecnologia, preservando suas tradições e identidade”, declarou Honorio. Ele ainda denunciou a utilização de agrotóxicos, transgênicos e outras “mazelas das monoculturas do agronegócio“, que acabam afetando toda a sociedade e o meio ambiente do qual ela depende.

O grupo também visitou a unidade de beneficiamento de polpas de frutos do cerrado da Aefa, a Unidade de Beneficiamento do Coco Macaúba³ da cooperativa de agricultores familiares agroextrativistas Cooper Riachão, Grande Sertão e a sede do CAA, no município mineiro Montes Claros. O intercâmbio permitiu a troca de experiências, já que muitas vezes as agricultoras e agricultores familiares de diversos territórios enfrentam dificuldades semelhantes.  “É importante saber que enfrentamos obstáculos em comum, isso demonstra que precisamos reforçar nossa colaboração e nos unir”, disse Rita Julia de Souza Zocal, presidenta do grupo das Margaridas, que compõem a Arpep.

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Agricultores de diferentes biomas trocam saberes. (Foto: Andrés Pasquis/FASE)

Na sede do CAA, eles conheceram outros aspectos da atuação da instituição, criada em 1989, com povos e comunidades tradicionais de 26 municípios, distribuídos entre os biomas cerrado, caatinga e mata seca. Nesse contexto, etnias indígenas, quilombolas, geraizeiros⁴, caatingueiros, entre outros, trabalham em parceria com a organização, cuja equipe é composta por representantes de povos e comunidades tradicionais e técnicos de diversas áreas. “Nosso foco é o incentivo para a agroecologia com o fortalecimento dos povos e comunidades tradicionais, lutando contra um sistema insustentável, que rouba as terras da população, destrói o meio ambiente e ameaça a sociedade”, explicou Alvaro Carrara, diretor do CAA.

Francileia Paula de Castro, educadora do programa da FASE no Mato Grosso, lembrou que intercâmbios como estes também são importantes devido a conjuntura política em curso, onde muitos cortes de orçamento e retrocessos socioambientais estão sendo efetuados pelo governo interino. O próprio CAA reduziu a equipe por causa da instabilidade política. Nesse contexto, o intercâmbio permitiu criar novas alianças para a agroecologia, estabelecendo laços de amizade e parceria entre agricultoras e agricultores familiares.

[1] Edição de matéria do Gias.

[2] Instrumento feito de madeira que permite a determinação das diferenças de nível e a marcação de curvas de nível.

[3] Conhecido em Mato Grosso como bocaiuva ou chiclete cuiabano.

[4] Povo tradicional que vive nos cerrados do norte de Minas Gerais.

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