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16/12/2016Mato Grosso

Gias defende agroecologia como forma de resistir ao agronegócio nos territórios

Carta política do Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias), que atua no Mato Grosso, denuncia as violências do agronegócio e defende a agroecologia como alternativa para soberania alimentar


Coletivo de Comunicação do Encontro¹

Em plenária, participantes do 7º Encontro Estadual de Agroecologia² aprovaram uma carta política que reúne denúncias de violações de direitos por parte do agronegócio e reivindicações em favor da soberania alimentar. O documento ilustra os debates realizados por agricultores e agricultoras, estudantes e educadores, povos dos campos, cidades, águas e florestas, que debateram maneiras de fortalecer a agroecologia e resistirem às ameaças que a agricultura familiar tem sofrido frente ao atual contexto político no país. O evento ocorreu em Cuiabá, de 29 de novembro a 2 de dezembro, e reuniu cerca de 600 pessoas.

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Ciranda no encerramento do Encontro. (Foto: Gilka Resende/FASE)

“Defendemos a agroecologia como o caminho que, desde já, se coloca como a única alternativa na disputa contra a violência imposta pelo agronegócio e por outras expressões do grande capital sobre os territórios nos quais a agricultura familiar camponesa e os povos e comunidades tradicionais vivem e produzem”, destaca trecho do documento elaborado por instituições que integram o Grupo de Intercâmbio em Agroecologia (Gias), articulação com mais de 50 movimentos sociais, organizações e associações no Mato Grosso.

Uma bandeira de pano pintada por crianças que participaram do encontro foi estendida durante o encerramento do evento.  No centro, em meio a desenhos, algumas palavras resumiam muitas lutas: “Agroecologia. É cultura. É vida. É esperança”.  Antes da aprovação da carta política, houve ainda uma avaliação coletiva. Os participantes se dividiram em menores grupos, elencando críticas e sugerindo soluções para os próximos encontros. O momento também foi marcado pela realização de uma “mística”, com músicas, poemas e manifestações de solidariedade.

“É aqui, onde os pés abrem seus próprios caminhos semeando o futuro. É aqui, onde o olhar que guarda a utopia revela a consciência de quem não aceita mais ser objeto da história. É aqui, onde homens e mulheres, já não tão moços, retomam a coragem e a sensibilidade infantil. É aqui, onde por raiva ou paixão, o choro encharca a face de quem permite sentir-se vivo. É aqui, onde pensar diferente não é crime. A participação é o princípio. E falar e ouvir são parte da mesma aprendizagem”, disse a militante Dê Silva, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), conduzindo o encerramento do encontro.

Denúncias e reivindicações

Os presentes cobraram que a “reforma agrária se torne pauta prioritária da política e da sociedade brasileira, como mecanismo de resolver os problemas urbanos e rurais e de abastecimento de alimentos saudáveis”. Frente ao recente golpe pelo qual o Brasil passa, repudiaram a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), órgão que, com orçamentos muito menores que o do Ministério da Agricultura, que fomenta o agronegócio, conduzia políticas da agricultura familiar. Entre elas, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Aliás, foi reivindicada a efetivação do Pnae no estado do Mato Grosso. “Desde 2010, quando a lei 11.847 foi sancionada, o estado nunca conseguiu garantir a sua implementação, consequentemente enfraquecendo os agricultores familiares camponeses”, pontua a carta.

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Delci Maraiup, do povo Kayabi. (Foto: Gilka Resende/FASE)

Outras reivindicações foram feitas: “que o Mato Grosso construa um plano de formação de agentes agroecólogicos”; que sejam fortalecidas “as políticas de proteção e defesa dos direitos das mulheres”; e que sejam reconhecidas as juventudes rurais e suas especificidades, com políticas públicas voltadas para essas populações.  Além das mulheres e dos jovens, os povos tradicionais também foram lembrados como essenciais para a agroecologia. “Que o Estado reconheça e demarque as terras indígenas e quilombolas, fazendo valer a Constituição Federal de 1988, que reconhece esses povos como sujeitos de direitos”, destacou outro trecho do documento.

Para o indígena Delci Maraiup, o Estado acaba por dificultar que sua comunidade construa a agroecologia. “Dizem que estamos desmatando e não deixam a gente plantar. Não é isso. Queremos produzir alimentos, e não prejudicar a natureza. Queremos mandioca, cará, banana, milho, abacaxi… Se a gente não planta, tem que comprar na cidade o produto com agrotóxico”, reclama. Ele, que integra a Aldeia Tatuí, do povo Kayabi, critica um modelo de conservação do meio ambiente que, muitas vezes, é imposto pelo Estado. Delci destaca ainda a contradição: “enquanto isso, estamos cercados por fazendas de bois e ameaçados pelo desmatamento”.

Feira de Roças e Quintais

O encontro do GIAS também contou com a Feira de Roças e Quintais, que aconteceu em todos os dias do evento e foi aberta ao público. Mais de 50 grupos montaram barracas de alimentos in natura livres de venenos e de produtos como bolos, geleias, pães, farinhas, biscoitos, licores, dentre outros. Grupos de economia solidária se juntaram aos de agroecologia para comercializar artesanatos, muitos deles feitos com sementes, cocos e cipós.

Revolução agroecológica. (Foto: Gilka Resende/FASE)
(Foto: Gilka Resende/FASE)

Um momento de destaque foi a Troca de Sementes Crioulas, quando também houve o intercâmbio de mudas e raízes. Pedro Paulo Celestino, educador do programa da FASE em Mato Grosso, foi um dos organizadores da iniciativa. Ele ressalta que a ideia é contribuir para a preservação de espécies de alimentos. “As pessoas trocam plantas e fazem múltiplos usos delas. Uma pimenteira também serve para ornamentar. Muitos alimentos são utilizados como remédios”, exemplificou.

Pelo menos 100 pessoas participaram da Troca. Josefa Francisco, da Associação Nossa Senhora do Rosário, do município mato-grossense Rosário Oeste, foi uma delas. “Cheguei com 15 variedades e peguei quatro. Só levei o que eu não tinha”, conta. Suas sementes de quiabo foram compartilhadas rapidamente. “Eu conheço uns oito tipos de quiabo. Tem o comum, o mais babento, o que não tem baba, o quiabo de metro”, ressaltou ela, que assim como outros “animadores de sementes do GIAS” são considerados “guardiões da biodiversidade alimentar”.

[1] Gilka Resende, da FASE, Andrés Pasquis, do Gias, e Elvis Marques, da CPT, com a colaboração de Wellington Douglas, também da CPT.

[2] Leia a cobertura completa: “Ato público dialoga sobre agroecologia com população mato-grossense“; “Campanha em Defesa do Cerrado foi lançada em evento sobre agroecologia no MT“; “Contexto político e retrocessos socioambientais são temas em encontro do Gias“; e “Agroecologia é viável para cultivo de alimentos saudáveis“.

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