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22/07/2020Espírito Santo

O vírus, o fascismo e o desenvolvimento

Em artigo, Marcelo Calazans, coordenador da FASE no Espírito Santo, critica a convivência harmoniosa das megaempresas com o governo Bolsonaro e ressalta a importância das ações de solidariedade que nasce da sociedade


Marcelo Calazans¹

Enquanto explora o planeta, o desenvolvimento baseado no lucro das grandes empresas cria as condições para a emergência da Covid-19 e de novas pandemias, provocando a devastação de florestas e dos ecossistemas, a contaminação do mar e dos rios, a destruição de habitats naturais dos animais, a manipulação em larga escala da fauna e da flora.

No Espírito Santo (ES), assim como em outros estados do Brasil, a Covid -19 chegou de avião, em meados de março. Desembarcou no aeroporto de Vitória junto com o mundo dos negócios, com os executivos dos grandes projetos de desenvolvimento e com as subcelebridades vindas da Europa e Estados Unidos.

Por aqui, a primeira morte por Covid-19 foi confirmada no início de abril. Em cerca de três meses e meio, já são mais de 2.170 pessoas mortas e perto de 70 mil contaminadas. A partir de maio, o vírus se expande pelas periferias urbanas da região metropolitana e para as cidades médias e pequenas do estado. E aí um novo risco surge! Pois já atinge as comunidades tradicionais quilombolas, indígenas, camponesas, os assentamentos de sem terras e inúmeras comunidades de pesca artesanal ao longo da Costa Atlântica.

A situação se torna ainda mais trágica na medida em que o governo Bolsonaro retarda as políticas sociais de emergência, seja para os trabalhadores informais e desempregados, seja para as pequenas empresas. Seus seguidores, cheios de ódio e rancor contra a vida, promovem as carreatas da morte, disseminam o vírus e os discursos racistas, machistas, homofóbicos e contra a democracia. Não respeitam sequer o luto das famílias que perdem todos os dias seus entes queridos.

Impressiona também a convivência harmoniosa das megaempresas exportadoras dos setores de petróleo, mineração, celulose e siderurgia com o governo fascista, dos militares, do centrão e, agora sabemos também, dos milicianos. Shell, Chevron, Petrobras, Porto de Roterdã, Samarco, Vale, Suzano. Essas empresas, com apoio do Estado, tentam manter seus lucros, diminuir custos e ainda fazem intensa propaganda empresarial, em meio à crise política, ao desastre econômico e à tragédia sanitária.

A solidariedade que vem da população

Enquanto o presidente da república e seus seguidores atacam os direitos e a democracia. Enquanto as megacorporações empresariais seguem operando, articuladas ao governo fascista. A sociedade civil capixaba resiste. Defende a vida. A pandemia passa, mas não passarão o rebanho do ódio e seu desenvolvimento de morte.

Não fossem as redes de solidariedade e cuidado no âmbito da própria sociedade civil. Não fossem os profissionais de saúde, as organizações comunitárias, os fóruns de direitos humanos, de segurança alimentar, os movimentos e organizações sociais do campo e das periferias urbanas, as igrejas e sindicatos, não fossem as redes da própria sociedade civil, a tragédia seria ainda maior.

Essas redes de apoio atuam de diferentes formas pelo país para salvar vidas. Cobram implementação e eficácia das políticas emergenciais do Estado, a responsabilidade das empresas. Formam redes de cuidado e segurança alimentar das famílias e comunidades mais vulnerabilizadas. Monitoram a violência e o racismo da polícia miliciana. Criam redes de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica. Distribuem alimentos agroecológicos de organizações como o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Monitoram os casos de Covid -19 nas comunidades tradicionais.

[1] Coordenador da FASE no Espírito Santo.

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