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01/12/2005Amazonia

O efeito camarão

Carlos Augusto Ramos, técnico da Fase Pará, conta um pouco da história do Projeto Manejo Comunitário do Camarão de Água Doce


Carlos Augusto Ramos

Era uma vez um engenheiro agrônomo entendedor das coisas da pesca[1] e uma comunidade varzeira do município de Gurupá-Pa, conhecida como ilha das Cinzas[2]. Resolveram um dia tentar uma idéia revolucionária: criar camarão. Planeja pra cá, rabisca pra lá, constrói viveiro e por fim chegam a um método de engorda do crustáceo mais apreciado por aquelas bandas do estuário amazônico.

Com o passar do tempo, perceberam os envolvidos na empreita que quanto mais colocavam camarões nos viveiros a fim de criá-los, mais sumiam ao longo de algumas semanas. Armazenavam dez quilos, apareciam no final uns dois quilos. “Só pode ser roubo”, chegaram a pensar; qual nada! As caixas eram bem guardadas e vedadas o suficiente para evitar a fuga dos camarões ou a entrada de um predador. Ali, no fundo do rio onde eram depositados os experimentos reinava um mistério.

Como os naturalistas de plantão que se prezem e que estão cada vez mais raros nos dias de hoje, repararam o técnico e os pescadores que o problema estava dentro dos viveiros. E assim um pouco de estudo a mais reconheceu que a resposta estava no processo de troca da casca do crustáceo para o seu crescimento chamado de ecdise. Com a carne exposta durante a passagem de uma camada e outra, os camarões menores eram alvos de canibalismo dos maiores, agora sem a vegetação ou pedra de um rio a escondê-los da voracidade de seus inimigos.

Foi um momento de certa incerteza e desesperança. Contudo, como as maiores descobertas sempre são precedidas de um acidente de percurso ou rota errada (e aí temos a penicilina), mais uma vez a capacidade de transformação de uma dificuldade em solução do ser humano trabalhou na forma de uma singela, porém, genial conclusão: não era o 2 caso de criar, mas sim selecionar camarão. E assim reformularam o método de manejo para a adaptação de matapis e viveiros para “coar” o que se apanhava. Dessa forma, Os menores passaram a escapar pelas frestas dos apetrechos de pesca modificados, restando apenas os graúdos camarões.

Os efeitos dessa idéia repercutiram em alguns efeitos:
• Aumento do tamanho médio do camarão comercializado;
• Manutenção dos estoques do crustáceo nos rios da região;
• Aumento da renda das famílias;
• Organização da comunidade a ponto de se destacaram das demais da região, gerenciando projetos e outros benefícios;
• Reestruturação da sede da comunidade através da organização;
• Diminuição da jornada de trabalho durante a pesca;
• Fortalecimento do grupo de mulheres local, cuja participação durante as decisões da associação tem sido fundamental;
• Valorização dos jovens locais dos trabalhos feitos através de feiras e outros eventos culturais;
• Manejo de outros produtos da mata;
• Discussão fundiária e do uso dos recursos naturais da ilha.

O futuro nos mostrará se aparecerão mais reações positivas a partir do manejo do camarão de água-doce. Existem outras que se constatam a cada dia ao analisar-se o trabalho na ilha das Cinzas. Uma coisa é certa: pensar em cadeia, eis o segredo do sucesso de um empreendimento social comunitário como este de Gurupá, recém vencedor do Prêmio Tecnologia Social da região Norte, promovido pela Fundação Banco do Brasil. Viva o efeito camarão!
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[1] Jorge Pinto
[2] Representada pela Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (ATAIC)

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