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19/08/2015Editorial

Pela mobilização da sociedade em torno de uma agenda política popular

FASE apoia e se soma à resistência a qualquer ameaça às conquistas democráticas do país. No entanto, reforçamos a necessidade da expressão clara de uma agenda política de defesa e garantia de direitos, algo inconciliável com a Agenda Brasil


No atual contexto de crise política, as classes populares e os movimentos sociais que expressam as suas reivindicações e organizam suas lutas não podem abrir mão de uma agenda política própria, sob pena de servirem de massa de manobra para projetos totalmente estranhos aos seus interesses.

Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em reunião com confederações empresariais. (Foto: ABr)
Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, se reúne com confederações empresariais. (Foto: Elza Fiúza/ABr)

A FASE apoia intransigentemente a resistência sem tréguas a qualquer ameaça à Constituição e às conquistas democráticas da população brasileira. No entanto, não podemos nos deixar confundir quando os defensores do governo Dilma Rousseff e do projeto político do lulismo convocam para uma manifestação “em defesa da legalidade e contra o golpe”, ao mesmo tempo em que negociam com o presidente do Senado, Renan Calheiros, um conjunto de medidas antipopulares denominadas de Agenda Brasil.

Enquanto o PT acena para os de baixo com o fantasma do golpe, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e confederações patronais, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Transporte (CNT), preparam manifesto contra o impeachment da atual presidenta. Os presidentes do Bradesco e do Itaú, seguindo os passos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiespi) e da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), já se mobilizaram para dissuadir a chamada classe política de enveredar pelo caminho da aventura que dificulta a recuperação da economia. Estranha, portanto, essa ameaça de golpe à qual se opõem o topo e a base da pirâmide.

Pouco a pouco fica evidente que, num cenário em que nenhuma força política se apresenta com a potência e a coesão necessárias para se apresentar como alternativa ao governo Dilma, a opção das classes dominantes é a de manter Dilma, enfraquecida e condenada a governar dentro de estreitos limites, fazendo o trabalho sujo do ajuste econômico, enquanto o grande capital prepara uma solução mais consistente com seus interesses para 2018. Para este, o ideal é que Dilma permaneça em Brasília, humilhada, de preferência depois de fazer o “mea culpa” recomendada por Fernando Henrique Cardoso e pelo presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Côelho.

Modelo de desenvolvimento afeta vida de povos tradicionais. (Imagem: L. Marques/Fotos Públicas)
Atual modelo de desenvolvimento afeta vida de povos tradicionais. (Foto: L. Marques/Fotos Públicas)

É verdade que esse caminho de “transição” não é destituído de riscos e contradições, a começar pelos desdobramentos imprevisíveis da Operação Lava Jato. Parte dessas contradições resulta do choque de interesses no âmbito das classes dominantes frente a um ajuste que só favorece o capital financeiro, elevando astronomicamente os juros e aumentando a dívida pública, com base na política financeira do governo Dilma, que o senador José Serra chamou de “política ativa e burra”. Outra contradição para as classes dirigentes diz respeito à dificuldade de conterem a mobilização de grupos da classe média reacionária depois de terem açulado durante meses a sua radicalização. Já conhecemos de longa data esses herdeiros da UDN e dos golpistas de 1964. A eles se juntam evidentemente milhares de pessoas cuja indignação com os escândalos de corrupção tem sido cotidianamente explorada pela mídia conservadora. Não podemos desconhecer, no entanto, que parte dos setores médios tradicionais se move por um ressentimento de classe diante da ascensão das camadas populares beneficiadas por políticas de transferência de renda nos governos de Lula e Dilma.

O cenário acima descrito revela uma diferença importante entre a conjuntura de 2013 e a de 2015. Agora, com a crise econômica, os interesses de classe aparecem de forma mais nítida, inclusive com forte conotação ideológica, tanto no repúdio pela burguesia da política de conciliação da era Lula, em que todos ganham (no Brasil, como sempre, os de cima bem mais do que os outros), como no ódio da velha classe média antidemocrática aos avanços sociais promovidos nos últimos anos.

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Reduzir idade penal é uma das propostas conservadoras no Congresso. (Foto: Valter Campanato/ABr)

O problema é que falta à cena política do país a expressão clara de uma agenda própria dos setores populares, com proposições de esquerda. É enorme o risco para os movimentos sociais de serem levados para o fundo do poço pelo abraço do afogado do lulismo. Não há convergência possível entre a agenda popular e a Agenda Brasil de Renan Calheiros, na qual, além de se buscar consolidar e aprofundar o ajuste, foram contemplados interesses espúrios de vários lobbies.

O momento é de fortalecer o coro contra os setores conservadores, que têm como um de seus maiores aliados o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e defender, como sempre, a luta em favor das crianças e dos adolescentes, por um Estado laico e contra a terceirização, contra a criminalização das lutas sociais, o machismo, o racismo e a LGBTfobia. É hora de fazermos uma ampla mobilização social com o objetivo claro de lutar contra o atual modelo de desenvolvimento, traduzido na política de ajuste fiscal na qual os povos pagam a conta e as classes dominantes se acertam em torno de uma agenda de desconstrução de direitos sociais, do meio ambiente e de culturas, como a de povos indígenas e quilombolas, por meio da exploração predatória dos bens comuns.

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