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31/08/2016Fundo Dema

15 anos sem Dema

O dia 25 de agosto está marcado na história do Fundo Dema com a simbologia de luta e resistência em defesa da justiça socioambiental e dos povos da Amazônia. Este foi o dia em que, há 15 anos, Ademir Federicci, mais conhecido como Dema, foi assassinado na região da Transamazônica


Élida Galvão¹

grande_img_bn1472591816_1472591702671O dia 25 de agosto está marcado na história do Fundo Dema com a simbologia de luta e resistência em defesa da justiça socioambiental e dos povos da Amazônia. Este foi o dia em que, há 15 anos, Ademir Federicci, popularmente conhecido como Dema, fora brutalmente assassinado na região da Transamazônica. Para resgatar a trajetória de militância deste sindicalista e firmar a ação coletiva contra o avanço capitalista e a destruição da biodiversidade e dos modos de vida dos ‘Povos da Floresta’, no dia em que antecedeu o aniversário da morte de Dema, os movimentos sociais de Medicilândia² promoveram um encontro em homenagem à sua memória. Familiares, amigos e companheiros de Dema se reuniram na sede paroquial Imaculada Mãe dos Pobres. Na ocasião foram apresentados comoventes depoimentos, além de exposição fotográfica de sua trajetória, o que possibilitou uma análise crítica sobre os desafios colocados para os dias atuais e um debate em torno do conceito dos ‘bens comuns’.

Na atividade coordenada por José Ripardo, representante da Fundação Viver Produzir e Preservar (FVPP), instituição que integra o Comitê Gestor do Fundo Dema, os participantes levantaram diversas reflexões e em seguida pontuaram propostas de luta de forma a atender os desafios colocados diante da gestão dos bens comuns na região.

Já no dia seguinte (25), comemorando a chuva caída à noite após um longo período de seca na região, cerca de cem pessoas se reuniram na comunidade Nossa Senhora da Paz, às proximidades da residência de Dema, para participar de cerimônia iniciada com a plantação de uma muda de árvore no espaço. Em seguida, dezenas de mudas foram distribuídas aos participantes. Logo depois foi inaugurado o barracão comunitário, reformado por meio do projeto ‘Mulheres Agricultoras – formação e geração de renda sustentável no meio rural’, destinado à realização de atividades produtivas sustentáveis.

Representantes do Comitê Gestor do Fundo Dema participam de homenagem
Representantes do Comitê Gestor do Fundo Dema participam de homenagem

O presidente do Comitê Gestor do Fundo Dema, Matheus Otterloo, ressaltou a importância do apoio à comunidade. “Mais do que um projeto, esta realização significa uma doação decidida pelo Fundo Dema como homenagem à memória do Dema e à continuação da luta da sua comunidade. O exemplo e o sacrifício do Ademir permanecem mais do que vivo, não somente acentuando a luta pelos direitos humanos, mas especificando dentre esta perspectiva a defesa dos direitos da natureza”, disse.

Ao fim do momento de confraternização, Irmã Benedita foi anunciada por Dom José como a nova representante da Prelazia do Xingu junto ao Comitê Gestor do Fundo Dema. Ela passa a substituir, Irmã Inez Wenzel, que atualmente se dedica à luta do coletivo ‘Xingu Vivo’.

História de Dema

Dema nasceu no sul do país e migrou com seus pais e irmãos para a região da Transamazônica no Pará, em 1975. Fixando moradia em no município de Medicilândia, construiu uma trajetória de vida marcada pela atuação em diversos movimentos sociais. Atuou na coordenação da Pastoral da Juventude (PJ), foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município, (STR) e do  movimento social regional (MPST). Também foi vereador pelo PT e sempre denunciou a retirada ilegal de madeiras em terras indígenas e fraudes na Superintendência de desenvolvimento do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM).

No início dos anos 2000, período de seu brutal assassinato, liderava um grande movimento de resistência à construção do Complexo Hidrelétrico do Belo Monte (CHE Belo Monte). Lutou para manter a rodovia Transamazônica em condições de tráfego, para assegurar educação e saúde e, na última década, para proteger as áreas de florestas, os rios e as terras dos índios da ganância de grileiros e empresas destruidoras.

Dema liderou três caravanas da Transamazônica à Brasília, sendo que em uma delas, ocorrida em 1992, 300 pessoas da região escreveram com seus corpos “A Transamazônica não pode esperar” na rampa do Palácio do Planalto. Fruto desse ato foi a conquista de recursos para tirar a rodovia do esquecimento, recuperando a estrada e ampliando os serviços de saúde e educação. Esse foi o grande marco do Movimento pela Sobrevivência na Transamazônica (MPST), do qual Dema foi um dos líderes mais destacados.

Como sindicalista, esteve à frente da luta pelo crédito bancário a partir de 1992, participando das mobilizações em todos os “Gritos do Campo” e “Gritos da Terra Brasil”. Coordenador do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu (MDTX, ex-MPST), ele estava à frente de 113 organizações rurais e urbanas empenhadas no projeto regional conhecido como “Consolidação da Produção Familiar e Contenção dos Desmatamentos na Transamazônica e Xingu”.

[1] Jornalistas do Fundo Dema

[2]  Município em que residiu desde sua chegada à região.

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