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20/05/2016Mato Grosso

Agricultoras da Amazônia e do Pantanal realizam intercâmbio agroextrativista

Grupos de mulheres organizam e participam de intercâmbio para promover a agricultura familiar agroecológica nos municípios de Cáceres e Mirassol d’Oeste. Elas trocaram saberes sobre o agroextrativismo do babaçu


Andrés Pasquis¹

Foto: Andrés Pasquis / Gias
(Foto: Andrés Pasquis / Gias)

Do norte ao sul do estado de Mato Grosso, grupos de mulheres se organizam para promover a agricultura familiar agroecológica, não só como meio de subsistência, mas como estilo de vida, lutando para garantir seus direitos, conquistar reconhecimento e autonomia perante a sociedade.

No município de Cotriguaçu, situado a 950 quilômetros ao noroeste de Cuiabá, os grupos Mulheres da Paz, Mulheres Unidas, Mulheres da Esperança e Mulheres da Agrovila são um exemplo dessa luta diária. Esses grupos trabalham em parceria com o Instituto Centro de Vida (ICV) na Iniciativa de Desenvolvimento Rural Comunitário, cujo objetivo é apoiar as comunidades rurais nos processos de organização, planejamento e desenvolvimento, com base na agroecologia e suas tecnologias.  E, na Baixada Cuiabana, a Associação Regional de Produtoras Extrativistas do Pantanal (Arpep), reúne os grupos Amigas do Cerrado, Amigas da Fronteira, Frutos da Terra e Margaridas, parceiras do programa da FASE no Mato Grosso há mais de 10 anos.

A FASE, o ICV e os grupos citados organizaram o Intercâmbio “Mulheres no Agroextrativismo”, nos municípios de Cáceres e Mirassol d’Oeste.  O objetivo do encontro foi estimular a troca de experiências e saberes sobre o agroextrativismo do babaçu.  E, após quase dois dias de viagem, 10 representantes dos quatro grupos do noroeste do estado chegaram à sede da FASE em Cáceres, onde apresentaram e conheceram as atividades, conquistas, dificuldades e desafios das associações, antes de retomar a estrada para visitar os dois grupos anfitriões.

Durante os três dias de intercâmbio, promovido entre os dias 10 e 12 de maio, as mulheres compartilharam informações, técnicas, receitas e dicas ligadas ao processamento do babaçu e seus derivados, comprovados e aprovados ao degustar pratos feitos na hora, como pães, biscoitos e uma receita de espaguete criada durante o encontro. Ao mesmo tempo, a necessidade de união, organização e empoderamento das agricultoras foram evidenciadas ao longo de todo o intercâmbio, principalmente ao perceberem que compartilhavam vários problemas enfrentados no dia a dia, como a dificuldade de acesso a políticas públicas ou a aceitação e reconhecimento de suas atividades e direitos pela sociedade, começando pelas famílias.

Força das mulheres

Foto: Andrés Pasquis / Gias
(Foto: Andrés Pasquis / Gias)

“Aos 25 anos, nunca tinha saído mais de cinco quilômetros de casa, onde meu papel era cozinhar e ter filhos, como mandava meu marido. Não fazia mais nada e quase não falava com ninguém, até ficar deprimida e doente. Reagi e comecei a trabalhar fora e a fazer parte de grupos de mulheres. Desde então, nunca parei e agora tenho uma renda”, contou uma das agricultoras presentes, ilustrando uma realidade bem próxima de todas elas. “Foi o associativismo que nos liberou. Hoje, já não dependemos de ninguém e contribuímos com a renda da comunidade. É uma coisa positiva para todos e, após muita luta, nossos maridos começaram a perceber isso e a nos apoiar, mas ainda há muito trabalho por fazer”, disse outra.

Para Rita Julia de Souza Zocal, presidente do Grupo das Margaridas, além de todas essas dificuldades apresentadas pelas agricultoras, é preciso enfrentar ainda outros problemas, porque o trabalho dos agricultores familiares segue sendo pouco valorizado pelos governos. Todos os grupos de mulheres que participaram do encontro tentam acessar o Plano de Aquisição de Alimentos (PAA) e a Política Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). A Arpep busca aliviar esses inconvenientes planejando uma diversificação de sua produção agroextrativista e acessar outros mercados com o auxílio de tabelas nutricionais e códigos de barra em seus produtos, conhecidos pela marca “Do Cerrado”.

Por outro lado, os grupos de mulheres de Cotriguaçu enfrentam graves dificuldades. Já são dois anos sem acesso a políticas públicas devido a desorganização dos órgãos responsáveis do município. No entanto, conseguem garantir uma renda por causa das encomendas e com a participação em feiras e outros eventos.

O futuro da agricultura familiar

A atual conjuntura política do país e o recente desmantelamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) pelo governo interino de Michel Temer (PMDB), deixa todos os participantes preocupados com o futuro da agricultura familiar. No entanto, as agricultoras não desanimam. “Se depender de nós, mulheres, vamos à luta para defender nossos direitos, os da agricultura familiar e da agroecologia. Já estamos acostumadas a lutar mesmo”, exclamou Rita durante a avaliação final do intercâmbio.

Foto: Andrés Pasquis / Gias
(Foto: Andrés Pasquis / Gias)

No caminho de volta para Cotriguaçu, as agricultoras familiares e educadoras do ICV pensavam em como receber suas anfitriãs para um próximo encontro. Suzanne Scaglia, educadora do Instituto, explicou que a instituição está passando por um momento de reflexão e que a experiência foi muito enriquecedora, permitindo outras abordagens e possibilidades de atuação e assessoria com a agricultura familiar.

As integrantes da Arpep e os educadores da FASE expressaram a vontade de seguir em contato com os grupos. O programa da FASE no Mato Grosso, seguindo os princípios da agroecologia, atua principalmente com Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater), valorizando sempre a troca de conhecimentos com base em uma metodologia humana e participativa, considerando a realidade local com foco no empoderamento das agricultoras e agricultores.

[1] Edição de texto publicado originalmente pelo Gias, do qual a FASE é parte.

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