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24/08/2017Movimentos Sociais

Análise da crise brasileira e mundial marca debate em seminário nacional

Mesa de abertura do evento reuniu representantes de organizações da sociedade civil e movimentos sociais e foi marcada por críticas ao modelo capitalista violador de direitos


Amanda Proetti¹

A crise política brasileira e seus efeitos sobre o debate das alternativas ao atual modelo de desenvolvimento permeou a mesa de debate que abriu o Seminário Nacional “A Agenda das Resistências e as Alternativas para o Brasil: Um olhar desde a sociedade civil” no dia 16 de agosto. Intitulada “As Crises”, a atividade partiu da orientação de olhar as condições de sustentação de uma transição a outro modelo de sociedade. Elementos como reinvenção e aprofundamento da democracia direta, enfrentamento às grandes corporações e aos limites planetários, democratização das comunicações e fortalecimento das mídias alternativas e atenção ao genocídio da juventude negra foram alguns dos que nortearam o debate.

“A crise está em toda parte e se manifesta como a crise da democracia. É uma coincidência que os governos considerados progressistas na região da América Latina estão caindo ao mesmo tempo. Olhem para o mundo”. Com esta fala, Cândido Grzybowski, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), abriu sua contribuição ao debate. Para ele, nenhuma das alternativas políticas postas hoje é uma alternativa válida. “A democracia é inconveniente a este capitalismo na fase em que ele está. Ela não serve. Que vença o mais forte nas leis do mercado é o que estamos enfrentando”, afirmou.

Cândido Grzybowski, do Ibase. (Foto: Abong/Reprod.)

Reginete Bispo, Instituto de Pesquisa e Assessoria em Direitos Humanos, Gênero, Raça e Etnia (Akani), trouxe luz ao debate do racismo nesta conjuntura. “Vou falar do lugar de mulher negra brasileira. De qual democracia estamos falando? Talvez tenha faltado para a esquerda não negra um olhar mais atento sobre os dois “Brasis”: o branco e o negro. Do ponto de vista econômico, vemos um empresariado que está comandando os governos e o Estado com uma posição neoliberal, mas o que salta aos olhos é um empresariado com uma mentalidade escravocrata que visa só o seu lucro e enxerga pobres e negros como seres sem direito a terem direitos. O Brasil é um país negro, com o segundo maior contingente de população negra, só perdendo para a Nigéria. Então, não dá para pensar um projeto político sem pensar a partir do povo negro”, observou.

Para a socióloga, além da economia, outro componente fundamental na luta contra o racismo é a regulação e democratização dos meios de comunicação. “Temos uma programação totalmente criminalizatória contra a população preta e pobre. Isso é uma ideologia racista e ela está sendo financiada para defender o status quo de uma elite branca com uma mentalidade escravocrata.

Paulo Carbonari, da Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (MNDH), convidou o coletivo presente na atividade a avaliar o caminho do processo de organização e luta popular: “Será que nós movimentos sociais acreditamos que o Estado poderia ser o garantidor dos direitos, este mesmo Estado que a vida inteira a gente denunciou como o principal violador dos direitos”?

O Seminário Nacional “A Agenda das Resistências e as Alternativas para o Brasil: Um olhar desde a sociedade civil” reuniu, entre 16 e 18 de agosto, importantes lideranças de movimentos sociais brasileiros para a construção de estratégias e agendas comuns frente à crise. O evento é uma realização da Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) com suas associadas Camp, Cese e Cfemea, no escopo do Projeto Sociedade Civil Construindo a Resistência Democrática; com a também associada Iser Assessoria, no escopo do Projeto Novos Paradigmas: pensar, propor, difundir; e com a Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil.

[1] Texto publicado originalmente no site Observatório da Sociedade Civil.

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