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11/04/2018Pernambuco

Caruaru recebe assembleia do Fórum de Juventudes de Pernambuco

A assembleia anual do Fórum de Juventudes de Pernambuco (Fojupe) teve como objetivo avaliar a conjuntura e planejar ações estratégicas para 2018, no contexto de perda de direitos e em ano eleitoral


Rosilene Miliotti¹

No final de março, o município de Caruaru recebeu a assembleia anual do Fórum de Juventudes de Pernambuco² (Fojupe) para avaliar a conjuntura e planejar suas ações estratégicas para o ano de 2018, no contexto de perda de direitos e em ano eleitoral . Logo no início do encontro, uma mística lembrou às diversas lutas com as quais as juventudes estão conectadas. Jovens feministas, indígenas, estudantes, quilombolas, LGBTQIs³, negras e negros, camponesas e camponeses e antiproibicionistas saudaram a memória e o legado da ex-vereadora Marielle Franco⁴ e de muitas outras lideranças que tombaram na luta por direitos.

Representantes do Centro Sabiá, da FASE e da Actionaid contribuíram com reflexões sobre a atual conjuntura em diálogo com as análises feitas pelas juventudes de cada uma das macrorregiões do estado (região metropolitana, zona da mata e agreste). Mônica Oliveira, educadora do programa da FASE em Pernambuco, iniciou explicando que não é fácil analisar uma conjuntura tão grande e complexa, mas que é um exercício importante. “Não dá para fazer análise sem considerar o contexto do golpe”, constata. Para ela é preciso localizar a defesa da democracia. “Precisamos considerar a dimensão internacional da crise e do avanço do conservadorismo que tem acontecido no mundo inteiro. O dado importante dessa conjuntura é o recrudescimento da violência, nesse contexto em que a repressão avança, inúmeros sujeitos políticos passam a expressar de maneira mais explicita seus machismos, racismos, lgbtfobia, o que tem fortalecido essas violências”, critica.

Jéssica Barbosa, assessora do programa de direito das mulheres da ActionAid no Brasil, levou para a discussão elementos importantes para o processo eleitoral em 2018. “Tem uma coisa que as pessoas têm dito é que quem dá golpe não dá golpe pra perder. Precisamos lembrar que as forças políticas estão se organizando também para as eleições, mas as eleições talvez não sejam a tábua de salvação”. Ela lembrou ainda do fenômeno das fakes news, que possivelmente irão interferir nas eleições. “Essas notícias falsas se espalham muito rápido e são muito acreditadas pela população! Nossa batalha é desconstruir isso! Temos como desafio a construção de  plataformas comuns a partir do lugar que queremos chegar. Essa diversidade talvez seja uma das grandes riquezas do Fojupe”.

Já Alexandre Pires, do Centro Sabiá, lembrou que nos anos 1970 tivemos o que se chamou de “revolução verde”. A ideia era transformar o campo brasileiro em um lugar moderno, ‘clean’. Impor uma visão urbana sobre o rural. “Esse processo levou a um caminho de negação do rural, desde então o conjunto das políticas é voltado para o urbano”, lembrou. Para ele, o Fojupe tem potencial para tirar lideranças que poderiam disputar eleições. “Precisamos disputar a comunicação que estamos fazendo. Dar um passo a mais que o facebook, twitter e instagram”.

Construindo Agroecologia no campo e na cidade

Durante o encontro, Geovane Xenofonte, coordenador geral da organização Caatinga, considerou oportuna a provocação feita pelo grupo da região metropolitana, porque toca em algumas feridas. “Há um esforço no movimento agroecológico para comunicar melhor sobre a agroecologia com a cidade, e penso que a porta de entrada é alimentação. Quando eu falo disso estou falando de relação entre pessoas e pessoas e entre pessoas e ambiente, que é para além das atividades de produção e colheita. A agroecologia pressupõe que a gente entenda a todas essas relações e lute para ter uma vida saudável. Da mesma fora que as comunidades urbanas periféricas sofrem, os agricultores também sofrem, de forma especial os agricultores familiares, que sofrem vários tipos de processos ainda muito fortes no campo, como o coronelismo, o agronegócio, a ausência de políticas públicas e a contaminação do alimento que afeta a saúde”.

Geovane segue sua reflexão dizendo que todos temos desafios e que todos somos oprimidos. “Ainda é muito difícil, mas o caminho do diálogo, de entender o que nos une e também as nossas diferenças é um caminho acertado. Existe uma articulação nacional que vem labutando essas questões e realizando encontros sobre esse tema, que é a Articulação Nacional de Agroecologia. O desafio é exatamente estreitar essa articulação”.

Jéssica lembra que quando se fala sobre  a valorização da agricultura familiar é porque a população pobre e negra está comendo o miojo (macarrão instantâneo) e bebendo suco em pó. “É uma disputa de projeto entre a agroecologia e o agronegócio. Existe um sistema que vai afastando a gente e nos colocando num projeto de morte. Somos viciados em açúcar, em glutamato, em trigo etc. Isso tem tudo a ver com a saúde do povo negro que está na periferia. E o que a agroecologia tem a ver com as mulheres? O agronegócio tem o papel de invisibilizar as mulheres sendo que na prática a mulher é a responsável pela produção”.

Constatações e desafios para as juventudes

Os jovens relataram que houve avanço no conservadorismo. O enfrentamento ao genocídio das juventudes negras e periféricas passa pelo investimento no trabalho de base, pela informação qualificada, pela coletividade e pela politização da juventude, a exemplo dos protestos onde os discursos não dialogam com um coletivo que não tem acesso aos estudos.

Outra constatação é de que após o governo Temer houve um aumento da perseguição aos indígenas. O desemprego tem atingido diretamente as juventudes, cresceu a exploração sexual de adolescentes com a chegada das obras de infraestrutura e falta políticas para juventudes do campo. Os participantes destacaram ainda a importância da juventude estar presente no fórum, mas que precisam multiplicar a informação em suas regiões para incentivar e preparar outros jovens para a militância. Ressaltaram ainda o desafio de manter a juventude organizada e não esquecer de pautar o sujeito LGBTI no campo, assim como a luta das juventudes indígenas que sofrem com imposição de um fenótipo que não é necessariamente dos indígenas do norte.

Os impactos do Porto Suape nas vidas desses jovens não ficou esquecida. Eles destacaram o quanto tem sofrido, principalmente com a chegada de obras de infraestrutura que deslocam comunidades inteiras. Por isso, é necessário a criação e o fortalecimento da comunicação entre a militância a partir de uma construção coletiva. A incidência política deve ser uma agenda contínua e que é preciso potencializar essa diversidade das juventudes.

[1] Jornalista da FASE

[2] A FASE apoia o Fojupe.

[3] Lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer e intersex.

[4] Assassinada em 14 de março após sair de um evento com mulheres negras no centro do Rio de Janeiro. O motorista, Anderson Gomes também morreu.

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