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13/09/2008Mulheres

Energia, alimentos e o futuro da vida

Energia para que e para quem? Esta foi a pergunta central de um encontro de mulheres de movimentos sociais e organizações em que a Fase participou, este mês, em Belo Horizonte


Fausto Oliveira

Energia para que e para quem? Esta foi a pergunta central de um encontro de mulheres de movimentos sociais e organizações em que a Fase participou, este mês, em Belo Horizonte. Foi o Encontro Nacional Mulheres em Luta por Soberania Alimentar e Energética. Como se depreende pelo título, as centenas de mulheres presentes fizeram um esforço de unir dois problemas que, para a maioria, parecem separados mas estão muito juntos: alimentação e energia. Mas além disso, também lançaram um olhar feminista que descobre outras imperfeições nas relações sócio-econômicas e se investe de legitimidade para propor alternativas.

Várias foram as organizações que atenderam ao chamado da Marcha Mundial das Mulheres e dos movimentos de mulheres da Via Campesina. Estava ali um retrato bastante consistente do que se passa hoje em termos de organização política da sociedade brasileira, com a presença de entidades como a Articulação Nacional de Agroecologia, a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, a Articulação do Semi-Árido, a Rede de Economia e Feminismo, a ONG Terra de Direitos, o Fórum de Reforma Urbana, CUT, Contag, Amigos da Terra Brasil, Movimento dos Trabalhadores Desempregados. Dizer estes nomes não deixa de ser uma forma de apresentar à sociedade uma imagem diferente sobre o nível de nossa organização política, bastante intenso, ao contrário do que afirmam muitos detratores.

As centenas de mulheres presentes ao encontro na capital mineira debateram a forma como o Brasil de hoje se organiza para produzir, distribuir e consumir, e os grandes resíduos e impactos deixados por este processo. É exatamente a percepção destes impactos que motiva todo um campo político a buscar um outro modelo para a produção, a distribuição e o consumo em nossa sociedade. Tome-se o exemplo dos alimentos. Grande parte do que se consome é de alimentos industrializados. O sistema de industrialização da comida propicia a distribuição nacional de alimentos padronizados e conservados à base de químicos. O transporte do alimento industrializado é poluente e consome energia. Com os lucros de atravessadores e comerciantes, o alimento chega ao consumidor muito caro, e além disso ainda é de pouca qualidade nutricional. É um exemplo de como o modelo de produção, distribuição e consumo está equivocado.

Em seu lugar, as mulheres reunidas em Belo Horizonte propõem circuitos mais curtos entre a produção e o consumo, com prioridade para alimentos saudáveis e de qualidade vindos da pequena produção familiar e de cooperativas, eliminando atravessadores e assim também democratizando a renda que o processo mobiliza (e hoje é concentrada nas indústrias). “O modelo alternativo de produção, a agroecologia, valoriza muito circuitos curtos de distribuição e comercialização, entre outras razões porque isso consome muita energia”, diz Vanessa Schottz, integrante do Programa de Agroecologia e Segurança Alimentar da Fase.

Para Julianna Malerba, participante pela Fase da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, a soberania alimentar se relaciona diretamente com a questão energética, na medida em que ambas as questões passam pelo uso que se faz dos territórios. “Qual o conteúdo do debate? Garantir segurança alimentar pela decisão sobre o uso do território, sobre o que plantar, sobre que sementes usar, sobre como fazer o contraponto a este modelo agrícola industrial. E a produção de energia também afeta o território, seja com os agrocombustíveis, seja com hidrelétricas ou usinas nucleares”, diz ela.

Evidentemente, quanto mais energia se produz, mas impactos sobre o território. Isso nos leva a pensar duas coisas. A primeira: se nosso modo de produzir e consumir exagera no uso de energia e deixa impactos horrorosos sobre o meio ambiente e populações rurais (inclusive na soberania alimentar), ele deve ser revisto. A segunda: para rever o uso exagerado de energia, precisaríamos mudar alguma coisa do modo de produzir e consumir. E por quê? Por que a maior parte da energia é usada para manter vivo o sistema industrial. Ou seja, a geração de impactos socioambientais pela produção de energia é promovida pela produção industrial que aumenta estes mesmos impactos, além de demandar sempre mais energia para continuar gerando impactos. Este é um ciclo sem fim que põe em risco algo que as mulheres têm especial legitimidade para discutir: a sustentabilidade da vida.

Sustentabilidade da vida

Manter a vida em boas condições – entendendo a vida como mais do que a vida humana, como a vida do planeta – é uma tarefa historicamente feminina. O trabalho de cuidado, seja com filhos, com a terra ou com o ambiente, vem sendo uma ocupação pouco reconhecida das mulheres ao longo de muitas gerações. Ainda que o capitalismo e o poder do Estado tentem negar, fechando os olhos para demandas femininas classificadas como anti-econômicas, a verdade é que partindo da visão de mundo feminina se chega a um ideário de manutenção. Chega-se a um espírito de sustentabilidade, capaz de propor o novo e o diferente de modo a reduzir as pressões que vêm comprometendo a vida. Vendo a reprodução do capital destruir a vida em várias dimensões, as mulheres politicamente organizadas propõem um novo modo de organizar nossa cultura e nossa economia, visando garantir que as gerações que virão consigam viver de forma integral e sustentável no mesmo e único planeta que hoje nos serve de casa.

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