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18/01/2021Mato GrossoSegurança Alimentar

FASE doa uma tonelada de sementes para famílias atingidas pela seca e as queimadas no Mato Grosso

Programa no Mato Grosso entregou 32 variedades de sementes de 14 alimentos como arroz, feijão, banana e cará, além de 6.700 mudas de plantas nativas


Alcindo Batista¹

A ação de doação de sementes tradicionais promovida pelo programa da FASE no Mato Grosso (MT) iniciou em novembro de 2020 e já entregou 1 tonelada de sementes crioulas e 6.700 mudas de plantas nativas e frutíferas. A campanha está sendo feita em parceria com a Rede de Troca de Sementes Crioulas, com o apoio da MISEREOR. A previsão é que essas entregas sejam feitas até março próximo, que é o período de plantio. 

Quilombo Ribeirão da Mutuca. Franciléia de Paula Castro / FASE

Foram disponibilizadas 32 variedades de 14 espécies regionais, entre elas arroz, feijão, mandioca, banana e algodão agroecológico. Cerca de 20 grupos foram beneficiados, dentre eles membros das comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e assentamentos da reforma agrária onde a FASE atua no MT. 

O Mato Grosso vem enfrentando uma das piores secas de sua história e, em 2020, teve que lidar com as queimadas que aconteceram no Pantanal. Diante disso, Franciléia Paula de Castos, educadora da FASE, diz que o movimento de doação de sementes crioulas possui um caráter emergencial, “considerando que várias dessas comunidades e locais tiveram suas roças atingidas pelo fogo e a seca, portanto uma baixa produtividade das áreas de produção de alimento”.

Com a expansão do agronegócio e o avanço do monocultivo, dos agrotóxicos e dos transgênicos na região, a variabilidade genética dos alimentos foi progressivamente se perdendo. “Para mim, isso [entrega de sementes tradicionais] é um resgate da nossa cultura, e isso é muito importante para nós, porque as sementes estão sumindo”, comenta Nerio Gomes de Souza, presidente da Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA). E no que depender da camponesa Miraci Silva, a ideia é avançar no uso de sementes agroecológicas, garantir a soberania e segurança alimentar dos povos locais e, futuramente, “partilhar com outros agricultores que já perderam sementes de espécies nativas da sua região”.

Feijão roxinho. Franciléia de Paula Castro / FASE

Para Laura Ferreira da Silva, da comunidade quilombola Ribeirão da Mutuca, no município de Nossa Senhora do Livramento, “essas sementes vem fortificar cada vez mais as famílias quilombolas aqui nos seus espaços, nos seus territórios e principalmente para que nós possamos continuar cada vez mais cultivando boas sementes”. 

Uma questão de soberania

Há anos a FASE incentiva o uso de sementes tradicionais e a produção agroecológica no MT. A campanha de doação de sementes, embora seja uma ação nova, está ligada com as ações que a organização já vinha fazendo de denúncia sobre o avanço do agronegócio e as suas graves consequências para o clima e para o solo. 

Há 10 anos a FASE participa da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, realizando debates sobre diversas questões como, por exemplo, o uso de transgênicos nas plantações junto às comunidades. No Mato Grosso, essa ação se dá através de alertas sobre os riscos de contaminação, mas também anunciando os sistemas de produção agroecológica, a partir das mesmas sementes crioulas que estão sendo doadas. Elas são cultivadas e preservadas ao longo dos anos nessas comunidades e são mais adaptáveis às condições locais, que vêm sofrendo mudanças drásticas nos últimos anos. 

Assentamento Roseli Nunes. Foto: Franciléia de Paula Castro / FASE

Segundo Franciléia, no caso dos transgênicos, nos últimos anos tem sido feito o monitoramento da contaminação transgênica nas sementes de milho dessas comunidades. “Fazemos esses testes para garantir que as sementes não estão sofrendo de uma contaminação genética devido ao avanço do milho transgênico que cresceu muito no Mato Grosso, além da soja transgênica que já utiliza”.

Ela alerta também para os riscos das sementes geneticamente modificadas para a soberania de um país. “A perda de variedades centenárias, próprias de uma determinada região é uma perda que não é só genética, biológica das sementes, mas uma perda econômica, cultural e da autonomia dos países”.

[1] Estagiário, sob a supervisão de Claudio Nogueira.

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