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16/06/2006Espírito Santo

FASE Espírito Santo constrói cidadania de quilombolas

A cidadania plena ainda é uma idéia distante para parte da sociedade brasileira. Muitos grupos sociais se vêem à margem das condições ideais para exigir seus direitos humanos mais básicos


Fausto Oliveira

A cidadania plena ainda é uma idéia distante para parte da sociedade brasileira. Muitos grupos sociais se vêem à margem das condições ideais para exigir seus direitos humanos mais básicos. Um destes grupos é o das comunidades quilombolas. Remanescentes de quilombos são parte da realidade social brasileira, são uma herança de africanos e seus filhos que lutaram contra a opressão escravocrata no século 19. Têm direitos como quaisquer cidadãos brasileiros. Mas atualmente sofrem rotineiras violações a seus direitos por parte de fazendeiros, empresas e outros setores. Sua capacidade de organização para a luta por direitos ainda é pequena. Para dar a quilombolas densidade política a ponto de iniciar novas lutas por sua cidadania, a FASE Espírito Santo criou a Escola de Educação Política Quilombola.

A escola acaba de realizar um curso em dez módulos visando a formação cidadã de cerca de 60 quilombolas do Espírito Santo. Estas pessoas estavam ali representando as cerca de 1.300 famílias (entre 5 e 6 mil indivíduos) que vivem no Estado. A perspectiva do curso é a de formar lideranças quilombolas, por isso parte do público atendido é de jovens, que se identificam como quilombolas e se preocupam em manter tradições e a agregação de seu grupo em torno da cultura e do território tradicionalmente ocupado por eles.

O contexto vivido pelas 33 comunidades quilombolas do Espírito Santo é dramático. A maior parte vive dentro das vastas plantações de eucalipto da Aracruz Celulose, a indústria multinacional de papel que assola o Espírito Santo há quase 40 anos, responsável por um dos maiores passivos socioambientais do Brasil. Para fazer frente aos problemas complexos nascidos desta realidade, eles precisam ser politicamente hábeis. Ocorre que, muitas vezes, a distância e a falta de informação os torna carentes de conhecimentos fundamentais. Por isso, a Escola de Educação Política Quilombola não se limita às discussões sobre cidadania, entra também pela seara da história daquele povo, da geografia da região, da linguagem adequada para o exercício da cidadania.

O curso, que terminou no último fim de semana, conquistou o coração dos remanescentes de quilombos do Espírito Santo. Muita gente nas comunidades se interessou, o que indica que os alunos sairão dali para multiplicar os conhecimentos adquiridos junto a seus amigos e parentes. Com isso, está se criando uma interação entre quilombolas atualmente muito dispersos por causa do eucalipto da Aracruz. Como resultado, já se sente o fortalecimento político do grupo, que começa a pensar estratégias de luta.

Já existe a perspectiva, por exemplo, de se produzir o “Grito pelo Território Quilombola do Sapê do Norte”. Este território é uma antiga casa de quilombolas em que a Aracruz desrespeita direitos e aniquila tradições com sua força econômica. É a cidadania brotando em meio à violência, através da integração humana e da solidariedade.

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