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01/10/2017Bahia

Feiras fortalecem troca de saberes entre agricultores familiares na Bahia

Em Laje, agricultoras e agricultores familiares apostam na diversificação de formas de comercialização dos alimentos saudáveis


Gilka Resende¹

O termo “feira livre” faz ainda mais sentido quando traduzido pela agricultora familiar Eliane Pereira, presidenta da Associação de Produtores Rurais de Sete Voltas e Cutia. Ela diz que as agriculturas e agricultores se fortalecem quando se encontram nas feiras agroecológicas, já que essas são espaços de trocas de saberes e de articulação entre as diferentes comunidades. “Temos várias formas importantes de comercializar nossos produtos, como nos pequenos comércios e nas políticas públicas, mas é na feira que temos liberdade para escolher qual preço dar aos alimentos. E esse preço é o justo”, relata Eliane, que vive em Laje, município baiano com cerca de 20 mil habitantes.

O programa da FASE na Bahia e seus parceiros, como sindicatos, associações e cooperativas, têm apostado na diversificação das vias de comercialização dos alimentos da agricultura familiar. Segundo Eliane, isso garante o escoamento da produção, um dos maiores desafios para as comunidades. Entre as diversas estratégias, a promoção de feiras é importante por viabilizar essa venda e também por promover espaços de informação e encontro, inspirando várias outras ações comunitárias.

Eliane diz que a I Feira Valores e Sabores de Laje¹ foi um marco para as agricultoras e agricultores no município. A atividade, promovida no dia 28 de julho desse ano, reuniu trabalhadoras e trabalhadores de 15 comunidades rurais. “Foi um momento importantíssimo para a troca de experiências. Minha associação chegou com hortaliças. Logo dei de cara com outra associação que produzia alimentos derivados do maracujá. Uma outra levou licor e produtos feito de coco. Vi ainda alimentos diferentes feitos de cacau e de banana. Não sabia como produzir aquilo. Foi trocando informações ali na feira que aprendi”, lembra. Os participantes ainda trocaram conhecimentos sobre: diferentes formas de produzir insumos naturais que melhoram a produção agroecológica; estratégias para otimizar o plantio em pedaços de terra muito pequenos; e cultivos consorciados, ou seja, que combinam diferentes espécies como alternativa para diminuir os riscos de pragas e doenças, e para ter mais produtos disponíveis para consumo próprio e venda.

Feira em Laje. (Foto: FASE BA)

Alimentos e confiança

Além de ser um espaço de informações, as feiras geram confiança por aproximar quem planta de quem consome os alimentos. Maria Helena Machado, educadora do programa da FASE na Bahia, afirma que, após a atividade, houve uma melhora na mobilização das comunidades rurais de Laje, que já possuem uma central de associações e estão buscando formas de participar mais ativamente da Cooperativa dos Trabalhadores na Agricultura Familiar, Economia Solidária e Sustentável dos Municípios de Mutuípe e Vale do Jiquiriçá (Coopeípe). Iniciativas semelhantes a essa também já foram promovidas em outros municípios do Baixo Sul e do Vale do Jiquiriça, como o de São Miguel das Matas, Presidente Tancredo Neves e Mutuípe.

“Todo agricultor deve se organizar, deve procurar uma associação. Foi assim que conseguimos dar muitos passos no acesso às políticas públicas”, defende Eliane. As associações que participaram da feira também costumam fornecer alimentos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).  Assim como as feiras, essas vias de comercialização ajudam as agricultoras e agricultores familiares e se livrarem dos atravessadores, que compram seus alimentos por preços injustos.

No entanto, o município de Laje está comprando menos produtos da agricultura familiar. “Reduziram bastante a verba do Pnae. Do ano passado para cá, houve uma redução de R$ 60 mil em Laje. Com isso, diminuiu a quantidade adquirida pela prefeitura junto aos agricultores familiares. E também reduziu muito o preço pago pela prefeitura para vários produtos. Os agricultores se sentem injustiçados” destaca Maria Helena. E continua: “O preço dos alimentos deve levar em conta elementos como o tempo que eles levam para serem produzidos e colhidos, e a quantidade de trabalho empregado pelos agricultores e suas famílias para fazer o manejo agroecológico de suas plantações e criações”.

Eliane destaca que a luta por um preço justo “sempre foi uma briga”. “Pessoas que trabalham no ar condicionado, com seus paletós e suas gravatas, querem dar o preço dos produtos dos agricultores, que estão na roça e que trabalham no sol forte ou na chuva. Trabalham com a enxada na mão, lidam com os pés na terra. E eles acham que têm o direito de dar o preço a nossa produção. É uma luta permanente por preço justo. Mas não existe vitória sem luta”, protesta a agricultora familiar.

(Foto: FASE BA)

De geração em geração

A partir da feira em Laje, outras ações foram realizadas pelas associações de agricultoras e agricultores familiares do município, dentre elas as mostras de degustação de alimentos agroecológicos nas escolas. Eliane diz que esses eventos mostram que a experiência de trabalho no campo pode ser acompanhada de qualidade de vida. “Já superamos vários desafios no plantio. Conseguimos vencer os agrotóxicos. Tanto vendemos como consumimos nossos alimentos”, conta. Segundo Eliane, outro efeito do trabalho com a agroecologia na região é o interesse dos mais jovens pela agricultura familiar. “Crianças e adolescentes passaram a ver que a gente está gostando de trabalhar na terra. Tem um grupo de uns 10 jovens que está plantando hortas orgânicas”, comemora.

Eliane, que tem 34 anos, é a caçula de uma família de 12 irmãos. Seu pai faleceu quando ela tinha apenas dois anos. “Minha mãe me criou sozinha com a ajuda dos meus irmãos mais velhos. Nasci com os pés na terra, na casa de farinha, na roça de mandioca. Além dos meus pais, meus avós também eram agricultores. A agricultura está no sangue, na raiz, vem de família”, relata.  E conclui: “Minha mãe, que já tem seus 80 anos, passou isso para mim. Sou mãe do Gabriel, de 10 anos, e da Stefane, de oito. Eu passo todo ensinamento para eles. Isso não é algo para ser deixado para trás. É possível viver nas zonas rurais e não necessariamente ir, após os estudos, para as áreas urbanas. É um meio de vida saudável. Tem que ser passado de geração em geração”.

[1] Atividade fez parte das ações apoiadas pela União Europeia e que vem sendo executadas pelo programa da FASE na Bahia. O conteúdo deste artigo é de nossa responsabilidade exclusiva, não podendo, em caso algum, considerar que reflita a posição da UE.

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