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06/06/2007Mato Grosso

Índios “genéricos” e a falácia do desenvolvimento

Mato Grosso tem visto posicionamentos conservadores acerca de questões envolvendo os vários povos indígenas do estado. Certos setores da classe política e da imprensa recorrem à antiga cantilena de que “há muita terra para pouco índio”, afirmam que as terras indígenas são um obstáculo ao desenvolvimento econômico e chegam a afirmar que os indígenas ameaçam a ordem e a legalidade. Reivindicam o desprezo e o descumprimento dos preceitos constitucionais que asseguram aos índios “direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”, conforme consta no artigo 231 da Constituição Federal.


Elton Domingues Rivas

Mato Grosso tem visto posicionamentos conservadores acerca de questões envolvendo os vários povos indígenas do estado. Certos setores da classe política e da imprensa recorrem à antiga cantilena de que “há muita terra para pouco índio”, afirmam que as terras indígenas são um obstáculo ao desenvolvimento econômico e chegam a afirmar que os indígenas ameaçam a ordem e a legalidade. Reivindicam o desprezo e o descumprimento dos preceitos constitucionais que asseguram aos índios “direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”, conforme consta no artigo 231 da Constituição Federal.

Tais falácias evidenciam o despreparo de muitos dos parlamentares e autoridades mato-grossenses. Ignoram o fato de que no Mato Grosso há cerca de 40 diferentes etnias, compondo um universo de culturas bem diferentes entre si. A simples menção à palavra “índios” é um erro que anula a diversidade e confina todos os povos numa única definição, a do índio genérico, o que alarga ainda mais a fenda entre real e imaginário quando se trata da questão indígena no Brasil.

É como se nos referíssemos aos “políticos” como se todos, sem exceção, fossem corruptos, oportunistas, defensores de projetos pessoais que em nada se assemelham aos anseios daqueles que deveriam representar. Reduções, representações simplistas, por mais que soem reais, podem nos jogar na perigosa armadilha das aparências, do senso comum e do preconceito.

É lamentável ainda que determinados jornalistas utilizem-se de seus espaços na imprensa para acirrar ainda mais o histórico desencontro entre índios e não-índios. Muitos cadáveres e muito sangue já foram derramados em Mato Grosso na esteira desses conflitos. Como esquecer o massacre dos índios Cinta-Larga, conhecido como a Chacina do Paralelo 11, em novembro de 1963? Ou os assassinatos do missionário Vicente Canhas, ocorrido em 6 de abril de 1987, e o do padre Rodolfo Lukenbein, em 1976, na aldeia Meruri, juntamente com o índio Simão Bororo?

A ação de parte da imprensa mato-grossense se torna ainda mais grave se considerarmos que a população indígena dispõe de poucos canais de expressão no cenário político e cultural do país. Em geral, vivem em locais de difícil acesso, com tradições orais de comunicação e estão na condição de monolíngües. O português, muitas vezes, é sua segunda língua. Os povos indígenas ainda têm inúmeras barreiras para se expressar livremente com o mundo dos não-índios. Utilizam intermediários para esse fim, e cabe aqui a ressalva de que toda tradução é uma interpretação.

Não é possível resolver os impasses relacionados à questão indígena sem obrigatoriamente passar pela solução de alguns problemas nacionais, como a modificação da estrutura agrária, a proteção ao meio ambiente, a geração de novas alternativas de emprego, o desenvolvimento sustentável, os direitos das minorias, a cidadania e inclusão social. O que deveria estar em pauta, na realidade, é o modelo que o estado de Mato Grosso e o país desejam para si e qual o papel dos índios, do meio ambiente, das comunidades tradicionais, entre outros, nesse modelo. A riqueza de Mato Grosso não está somente na agroindústria, em suas madeiras, nos recursos hídricos ou minerais, mas também na biodiversidade e nos conhecimentos de que se dispõe acerca dela. Está também na diversidade cultural de sua gente, incluindo-se aí os indígenas, que formam um mosaico de línguas e tradições reconhecidas como patrimônio cultural da humanidade.

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