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07/12/2007Justiça Ambiental

Jejum para barrar a transposição do S. Francisco

Durante a entrevista coletiva de João Pedro Stedile no Rio de Janeiro, assessores do MST conseguiram pôr o frei dom Luiz Flavio Cappio em contato com os jornalistas. Dom Cappio está realizando, tal como em 2005, um jejum pelo fim do projeto de transposição do rio São Francisco


Fausto Oliveira

Durante a entrevista coletiva de João Pedro Stedile no Rio de Janeiro, assessores do MST conseguiram pôr o frei dom Luiz Flavio Cappio em contato com os jornalistas. Dom Cappio está realizando, tal como em 2005, um jejum pelo fim do projeto de transposição do rio São Francisco. Ignorado pelos meios de comunicação em sua segunda tentativa solitária de barrar a obra, o religioso está sem comer desde o dia 27 de novembro. Seu gesto de força é mais uma tentativa de fazer o governo federal evitar esta insensatez que será a transposição do rio São Francisco, motivada principalmente pelas necessidades de empresários nordestinos.

No telefonema aos jornalistas da imprensa estrangeira, dom Cappio disse que ainda está se sentindo bem, apesar da fraqueza com o jejum. Mas disse que o governo não fez contato com ele para discutir o problema. Deve-se lembrar que dom Cappio não está fazendo jejum contra a transposição porque quer, e sim porque expressa, com um gesto individual, a posição política bastante radical de grande parte da população do nordeste. “Parece uma ditadura, os meios de comunicação estão bloqueados. Deve ter havido ordens superiores, porque a mídia não fala nada”.

Para equilibrar o silêncio da mídia e do governo, movimentos sociais que são contrários à transposição iniciam uma série de manifestações, tanto na Bahia, onde dom Cappio faz seu jejum, quanto em outros estados. Um informe do MST dá conta de que artistas famosos vão enviar carta de apoio ao religioso. Entre os signatários, estão Camila Pitanga, Dirá Paes, Chico Diaz, Marcos Winter, Silvia Buarque, Wagner Moura, Osmar Prado, Zezé Polessa, Bete Mendes, Cristina Pereira e outros. A atriz Letícia Sabatella vai em pessoa à cidade de Sobradinho entregar o apoio dos artistas a dom Luiz Flávio Cappio.

O que os mobiliza é a consciência de que um dos grandes rios brasileiros já está penalizado o suficiente por abusos cometidos no passado. O uso de suas águas para geração de eletricidade, turismo, irrigação, despejo de esgoto e outras atividades já deixaram o “Velho Chico” doente. Agora, o governo insiste com teimosia na idéia de criar dois canais para fazer a água subir até o Ceará e a Paraíba. Para João Pedro Stedile, o motivo da teimosia é muito claro: “um acordo com Ciro Gomes e a burguesia cearense”. E para dom Cappio, o acordo tem como finalidade “a fruticultura irrigada e a criação de camarão em cativeiro, não tem nada a ver com matar a sede de quem vive na seca. Qual vai ser a qualidade da água depois de 2 mil quilômetros em tubulações e às vezes correndo a céu aberto?”, ele perguntou.

Denunciando a tramóia da trsnsposição, dom Cappio também cobra a promessa feita a ele em documento pelo governo federal. Quando, entre setembro e outubro de 2005, ele fez um jejum contra o projeto, o governo prometeu publicamente não iniciar as obras até que fosse feito um amplo debate sobre as alternativas de fornecimento de água para o semi-árido nordestino. Dom Cappio terminou seu jejum, e o governo se sentiu livre para começar as obras. Quando confrontado pelos repórteres com essa realidade, o religioso deu uma resposta taxativa. “Peço força e ajuda de Deus para ir até o fim”.

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