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31/08/2007Mato Grosso

Mato Grosso sem lei: a revogação da democracia

São comuns nos rincões do Brasil, ainda e infelizmente, as violações a direitos fundamentais. O caso do Mato Grosso, contudo, está chegando a níveis mais que alarmantes. O episódio vivido por uma equipe do Greenpeace, Operação Amazônia Nativa (Opan) e dois jornalistas franceses, na semana passada, é um escândalo que ultrapassa todos os limites aceitáveis numa democracia. Presentes na cidade de Juína, noroeste do MT, para conhecer a situação do povo indígena Enauenê Nauê, os integrantes das organizações e os jornalistas foram ameaçados, intimidados, perseguidos e por fim expulsos


Fausto Oliveira

Veja aqui o vídeo “Amazônia – Uma região de poucos”, com os acontecimentos de Juína, MT.

São comuns nos rincões do Brasil, ainda e infelizmente, as violações a direitos fundamentais. O caso do Mato Grosso, contudo, está chegando a níveis mais que alarmantes. O episódio vivido por uma equipe do Greenpeace, Operação Amazônia Nativa (Opan) e dois jornalistas franceses, na semana passada, é um escândalo que ultrapassa todos os limites aceitáveis numa democracia. Presentes na cidade de Juína, noroeste do MT, para conhecer a situação do povo indígena Enauenê Nauê, os integrantes das organizações e os jornalistas foram ameaçados, intimidados, perseguidos e por fim expulsos. Ouviram de fazendeiros que se visitassem o povo Enauenê, seriam agredidos. Tudo isso na frente do prefeito, que fez coro com as ameaças, e da polícia. Um fidelíssimo retrato do Mato Grosso sem lei pode ser visto na internet, num vídeo sobre o episódio feito pelo Greenpeace publicado no site You Tube.

Tudo começou quando a equipe chegou a Juína. Antes mesmo de iniciar a visita aos indígenas, o hotel onde eles se hospedaram foi cercado por dezenas de fazendeiros enfurecidos. A equipe foi forçada a ir até a Câmara Municipal, onde fazendeiros, policiais e o prefeito Hilton Campos se reuniram para ofendê-los e ameaçá-los. Ali, o prefeito disse, como está registrado no vídeo, o seguinte: “Nós não vamos deixar vocês entrarem na área”. O ruralista Aderval Bento, presidente de uma associação de produtores rurais da região, afirmou que eles fechariam a rodovia caso a equipe insistisse em ir até a aldeia. Outro fazendeiro não identificado definiu a situação ao fazer a seguinte pergunta: “A imprensa internacional tem direito de vir aqui e levar informações sabe lá para onde sobre os nossos índios? Porque os índios são nossos!”. Em seguida, as imagens mostram o prefeito dizendo que a Opan, o Greenpeace e os jornalistas “são persona non grata na nossa comunidade”.

A sessão na Câmara Municipal de Juína terminou com o cancelamento da visita da equipe aos indígenas. A pressão estava grande demais, por isso a equipe avaliou que seria melhor recuar. De fato, o que aconteceu depois confirmou que o clima não estava para ousadia. Paulo Adário, coordenador do Greenpeace, pediu escolta policial para ir até o ponto de encontro com os indígenas e informar que a visita teria que ser cancelada. A polícia os escoltou, mas não impediu que os fazendeiros os perseguissem de carro e observassem a curta distância o constrangido encontro da equipe com os Enauenê. Depois, eles voltaram ao hotel, de onde foram impedidos de sair. Passaram a noite cercados pelos fazendeiros, que fizeram uma vigília noturna e criaram confusão no saguão do hotel. Também isto é mostrado no vídeo.

Na manhã seguinte, saíram em direção ao aeroporto. Sozinhos? Livremente? Não, com uma carreata de fazendeiros que buzinou ao longo de todo o caminho. Ao embarcar no avião, os fazendeiros foram até a beira da pista de decolagem e ofenderam o grupo com berros e palavras de ordem. Assim terminou este episódio que deixa claros alguns fatos inquestionáveis com relação ao poder do agronegócio no Brasil e no Mato Grosso, em particular: 1) no meio rural, a democracia é letra morta, pois mesmo as autoridades públicas concordam com violações de toda ordem, como a restrição à liberdade de ir e vir, de informação e expressão. 2) Vale todo tipo de coação em nome dos interesses do capital rural, com o beneplácito do poder público. 3) A própria noção de que há coisas públicas inexiste, como exemplificam os fazendeiros de Juína ao afirmar que a cidade é sua, a terra é sua, os índios são seus, a prefeitura é sua, cabendo somente a eles permitir ao restante do mundo entrar ali para qualquer finalidade que seja.

A visita que não aconteceu – A equipe da Opan, Greenpeace e jornalistas franceses tinha um único propósito: demonstrar que o território onde vivem os indígenas Enauenê Nauê está sendo desmatado pelo agronegócio. Trata-se de um povo indígena com contato com não índios relativamente recente (século 20). Parte de sua terra foi demarcada em 1996, mas ainda têm direito a outros territórios que são considerados sagrados e que compõem o ambiente onde vivem tradicionalmente. Quem vir o vídeo no You Tube também vai conhecer as ameaças feitas não às pessoas que ainda poderiam sair dali, mas aos índios, que não têm alternativa senão ficar onde sempre estiveram.

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