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14/03/2009Mulheres

Mulheres não querem pagar a conta da crise

Este ano, no Brasil, as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher foram marcadas por uma intensa mobilização em torno de questões políticas e econômicas que afligem as mulheres em todo o mundo


Gloria Regina Amaral

Entidades organizaram manifestações nos estados e nos municípios a partir de alguns eixos específicos, mas em comum trouxeram bandeiras como a luta pela legalização do aborto, contra o capitalismo patriarcal e suas conseqüências, principalmente neste momento de crise, e a violência contra as mulheres.

É certo que com a crise financeira mundial cresce a ameaça de desemprego para todos os setores sociais, mas as mulheres, como um segmento historicamente desprestigiado no que diz respeito aos direitos do trabalho, serão certamente mais prejudicadas. Já em 2008, o IBGE publicava em sua Pesquisa Mensal de Empregos o suplemento “Algumas características da inserção das mulheres no mercado de trabalho” apresentando dados que apontavam as mulheres liderando o ranking da desocupação em seis regiões metropolitanas, o que representava 57,7% dos desocupados do total das regiões estudadas (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e porto Alegre).

Preocupadas com o agravamento desta situação para todos os trabalhadores brasileiros, mas especialmente para as mulheres, entidades feministas, trabalhistas e movimentos sociais organizaram manifestações e eventos que trataram a crise financeira como principal tema das lutas do Dia Internacional da Mulher. Tanto as trabalhadoras urbanas como as rurais foram para as ruas protestar contra o modelo econômico e exigir igualdade de direitos.

A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas, organizada pela Via Campesina e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, apresentou sua pauta reivindicações em diversas cidades do país através de manifestações como marchas em vias públicas, ocupações de propriedades de algumas empresas do agronegócio e até uma ocupação pacífica no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em Brasília, com a participação de 800 mulheres. Além de divulgar o documento “ Mulheres Camponesas na luta contra o agronegócio, por Reforma Agrária e Soberania Popular”, as mulheres trabalhadoras rurais conseguiram, no dia 9 de março uma mobilização conjunta e organizada que culminou com ocupações pacíficas em diversas cidades.

Denunciando a insustentabilidade do atual modelo econômico e do agronegócio, em especial, as mulheres protestaram contra a expansão do monocultivo de eucalipto em diversas regiões. Com a ocupação da Portocel, porto de exportações da empresa Aracruz Celulose, em Aracruz, no Espírito Santo, 1300 mulheres do Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro buscaram denunciar a concentração de terras, o prejuízo à soberania alimentar devido ao uso de grandes áreas para o plantio de eucalipto para exportação, e o repasse de dinheiro público para a multinacional. A Fazenda Ana Paula, da Votorantim Celulose e Papel, no Rio Grande do Sul, também foi ocupada por cerca de 700 mulheres e em Açailândia, no Maranhão, as mulheres queimaram uma produção de toras de eucalipto em uma fazenda da Vale.

Em protestos contra a expansão da monocultura da cana-de-açúcar, o setor sucroalcooleiro também foi questionado. Simbolicamente, a maior usina de açúcar e etanol do mundo foi ocupada por 600 trabalhadoras. Ela pertence ao grupo Cosan e ocupa uma área duas vezes maior que o total destinado para a reforma agrária em São Paulo, no município de Barra Bonita, na região de Jaú. Outra manifestação ocorreu na Usina Cruangi, em Aliança, Zona da Mata Norte de Pernambuco, em protesto também contra o trabalho escravo no estado; e em Alagoas, CPT, MST e Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST) ocuparam a fazenda Campo Verde, em Branquinha, propriedade destinada a monocultura de cana-de-açúcar voltada para a produção sucroalcooleira..

Algumas cidades as entidades organizaram suas manifestações a partir de eixos temáticos, levando palavras de ordem, batucadas e muitas pessoas nas marchas que foram para as ruas: em São Paulo, o eixo “Nós não vamos pagar por essa crise! Mulheres livres! Povos soberanos!” levou mais de mais de 5 mil mulheres à manifestação organizada por mais de 60 entidades; em Belo Horizonte 200 mulheres, com o eixo “Contra a violência do capital e do Estado patriarcal” a manifestação foi organizado por mulheres do campo e da cidade, do movimento sindical e partidos políticos. No Norte de Minas o eixo temático foi “Mulheres em Movimento Mudam o Mundo” e em Juiz de Fora “Nós mulheres não vamos pagar pela crise”. Além marchas acompanhadas de batucadas e palavras de ordem, debates e oficinas organizadas pela Marcha Mundial das Mulheres também colaboraram nesta merecida homenagem. Além da crise econômica, a liberdade e a autonomia nas decisões sobre o próprio corpo continuam na pauta de lutas das entidades feministas. Temas como a legalização do aborto, a violência contra a mulher e a exigência de políticas públicas para as mulheres também mobilizaram milhares de pessoas pelo Brasil afora.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, desde fevereiro vêm sendo realizadas oficinas e debates com grupos de mulheres em vários municípios, e o eixo que orinetou as manifestações no estado foi “Não Provocamos à crise! Não vamos pagar por ela!”. No dia 7 aconteceu uma grande mobilização regional em Mossoró e nos dias 8 e 9 diversas atividades descentralizadas, com panfletagem, exposições, mobilizações em feiras de agricultura familiar. Já em Pernambuco, no Sertão do Pajeú, houve audiências públicas nas Câmaras de Vereadores e no Executivo com o objetivo de negociar propostas para implementação de políticas públicas para mulheres em dez municípios da região, e em Recife, integrantes do Fórum de Mulheres de Pernambuco e organizações parceiras fizeram um ato político no dia 6, com uma Tribuna Livre para as reivindicações do movimento de mulheres. Em Belém do Pará, aconteceu o Dia de Luta e Ação Feminista, com uma marcha irreverente e criativa pelas ruas e a participação do Fórum Municipal de Reforma Urbana, na ala das políticas públicas apresentando como uma das reivindicações o direito à cidade, representado por uma grande fantasia de ônibus, e o Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense apresentou uma exposição de fotos de suas ações e uma performance questionando o machismo, a violência e o sistema capitalista. No dia 10, cerca de 900 mulheres, integrantes da Via Campesina e do Movimento dos Trabalhadores Desempregados, vindas de diversas regiões do Estado do Rio Grande do Sul, fizeram a “Marcha pela vida e contra a violência praticada contra as mulheres”. No Rio de Janeiro, foi lançada a campanha “Eu digo não à violência contra a mulher” pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da ALERJ que, além disso, realizou, no último dia 9, a sexta edição da entrega do Diploma Mulher-Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro, com o qual a assembléia homenageia todo ano dez mulheres do estado do Rio de Janeiro, em diferentes áreas de atuação, que tenham contribuído na defesa dos direitos das mulheres. Houve também, no próprio dia 8, um evento cultural com debates, filmes e performances no Museu da República.

Mas os eventos e debates continuarão ainda pelo mês de março mobilizando as mulheres: na próxima reunião da Coordenação Nacional da Articulação Nacional de Agroecologia, que acontecerá de 31 de março a 2 de abril, no Rio de Janeiro, por exemplo, está pautado um debate sobre violência contra as mulheres relacionando o tema da violência com a agroecologia.

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