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15/05/2018Justiça Ambiental

O que há por trás da cadeia industrial da carne?

Evento realizado no Rio de Janeiro reuniu especialistas no tema. Para além do poderio econômico e de esquemas ilegais, os palestrantes apontaram que a cadeia industrial da carne causa graves impactos sociais e ambientais


Sergio, Julianna, Maureen e André. (Foto: Reprod.)

O Brasil é o maior exportador de carne de frango e de soja do mundo, segundo a publicação “A Ascensão Dos Gigantes da Carne“¹. Para manter o superávit comercial, o país está cada vez mais dependente dessas commodities. Em meados de 2000, com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na criação dos “campeões nacionais”, as corporações envolvidas nesta cadeia se tornaram centrais no atual modelo da economia brasileira. Este cenário foi incrementado recentemente com escândalos que envolvem a JBS, maior corporação do ramo, relacionados à venda de carne estragada, a famosa operação Carne Fraca; esquemas de pagamentos de propina; e fraudes em aportes do BNDES. Para além deste poderio econômico e esquemas ilegais, a cadeia industrial da carne causa graves impactos sociais e ambientais. O evento “A carne é fraca: por trás dos impactos da cadeia industrial da carne”², realizado pela Fundação Heinrich Böll no Rio de Janeiro no dia 3 de maio, refletiu sobre o tema.

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Julianna Malerba, do Grupo Nacional de Assessoria (GNA) da FASE, destacou que a flexibilização das leis ambientais se conecta com a cadeia da carne. Ela ressalta que existe “um enorme desequilíbrio na correlação de forças, com uma capacidade quase ilimitada dos grupos no poder de ali se manterem, sem que necessitem fazer concessões. Temos assistido não apenas a uma rápida reversão de direitos, mas também a hegemonização de formas predatórias e ambientalmente insustentáveis de ocupação e uso do território brasileiro”. “O modelo de produção de carne é insustentável para o planeta. É uma cadeia que provoca desmatamento, maus tratos aos animais e a carne é produzida com bastante uso de fármacos”, afirma Maureen Santos, coordenadora de Justiça Socioambiental da Fundação Heinrich Böll.

O aumento da produção de carne e grãos para ração animal transformou a paisagem brasileira nos últimos anos. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que 7.898 quilômetros quadrados foram desmatados entre agosto de 2015 e julho de 2016, grande parte no bioma do Cerrado. “Essa região é chamada de berço das águas do Brasil”, lembrou Sérgio Schlesinger. Ele destaca que “os problemas sociais e ambientais causados pela pecuária vão muito além das áreas de pastagem”. Entre eles estão as condições de trabalho. “A indústria não consegue rastrear a origem dos bois desde o nascimento até o abate. Fazendas que utilizam trabalho escravo ou que desmatam ilegalmente utilizam intermediários para “esconder” os crimes e vender seus animais aos frigoríficos”, completou André Campos, que é membro da organização e também participou do debate. 

Alternativas

Produzir e consumir carne localmente seria uma saída, evitando os impactos do transporte de grandes distâncias? Como podemos fortalecer a agroecologia, agricultura familiar de trabalhadores rurais e comunidades tradicionais que resistem ao modelo vigente? Além dos impactos sociais e ambientais da cadeia industrial da carne, reportagem em vídeo³ sobre o evento também abordou as possíveis alternativas ao modelo vigente.

[1] Autoria de Shefali Sharma, diretora do escritório europeu do Institute for Agriculture and Trade Policy (IATP).

[2] Com informações da Fundação Heinrich Böll. Assista o debate completo aqui.

[3] Reportagem veiculada pela TVT.

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