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30/07/2006Política

Roberto Rodrigues: uma avaliação nada convencional

A saída do melhor quadro da direita, no que diz respeito a agronegócio, foi muito bem planejada


Edélcio Vigna – Assessor para políticas de segurança alimentar do Instituto de Estudos Socioeconômicos – Inesc

A saída do melhor quadro da direita, no que diz respeito a agronegócio (Presidente da Associação Brasileira de Agribusiness, da Sociedade Rural Brasileira, da Organização Internacional de Cooperativas Agrícolas e da Aliança Cooperativa Internacional-ACI. Foi membro de vários Conselhos, representando o agronegócio, tais como o Conselho Monetário Nacional – CMN, Conselho de Crédito Rural e Agroindustrial – CCRA, Conselho Nacional do Agronegócio – CONSAGRO, Conselho Nacional de Política Agrícola – CNPA, Conselho Nacional de Comércio Exterior – CONCEX, Conselho da World Wildlife Foundation – WWF, entre outros.), foi muito bem planejada. Na política profissional – não estamos tratando com amadores – nada é ocasional. Noves fora a teoria da conspiração.
O ex-ministro Rodrigues estava vendo seu terreno ser minado dentro do governo. Conseguiu as maiores vitórias para o agronegócio: a renegociação da eterna dívida rural foi melhor do eles próprios esperavam; segurou até o limite a aprovação de uma lei que institui a política para agricultura familiar; conseguiu impedir que os indicies de produtividade da terra não fossem renovados; falou alto durante as negociações da OMC favorecendo o seu setor; fortaleceu politicamente a Bancada Ruralista que conseguiu se apoderar, em 2006, da Comissão de Agricultura e da Comissão de Meio Ambiente. Fez barba e cabelo. Só faltou o bigode, que o MDA segurou.

Bem, por que ele se demitiu?

Porque ficar dentro do governo até as eleições poderia (e daria) dar a entender que o agronegócio estaria apoiando Lula e não Alkmim. O agronegócio vai seguramente apoiar o PSDB, mas logo após a vitória do Lula, voltará a apoiá-lo. Voltará, normalmente, a compor a base do governo. O agronegócio é como o capital, não tem pátria ou partido. Tem lucro.

Rodrigues não é um político profissional, eleitoralmente falando, assim ele não saiu para ser candidato. Nem podia, porque já passou o prazo para as desincompatibilizações. Ele estava no governo mais para assegurar dividendos a um setor, do que por simpatia ao processo democrático. Mas, sua saída vai ter impactos políticos. A leitura mais simples será: o agronegócio não está mais com o Lula. O patronato rural não está mais com o Lula. O latifúndio não está mais com o Lula. Os grandes fazendeiros não estão mais com o Lula. Portanto, vamos apoiar o Alkmim.

O setor do patronato rural, que gosta de ter as rédeas em uma das mãos e o chicote na outra e que ainda acredita que o Brasil é uma grande senzala semi-liberta, aposta que pode desestabilizar a candidatura de Lula. Provavelmente não vai, mas vai provocar alguns estragos. Vai provocar a migração de muitos votos? Vai, vai mesmo.

Há outros fatores menores: nas negociações da OMC, onde o agronegócio quer a liberação ampla e irrestrita do mercado brasileiro, ele estava enfrentando duras críticas tanto de setores de dentro do governo, como do agronegócio. O agronegócio está passando por uma tendência de baixa, mas o preço das commodities não despencaram e as previsões são favoráveis, mas o cambio está atrapalhando o mercado nacional. Pode-se, portanto, imaginar que as conversas de Rodrigues com Pallocci e agora com Guido Matega, não foram nada cordiais. Então, por que o Dr. Rodrigues vai ficar ouvindo rosnados tanto dentro como fora do governo?

Como Rodrigues não é um político profissional, mas um quadro qualificado da direita, com uma vida marcada pela participação nas grandes associações rurais, não tinha motivos de ficar segurando um governo do qual ele não ia mais participar em 2007 “nem que a vaca tuça” e ainda ouvindo a chiação setorial.

A Bancada Ruralista, provavelmente, já sabia da demissão e, no mesmo dia, se reuniu com ele. Motivo: discutir quem vai ficar no cargo segurando a cadeira até as eleições. Com certeza, o Lula não vai indicar um novo Ministro, mas vai nomear algum técnico – o secretário executivo – para ficar no lugar do Rodrigues. Nomear alguém de fora é um desgaste político enorme e a isso ninguém do governo quer se arriscar. Já imaginaram a lista de nomes que pode aparecer condicionado a uma aliança eleitoral ainda em construção? Este quadro vai gerar mais insatisfação do que solução.

Há uma outra leitura: Lula, ao aceitar a demissão sem maiores esforços para manter Rodrigues no cargo até o resultado das eleições, fortaleceu a agricultura familiar e a reforma agrária. É uma leitura tendenciosa? Forçada? Pode ser, mas esperamos que tenha um pouco de consistência.

Independente das leituras, avaliamos que nós que defendemos a agricultura familiar e camponesa e a reforma agrária, vamos ter que aguentar um tampão, ainda comprometido com o agronegócio, e nos preparar para novas a disputas após as eleições.

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