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14/03/2017Amazonia

Santarém participa de movimento global no Dia Internacional das Mulheres

No 8 de março, ato público e outras atividades em município do oeste do Pará reivindicaram uma cidade mais estruturada para combater a violência de gênero


Gilka Resende¹

(Foto: Aldebaran Moura/FASE)

As santaneras se organizaram para participar da Parada Internacional das Mulheres, movimento que atravessou fronteiras com reivindicações específicas em favor da igualdade entre os gêneros. Diversas reivindicações foram feitas em ato público realizado no dia 8 de março. As mulheres se concentraram na sede da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e percorreram ruas do município, que tem 300 mil habitantes. Integrantes da Campanha Cidades Seguras para Mulheres compareceram para cobrar o funcionamento 24 horas da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam).

Sara Pereira, educadora do programa da FASE na Amazônia, lembra que Santarém é considerada líder em casos de violência contra a mulher na região. “A delegacia só funciona nos dias de semana e durante o dia, mas os casos de violência não têm hora para acontecer. No ano passado, apenas nos seis primeiros meses, foram quase 600 boletins de ocorrência registrados. A maioria das agressões ocorre nos fins de semana, quando as portas do órgão estão fechadas para as mulheres agredidas”, denuncia. A organização, assim como outras instituições, constrói localmente a Campanha, que é promovida em parceira com a Actionaid.

Para fortalecer a reivindicação das mulheres em favor da estruturação da delegacia em Santarém, a Organização dos Advogados do Brasil (OAB) do município acaba de lançar um abaixo-assinado sobre o tema. A FASE e a Diocese de Santarém também se somaram à iniciativa. A ideia é ampliar cada vez mais os pontos de coleta de assinaturas e depois levar o documento às autoridades públicas em Belém.

A estudante de Antropologia Lorena Vaz apoia a iniciativa. Ela foi ao ato para “se fortalecer e compartilhar apoio com outras mulheres”. “Já tive a infeliz experiência de conviver com a violência doméstica. Então, encontrei no movimento feminista e, principalmente, no dia 8 de março, uma forma para ajudar a companheiras que podem vir a passar por isso”, disse. Ela defende que, para combater o machismo, é preciso promover mais união entre as mulheres. “Devemos mostrar a nossa cara, mostrar que a gente está aqui e que tem voz”, afirma a jovem.

“As cidades não são pensadas e construídas para atender as necessidades das mulheres. A mulher que é violentada dentro de casa ainda enfrenta a falta de segurança nas ruas”, completou Sara. Além da questão da iluminação pública, a Campanha pontua que a má qualidade de serviços de transporte, educação e moradia afetam diretamente a segurança das mulheres. “Temos que romper com a ideia de que segurança tem a ver apenas com policiamento. Quando falamos em cidades mais seguras para as mulheres estamos querendo também serviços públicos de qualidade”, explica.

Desenvolvimento pras mulheres?

A manifestação em Santarém fez questão de ressaltar que a chegada de grandes empreendimentos de infraestrutura está ligada a uma lógica de desenvolvimento destruidora da Amazônia. As mulheres criticaram grandes projetos previstos para a região, como as hidrelétricas no rio Tapajós e os Portos no Lago do Maicá. A convocação do ato pontuou que esses empreendimentos afrontam maneiras de viver e impactam diretamente a vida das mulheres. “Nossas pautas são urgentes e não serão mais secundarizadas”, destacou o texto.

(Foto: Aldebaran Moura/FASE)

Edilena de Oliveira, moradora do Assentamento Agroextrativista do Lago Grande (PAE Lago Grande), não esconde seu sentimento em relação ao tema. “Corremos o risco de acabarem com o que nós plantamos, com o rio, que é a nossa vida, com as árvores à beira dos igarapés, de onde tiramos a bacaba e o patauá². Querem destruir a mãe natureza”, lamenta. No entanto, diz que “não tem medo de ser feliz” e está disposta a lutar contra a destruição das águas, das plantas e dos solos.

Além dos problemas levados pelo agronegócio, em especial pelo uso de agrotóxicos no monocultivo da soja, ela relata históricos impactos com a exploração de madeira e, ainda, a mais recente ameaça: a mineração em grande escala. A empresa de alumínio Alcoa, por exemplo, que já possui empreendimentos de bauxita na região, quer expandir seus negócios. Mas faz isso à revelia da vontade da população, que tem a posse coletiva do território de 250 mil hectares. “E a gente se vê cercado por esses grandes projetos. Isso não é nada bom. Não vamos perder o local onde temos nossas ervas e nossas roças”, garante. Questionada o que significaria para os agroextrativistas a perda de seus território, ela sentenciou: “O fim de nossas vidas!”.

Luta feminista é todo dia

(Foto: Aldebaran Moura /FASE)

“A violência contra as mulheres está em todo lugar que a gente anda. Nós trabalhamos nas propriedades e dentro de casa, e não somos reconhecidas por isso. E isso gera revolta! Muitas associações têm medo de tocar no assunto. Quero levar esse tema para a comunidade, até para a igreja”, relata Edilena, que também integra a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR) de Santarém.

O ato no oeste do Pará se somou a onda de protestos por todo o Brasil e pelo mundo. Mulheres foram às ruas pelo fim do feminicídio, contra retrocessos políticos, como a Reforma da Previdência, em defesa dos direitos sexuais e reprodutivos, contra o racismo e a LBTfobia, dentre outras demandas. “Numa só voz, ecoamos nossos gritos de protestos, exigimos que nossos direitos sejam respeitados, que nossa autonomia não seja tolhida, que nosso corpo não seja violado e que nossos territórios não sejam expropriados”, afirma Sara sobre a Parada Internacional de Mulheres, que contou com mobilizações em mais de 50 países.

[1] Jornalista da FASE com a colaboração de Aldebaran Moura, da FASE na Amazônia, e de Juliana Camara, da Actionaid.

[2] Frutos importantes da cultura alimentar regional.

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