Keka Werneck
19/02/2026 12:24
“Quando eu conheci o projeto, foi bom demais. O pessoal foi lá em casa, e nós já começamos a trabalhar juntos, produzimos as mudas, fizemos os plantios. Eles me ensinaram formas novas de plantar, eu não sabia nem o que era curva de nível, por exemplo, eu nunca tinha visto isso e aprendi. Tinha erosão, aí nós plantamos de tudo um pouco, reflorestamos e também perto das nascentes, e ficou tudo muito bom”.
O depoimento é de Silvani Inácio de Salles, da comunidade Floresta, na zona rural de Araputanga (MT). Sua família é uma das 80 famílias que participaram do projeto “Quintais Produtivos para Recuperação de Áreas Degradadas em Mato Grosso”, uma iniciativa da FASE Mato Grosso, com apoio da Fundação Banco do Brasil e em parceria com o Centro de Tecnologia Alternativa (CTA) e outras organizações sociais da região. Após dois anos de trabalho intenso e conexão com famílias da região de fronteira com a Bolívia, o projeto se encerra deixando para as famílias conhecimentos da agroecologia, equipamentos, viveiros e diversos insumos.
- Imagens do solo antes do início do projeto.
- Imagens do solo antes do início do projeto.
- Imagens do solo antes do início do projeto.
Quando a equipe da FASE MT chegou às comunidades, em 2023, encontrou um quadro alarmante: solo degradado por práticas agropecuárias destrutivas utilizadas há muitos anos. O resultado era visível, com a presença de desertificação, erosão avançada, voçorocas que chegavam a até cinco metros de profundidade e nascentes em risco. A educadora popular e engenheira agrônoma da FASE MT, Mariana Santiago, lembra do marco zero. “No início, fizemos visitas para realizar o diagnóstico nas comunidades, um levantamento das famílias que estariam interessadas em participar, explicando que o intuito era recuperar áreas degradadas mas também pensar em formas de renda familiar”, relata.
O educador popular da FASE MT, Robson Prado, observa que no diagnóstico ficou evidente o impacto do modelo convencional de exploração agropecuária, sobretudo no solo e nas nascentes. “Nos territórios identificamos a presença de um processo erosivo já bem avançado, em algumas áreas voçorocas de até 5 metros de profundidade, já atingindo o lençol freático, um nível de degradação muito alto”, certifica o engenheiro florestal do projeto.
Feito o diagnóstico, o trabalho começou com mobilização comunitária, diagnóstico participativo, coleta de sementes, construção de viveiros, produção de mudas, plantio e uma série de cursos, encontros e diálogos ao longo de todo o processo. As mulheres tiveram papel decisivo no avanço das iniciativas. “Foram elas que, em maior parte, fizeram a coleta de sementes e a produção de mudas. Quem puxa a fileira são elas”, destaca a educadora popular e engenheira agrônoma, Lucilene Castro.
Nesses dois anos de trabalho, foram produzidas 75 mil mudas nativas e frutíferas, resultado de um verdadeiro mutirão de mãos na terra. A coleta de sementes e a organização dos viveiros mobilizaram homens, mulheres, jovens e crianças, junto com a equipe da FASE MT.
O projeto chegou a comunidades de Cáceres, Lambari d’Oeste e Araputanga, divulgando Sistemas Agroflorestais (SAFs), como alternativa ao modelo convencional, mostrando que é sim possível produzir alimento, recuperar o solo e preservar o meio ambiente ao mesmo tempo. No lugar de áreas degradadas, 75.050 hectares foram ocupados por árvores nativas e frutíferas, cumprindo um propósito da FASE MT de reflorestar e proteger nascentes.
Agora, ao final do projeto, o cenário inicial está mudado. Onde havia erosão e solo ferido, hoje há verde, diversidade e água protegida. Um circuito de águas cristalinas começa a se recompor, preservando nascentes e garantindo água mineral de qualidade. Além do conhecimento sobre Sistemas Agroecológicos, o projeto deixa um legado concreto: três viveiros, microviveiros, uma roçadeira e diversos equipamentos, como luvas, perneiras, tesouras, arame, mangueiras, caixa d’água e insumos.
O coordenador do projeto, Saguio Santos, avalia que os resultados foram muito positivos. “A proposta do projeto era trazer as famílias para pensarem o processo de restauração da paisagem do seu agroecossistema e colaborar para que eles façam esse enfrentamento e conseguimos”, pontua.
Na comunidade Botas, em Araputanga, onde moram Juvanildo e Valquíria Duarte, com seus filhos, a avaliação também é muito positiva. No sítio deles, tem uma nascente de água mineral cristalina. “Estava com início de erosão, nós cercamos, com apoio da FASE MT, plantamos e do início do projeto até hoje é uma evolução imensa, a gente se sente muito grato”, comenta Juvanildo.
A coordenadora da FASE MT, Cidinha Moura, avalia que a experiência amplia o compromisso institucional com o enfrentamento da crise climática. “Tivemos a oportunidade de avançar com nosso trabalho pela preservação ambiental, das matas ciliares, das nascentes, na implantação de sistemas mais complexos, agroflorestais, com a metodologia dos quintais produtivos. Exercitamos essa tarefa importante, saímos mais fortes e despertos”, avalia Cidinha. Segundo ela, o projeto se encerra em fevereiro de 2026, com as famílias mais cientes dos caminhos a buscar para resolver as demais necessidades que têm para manter o plantio agroecológico.
*Assessora da FASE MT





