Keka Werneck
03/03/2026 13:32
O Assentamento Sadia fica às margens da BR-070, em Cáceres (MT). Pouco antes do Distrito de Nova Cáceres, já se vê, às margens do asfalto, a placa do projeto “Quintais Produtivos para Recuperação de Áreas Degradadas em Mato Grosso”, iniciativa da Fase Mato Grosso, com apoio da Fundação Banco do Brasil e parcerias locais. A placa indica o caminho: é só seguir pela estrada de chão até a primeira casa da comunidade, cheia de flores, folhagens e ramas à frente e um galinheiro na lateral. Quem atende é Eliana Martins Castro, 51. Logo põe na mesa um café coado na hora, ovo caipira, pão caseiro e conta que nasceu no Paraná e mudou para Mato Grosso com a família, sempre em sítio. Porém, como o marido foi para Várzea Grande, na Grande Cuiabá, quando surgiu a oportunidade de serem assentados, Eliana não pensou duas vezes. “Não dou conta da correria da cidade. Minha vida é morar na roça. Aqui sinto paz interior e, apesar da vida não ser exatamente como a gente sonhou, sou feliz”.
O marido não se adapta no sítio e segue trabalhando na cidade durante a semana. Então, é sozinha que Eliana segurou a área, agora já legalizada, onde faz tudo que consegue com seus dois braços. Quando ela chegou ao assentamento, era tudo pasto degradado. Aos poucos, cresce uma floresta, tem apiário, um galinheiro, viveiro de mudas frutíferas, limão, cumbaru, louro, jatobá, ervas, árvores nativas, como os belos Ipês que fazem a florada, enfim tudo produzido através de métodos agroecológicos.
O último empreendimento de Eliana foi uma parreira de maracujá. Além disso, começou a cultivar também flores ornamentais, como a alpínia branca e pink, que quer multiplicar e, quem sabe, comercializar. “Tenho uma força de leão e não estou no sítio só pela ganância e o poder que a terra dá. Estou aqui porque sou uma mulher agricultora e amo este lugar”.
Eliana é uma das fundadoras da Associação de Mulheres Agricultoras Familiares Araras do Pantanal (Amafap), criada para organizar e apoiar outras mulheres no Sadia Vale Verde. “É claro que juntas somos mais fortes, pensar junto, realizar junto”. Porém as dificuldades não são poucas. Tem muita porteira atravancando o caminho. A associação passa por ciclos mais fortes e em outros momentos mais frágil e um dos problemas é que a maioria das associadas não tem meio de transporte, moto ou carro, para se locomover e frequentar as reuniões. Mesmo assim, resistem.
Uma das diretoras da Amafap, Marta Aparecida da Silva Lopes, 63, é de São Paulo capital, mas desde os 14 anos mora em sítio. Ela também achou só pasto quando chegou ao Assentamento Sadia Vale Verde. No sítio dela, teve coleta de sementes, junto com a Fase Mato Grosso, plantio de mudas e hoje ela tem, além de árvores frutíferas e nativas, mandioca, abóbora, horta, moringa, galinheiro e apiário. “Quando a gente está em grupo, trabalhando com o coletivo, sempre é interessante, porque existe a troca de experiências e no caso foi em agroecologia. A gente não é dono da verdade, sempre alguém acrescenta alguma coisa, e isso é muito bom porque a gente se renova e renova as atividades e procura cada vez melhorar mais o que a gente está fazendo. A agroecologia, para gente, tem sido um marco principalmente, por causa da questão climática. Não existe mais produção, se não tivermos as florestas, que ajudam a equilibrar o clima. As árvores, associadas à produção, são a chave do mundo hoje, sem essa alternativa, dificilmente alguém conseguirá produzir dentro de pouco tempo”.
A tesoureira da Amafap, Meire Santos Guimarães, lembra o quanto é importante estarem juntas, para buscar editais e verbas públicas, da Conab e dos governos. “Assim já estamos plantando, produzindo, levando nossas produções na cidade de Cáceres, para o abrigo dos idoso e outras instituições”. Ela lamenta quando um programa embarga ou atrasa e as famílias ficam desassistidas pelo Estado. Para trazer recursos para casa, o filho mais velho vai trabalhar fora. “Eu e minha nora levantamos antes do sol, 4h30, e vamos para roça, plantar jiló, banana, mandioca, quiabo, batata doce, manga, caju, onde era pasto, gradeei e plantei, inclusive o algodão, se depender de mim eu produzo”.

Meire segura as sementes de feijão cedidas pela FASE MT, ao lado de Cidinha Moura, coordenadora da FASE MT, e Robson Prado, educador popular da FASE MT.
Visitando Meire, a equipe da Fase Mato Grosso acaba de entregar sementes de feijão que ela vai lançar na terra em breve. “A Fase Mato Grosso é meu braço direito, sempre esteve aqui dando assistência, orientando sobre agroecologia, já vai para 3 anos isso, incentivando sempre a plantar sem agrotóxico, fazendo o manejo certo, aprendi muita coisa e apostila do curso está ali, sempre que preciso olho lá”.
Segundo ela, em alguns dias a esperança dá lugar ao desânimo. “Mas confio em Deus e penso que vai dar certo, só que o sol é muito quente, não tem dinheiro para uma irrigação, até hoje tem gente aqui molhando de balde, de regador, precisava um investimento maior para nos apoiar, apoiar a agricultura familiar, é muito esforço, é pegar no pesado. Somos todas mães de família, prontas para trabalhar, mas queremos ajuda”. Se a vida é difícil no campo, mesmo assim Meire gosta é da roça. “Não vou sair daqui. Na cidade tudo é no dinheiro, aqui não. Se eu planto, tenho fartura, você cria uma galinha, cria um porco, acordo de manhã e não vejo a hora de ir pra horta, então essa é minha vida”.
Coordenadora da Fase Mato Grosso, Cidinha Moura, relata que o trabalho no Assentamento Sadia Vale Verde começou com as mulheres. “Aqui elas que mandam, e foram elas que que abraçaram essa luta, são elas que dominam as práticas agroecológicas, que se preocupam com a comida, porque isso para nós é fundamental, porque nossa prioridade é segurança alimentar e são elas que produzem e produzem comida de verdade”.
Educador popular da FASE Mato Grosso, o engenheiro florestal Robson Prado destaca que o projeto Quintais Produtivos, desenvolvido em 2024, 2025 até fevereiro de 2026, teve também o intuito de incentivar e dar a mão a essas mulheres. “Para gerar renda dentro das comunidades, sabendo que muitas delas são garantidoras do sustento. “Coletar a semente, produzimos mudas, plantamos e elas estão colhendo, colocando comida na mesa e também podem vender. Tudo isso junto com o processo de restauração do solo.”

Edinalva, presidente da Amafap, em sua casa, espaço onde acolhe, organiza e fortalece as ações da comunidade.
Presidente da Amafap, Edinalva Bispo de Jesus, 67, está há 30 anos no sítio e nunca viu tanta fartura e cita uma das questões que precisa aperfeiçoar urgentemente: a distribuição. “Estamos até perdendo banana, vagem, berinjela, as distâncias impedem a gente de sair até mesmo até a BR, poucos têm meio de transporte. “Os pés cresceram rapidinho, começou a produzir. Gente, mas essas goiabas produziram muito! Fiz aquele tanto de polpa de goiaba, seriguela, manga, acerola. Sou apaixonada pelas minhas plantas, a chuva que não vence, mas se você ver minha acerola, tá carregada e toda vermelhinha, cada vez que vejo um pé de planta cheio de flor eu fico emocionada e é por isso que sigo”, conta dona Edinalva. “Eu me acho uma mulher forte, já trabalhei muito na roça. Já passei por muita coisa. Meu intuito é continuar, embora os 60 já estejam pesando”.
*Assessora da FASE MT


