Rebecka Santos
09/04/2026 10:36

O encontro de pescadoras artesanais realizado em Pernambuco reuniu vozes diversas, experiências de luta e um acúmulo político de mulheres que sabem: não há justiça climática sem justiça de gênero. Em um contexto de intensificação das mudanças ambientais e avanço de grandes empreendimentos sobre territórios tradicionais, mulheres pescadoras vêm ocupando o centro do debate para denunciar violações, compartilhar estratégias de resistência e construir caminhos coletivos.

A atividade dialogou diretamente com um cenário global marcado por disputas em torno da agenda climática, como evidenciado na recente COP 30, realizada no Brasil em novembro de 2025. As participantes que estiveram na Conferência relataram contradições profundas entre o discurso institucional e a realidade vivida nos territórios. “A gente viu muita ganância na estrutura do evento. Faltou tradução para o português, o que já exclui muita gente. E, no fim, parece que as decisões continuam sendo tomadas por governos e empresas, não pelos povos”, destacou a pescadora Joana Rodrigues, da Colônia de Pescadores de Itapissuma.

A crítica à chamada “economia azul” e ao “mercado verde” apareceu com força. Embora apresentada como solução para a segurança alimentar e a crise climática, a proposta tem sido percebida pelas comunidades como mais uma frente de exploração dos territórios pesqueiros —  esta foi a fala do diretor executivo da FASE, Evanildo Barbosa. “É lamentável que a aliança de governos e empresas seja muito forte, resultando em um modelo de mercado verde que, ao invés das soluções serem provenientes dos povos, acabam sendo oriundas do mercado. As atividades da pesca não estão mais sendo movidas por pessoas da pesca, mas pelas indústrias, desconsiderando a tradição que originou a atividade pesqueira”, afirma o doutor em desenvolvimento urbano.

Hoje, de acordo com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), a pesca artesanal representa cerca de 99,7% da atividade pesqueira no Brasil, sendo que aproximadamente 50% dessa força de trabalho é composta por mulheres. Ainda assim, elas seguem enfrentando desigualdades estruturais: recebem, em média, 27% menos que os homens e permanecem sub-representadas nos espaços de decisão, segundo pesquisa conduzida por universidades federais. A pergunta que atravessou o encontro foi direta: onde estão as pescadoras na agenda climática? E não estando, onde deveriam estar?

Os relatos também evidenciaram os impactos concretos das mudanças climáticas e dos grandes empreendimentos. Poluição por petróleo, avanço de resorts sobre áreas de mangue, instalação de parques eólicos e ameaça de exploração na foz do Amazonas foram citados como fatores que têm adoecido comunidades e comprometido a continuidade da pesca artesanal. “Cada dia avança mais o processo de expulsão dos nossos territórios. Proponho criar uma estratégia de visibilidade de pescadores e pescadoras como resposta a esse cenário”, afirmou Noemia Fernandes, na Ilha de Deus.

Apesar das críticas à COP 30, a participação na Cúpula dos Povos — espaço construído pela sociedade civil em contraponto à Conferência — foi destacada como fundamental. Foi ali que mulheres das águas protagonizaram debates como o da “Vida das Mulheres no Enfrentamento à Crise Climática” e articularam a entrega da Carta Aberta dos Povos das Águas, elaborada com apoio da Fiocruz, a representantes públicos. O documento denuncia os impactos das mudanças climáticas e reivindica políticas que reconheçam e protejam os territórios tradicionais.

No plano local, as pescadoras seguem com suas denúncias sobre o que vem acontecendo em Pernambuco: desde a construção de empreendimentos turísticos em áreas sensíveis até a ausência de reconhecimento de territórios tradicionais, como no caso da luta por uma Reserva Extrativista (RESEX). Também foram relatadas dificuldades de acesso a políticas públicas e a espaços institucionais, muitas vezes marcados pela falta de informação e pela exclusão das próprias trabalhadoras da pesca.

O encontro também apontou caminhos. Entre as estratégias destacadas estão: o fortalecimento da participação nas conferências de pesca e aquicultura; o monitoramento de propostas legislativas como o PL 4789/2024; a incidência sobre planos climáticos estaduais; e a organização política para as eleições de 2026. “Importante ocupar os locais de controle social e avaliar quais candidaturas nas eleições de 2026 irão propor ações para a comunidade pesqueira. Precisamos de processos de formação para politizar os atores da pesca para identificar “quem são os nossos””, destaca Myrelly Dayseana, da Associação das Mulheres Pescadoras Artesanais de São José da Coroa Grande.

As mulheres pescadoras seguem construindo resistência, produzindo conhecimento e formulando alternativas. A invisibilização ainda é um desafio, mas encontros como este reafirmam que há um movimento vivo, organizado e comprometido com a defesa dos territórios, da vida e dos direitos.

A atividade faz parte do projeto Fortalecendo Mulheres e Suas Práticas Coletivas de Direito à Cidade com Justiça Socioambiental, realizado pela FASE PE e apoiado pela Misereor. Teve a participação de mulheres das seguintes organizações: Colônia de Pescadores de Itapissuma; Colônia de Pescadores de Rio Formoso; Colônia de Pescadores de Tamandaré; Colônia de Pescadores de Baldo do Rio/Goiana; Associação de Pescadores e Pescadoras de Carne de Vaca; Associação de Pescadores de Tejucupapo/Goiana; Colônia de pescadores de Jaboatão dos Guararapes; Associação de Pescadores de Povoação de São Lourenço/Goiana; Associação das Mulheres Pescadoras Artesanais de São José da Coroa Grande; Associação Mangue Mulher de Maracaípe; Grupo de Mulheres Pescadoras de Gaibu; e CPP – Conselho Pastoral de Pescadores(as).

*Comunicadora da FASE PE