Keka Werneck
13/04/2026 15:54

A FASE Mato Grosso apoiou a realização de uma imersão formativa promovida pelo coletivo Muxirum Jovem, reunindo jovens do campo e da cidade da região sudoeste do estado. A atividade ocorreu entre os dias 13 e 15 de março, na comunidade Acorizal, em Barão de Melgaço (MT), no Pantanal mato-grossense. Os jovens chegaram de ônibus, montaram suas barracas e aproveitaram o momento para trocar saberes, experiências e reflexões sobre agroecologia, justiça climática, cultura e o papel da juventude na construção de novos caminhos para o campo.

A iniciativa faz parte do do projeto “Muxirum Jovem: Sementes de luta, colheitas de esperança”, que é apoiada pelo Fundo Casa Socioambiental, e para construir esse espaço de debates e vivências contou com a parceira da FASE MT e de organizações como a Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneiras, a Ressolbio, ARPA, Instituto Gaia e o Programa Humedales Sin Fronteras.

A coordenadora da FASE Mato Grosso, Cidinha Moura, parafraseando o cantor e compositor Gonzaguinha, defende que é preciso acreditar e apoiar essa “rapaziada que segue em frente e segura o rojão”.

FORMAÇÃO E TROCAS DE SABERES

“Foi muito bacana a vivência, uma troca muito interessante com a família que nos acolheu, com todos os jovens de outras localidades, compartilhar nossos sonhos e desafios, com dinâmicas divertidas e momentos de emoção. Foram três dias de renovação da mística de combate ao sistema violento que tenta nos reger, trocando essa forma de viver que não nos cabe mais, por outro modelo. Então, saímos mais fortes e cientes”, avaliou o estudante de Direito da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) em Cáceres, Irineu Marcelo, de 24 anos.

Segundo ele, no encontro, do qual participou pela primeira vez, foram compartilhadas mais do que práticas agroecológicas. “Percebemos que não é só plantar sem veneno e não é só plantar agroflorestas. Temos que construir uma outra identidade cultural, uma outra sociedade que priorize o bem-estar coletivo”, afirmou. 

Irineu apresentou no encontro a experiência do Projeto Gonçalinho, iniciativa que desenvolve em Cáceres com crianças e jovens, motivados através de esporte, cultura e lazer. Em contrapartida, ouviu o relato da família acolhedora que está em situação difícil, devido aos efeitos da “lei da cota zero”, que afetou diretamente a pesca – principal fonte de renda dos moradores da comunidade. “Foi importante ver de perto os impactos deste retrocesso”, avaliou.

A programação combinou formação política, atividades culturais e práticas agroecológicas.

OUVIR A ANCESTRALIDADE

Na sexta-feira dia 13, no primeiro dia de atividades, foi realizada uma roda de conversa em volta da fogueira em um momentos de partilha de memórias e saberes tradicionais, em que os jovens ouviram dos mais velhos relatos e informações sobre como era o plantio antes,  como é viver no Pantanal e resistir.

Foto: Mariana Santiago

MÃO NA MASSA

No sábado (14), todos que estavam na imersão participaram da implantação de um Sistema Agroflorestal (SAF), com manejo do solo, poda de árvores e plantio de mudas frutíferas e espécies nativas cedidas pelo Centro de Tecnologia Alternativa (CTA), de Pontes e Lacerda (MT), sem uso de venenos. “O trabalho coletivo fortaleceu o conceito de produção sustentável aliado à recuperação ambiental”, ressalta Creunice Nascimento, engenheira florestal do CTA, que orientou a atividade. Depois de suar a camisa no plantio, a turma foi liberada para lazer, com dinâmicas educativas (torta na cara), futebol e banho no rio.

 

 

À noite, a feira cultural reuniu apresentações artísticas, como a banda local Tradição Pantaneira, e a comercialização e troca de produtos locais, como óleo de coco, sementes, tecidos e alimentos produzidos nas roças e quintais das famílias. Os participantes também receberam sementes de adubação verde, chapéus e luvas, como incentivo à continuidade das práticas agroecológicas.

OFICINA DE STENCIL

Outro destaque foi a oficina de stencil, orientada pelo coletivo Manas do Mato, de Cuiabá, que trouxe a arte como ferramenta de comunicação e resistência. A atividade mostrou aos jovens que é possível se expressar politicamente com materiais acessíveis e linguagem simples.

“A arte também pode ser uma ferramenta de transmitir uma mensagem. O stencil, por ser de fácil criação e baixo custo, ajuda a desmistificar a arte como algo distante e traz para o cotidiano com um propósito além do belo”, explicou uma das facilitadoras, a Danie.

JUVENTUDE E POLÍTICA

No último dia, domingo (15) o debate sobre juventude e política mexeu com as emoções, alguns deixaram as lágrimas rolarem, ao falar sobre o que esperam construir para o futuro. A oficina deu oportunidades sobre a conjuntura, redes sociais e democracia. Leo Rondon buscou estimular o pensamento crítico dos participantes, especialmente diante do cenário de desinformação. O Muxirum Jovem existe desde 2023, articulando jovens ligados a processos formativos em agroecologia.

“Surgimos como coletivo – cada jovem participando de suas organizações territoriais e resistindo, cada qual da sua maneira. É assim que queremos permanecer, unindo nossas forças em prol de uma possibilidade de futuro agroecológico”, reforça Maria Rita Schmitt Silva, uma das coordenadoras do Muxirum e educadora popular da Fase Mato Grosso. Segundo ela, “há uma crescente dificuldade de engajar jovens nesses espaços, o que exige novas estratégias, como a aproximação com escolas e comunidades”.

Iniciativas como essas imersões trabalham a importância da juventude na sucessão rural e a grande problemática do campo estar envelhecendo, sem que o jovem perceba o quanto é importante ele ficar. “A partir dessa preocupação e da agroecologia, o coletivo se uniu para pensar estratégias e a  juventude precisa estar inserida em processos formativos e políticos. Isso é fundamental para garantir o futuro do campo e da agroecologia”, pontuou.

Para fortalecer o coletivo, pelo menos duas vezes por ano, tem imersões como esta. O último encontro foi na comunidade quilombola do Chumbo, em Poconé (MT), em outubro do ano passado. Na pauta, Justiça Climática, segurança alimentar, comunicação e demais temáticas que possam contribuir com a conscientização e resistência da juventude do campo e da cidade.

 

*Assessora da FASE MT