22/04/2026 11:33
Chegamos a Santa Marta em um momento de encruzilhada. A economia de guerra recoloca o petróleo no centro das disputas geopolíticas, enquanto retrocessos diplomáticos e forças autoritárias avançam em várias frentes. Vemos isso na escalada da violência no Irã, Líbano, Iraque e Iêmen, e também nas ofensivas de governos e corporações sobre a América Latina para controlar petróleo e minérios. A expansão petroleira acelera justo quando se pauta o que a vida nos territórios já provou há muito tempo: a civilização petroleira precisa acabar.
A Conferência de Santa Marta recoloca no centro o que tantas negociações climáticas tentaram contornar. Após trinta anos de Conferências das Partes (COP) e acordos, as Partes apenas assistiram a piora da crise ecológica e climática. A própria COP 30 mostrou como o multilateralismo pode ser lento e insuficiente, principalmente quando o tema decisivo é empurrado para fora do texto final, apenas um mês após a liberação da licença para exploração de petróleo na foz do Amazonas.
Santa Marta não deve se tornar palco de mais um evento internacional com ideias e planos que não saem do papel ou são barrados por interesses econômicos. A extração e queima de combustíveis fósseis – assim como toda a infraestrutura petroleira de refinarias, dutos e portos – sustentam o consumo intensivo de grandes corporações e esse modelo agrominero-industrial que devastam territórios. É urgente pôr fim ao ciclo de violações.
Para a FASE, há um foco inegociável: frear a expansão da indústria petroleira e avançar no fechamento das estruturas de produção já existentes. Não se trata de “reduzir impactos” mantendo o mesmo rumo. Enquanto se abrem novas fronteiras de exploração, a transição vira discurso vazio. E, nesse cenário, a posição do Brasil preocupa. O país tenta se apresentar como liderança ambiental e climática, falando sobre transição energética ao mesmo tempo que segue ampliando sua produção de petróleo, anunciando leilões e insistindo em novas áreas de exploração. Institucionalizar a contradição não deve ser normalizado.
Ao mesmo tempo, afirmamos com clareza: o problema não se resolve trocando a matriz energética; é necessário repensar o modelo de desenvolvimento imposto. A crise climática não será resolvida com soluções que preservam a lógica de acumulação e transformam a natureza em ativo financeiro. Trocar petróleo por “minerais críticos” para as renováveis é apenas trocar o que está sendo extraído, mantendo a violência contra os ecossistemas e povos. Apostar em mercado de carbono como atalho é aprofundar a financeirização da vida e abrir espaço para novas violações de direitos, especialmente em territórios de comunidades tradicionais.
O crescimento econômico por si só não deve ser a prioridade ao pensar alternativas e soluções. Defendemos uma transição com justiça territorial e social, construída desde os territórios e não apenas por cálculos e planilhas elaboradas por cientistas. A transição precisa garantir soberania territorial para os povos e comunidades tradicionais, demarcações e titulações, a descentralização econômica, distribuição de renda, trabalho decente, direitos sociais e condições de vida plena nas cidades e não criar novas dependências e desigualdades.
Há medidas concretas que devem ganhar centralidade no debate público para viabilizar uma transição justa e popular. Taxar os super-ricos e as corporações transnacionais para financiar adaptação, reparação e justiça climática. Eliminar subsídios aos fósseis (petróleo, gás, agrotóxicos etc.), sem maquiar a mudança com incentivos reembalados. Demarcar e titular os territórios de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais garantindo plena soberania territorial. Promover uma transformação em nossa matriz agrominero-industrial e fortalecer tecnologias ancestrais e práticas locais que já sustentam modos de vida e produção compatíveis com os limites ecológicos. E, sobretudo, assegurar que trabalhadores e trabalhadoras, agricultores e agricultoras familiares, povos e comunidades sejam os protagonistas da transição justa, com direitos garantidos e poder real de decisão.
Diante da economia de guerra e do avanço de forças autoritárias na região, os “territórios livres de petróleo” podem parecer utopia, mas já são realidade em alguns países, provando um caminho possível e que deve ser ampliado. Esta é a ferramenta política que nos impede de aceitar o colapso como destino e nos impulsiona a disputar o cenário político que enfrentamos. A Conferência só terá força se houver vontade política de escutar a sociedade civil e os territórios e refletir, na agenda oficial, a urgência da vida.
