Isabelle Rodrigues
12/05/2026 11:02

A FASE participou, na última semana de abril, de uma agenda internacional em Santa Marta, na Colômbia, somando esforços na luta pelo fim da exploração dos combustíveis fósseis no âmbito da 1ª Conferência Internacional para a Eliminação dos Combustíveis Fósseis. Em um contexto de agravamento da crise climática e de avanço da indústria petroleira, organizações da sociedade civil estiveram no espaço para reforçar a urgência de uma transição justa, com garantia de direitos para comunidades e territórios.

Cúpula dos Povos: convergências e articulações 

A participação da FASE também se deu na Cúpula dos Povos por uma Saída dos Combustíveis Fósseis, realizada nos dias que antecederam a conferência. O espaço reuniu organizações e movimentos de diferentes regiões do mundo em um processo de articulação que buscou fortalecer propostas construídas a partir dos territórios e da sociedade civil. Para Maureen Santos, coordenadora do Núcleo de Políticas e Alternativas da FASE (NUPA), o encontro evidenciou um momento de convergência política de forma coletiva diante dos desafios da crise climática. “Foi um espaço extremamente potente, com organizações não só da América Latina, mas de todos os continentes. A gente viu uma convergência de maturidade na construção social, com processos que agora desembocam em declarações e diálogos mais consensuais sobre um futuro sem a exploração de combustíveis fósseis”, relata.

Segundo Maureen, essa articulação ganha ainda mais relevância no cenário global atual, marcado pelo aumento dos conflitos e pelo direcionamento de recursos para guerras, em contraste com a urgência de investimentos em soluções para a crise climática. “A importância de tratar essa transição energética, para que os combustíveis fósseis possam ficar embaixo do solo, é fundamental para que a gente possa ter uma saída de futuro e garantir a vida no planeta, com dignidade para os povos e para a natureza”, afirma.

Durante a Marcha por um Futuro Livre de Fósseis, que aconteceu no dia 27 de abril, antes das atividades oficiais da conferência, Sara Pereira, coordenadora da FASE Amazônia, destacou o papel central dos territórios na construção de alternativas ao modelo fóssil e na continuidade das articulações políticas entre diferentes processos internacionais. Ela também relacionou a mobilização em Santa Marta às lutas e conquistas da Cúpula dos Povos na COP30, realizada em Belém em 2025, apontando uma convergência crescente entre essas agendas. Segundo Sara, as soluções já existem e vêm sendo construídas nos territórios por povos e comunidades tradicionais. “As soluções vêm dos territórios. São soluções reais, efetivas, e uma transição justa só poderá acontecer com garantia de direitos territoriais e sociais, investindo em economias alternativas, como a agroecologia. A saída dos combustíveis fósseis é apostar na vida dos territórios. Queremos uma economia para a vida e não para a morte”, afirmou.

Na Cúpula dos Povos, a educadora da FASE Espírito Santo, Flávia Bernardes, no âmbito da Rede Oilwatch, participou da plenária dedicada à apresentação dos debates realizados  durante a Conferência por Territórios Livres de Combustíveis Fósseis. Segundo ela, a atividade integrou dois dias de escuta, trocas e debates com as organizações presentes, povos indígenas, quilombolas, comunidades campesinas e pescadores na construção de estratégias para manter o petróleo no subsolo e avançar para uma transição justa a partir dos territórios. Flávia destacou que os debates foram organizados em três grupos: territórios em ameaça, territórios já explorados e territórios em processo de desmantelamento das estruturas petroleiras. A partir das experiências territoriais, os grupos debateram estratégias para a proteção dos territórios e dos modos de vida diante da violência sistemática que ocorre desde o anúncio de exploração dos territórios até o desmonte das estruturas. “Um momento importante para compartilhar e integrar estratégias para deixar o petróleo no subsolo e superar a civilização petroleira de forma justa”, afirmou.

 

Pronunciamentos por alternativas justas

A FASE também divulgou, no dia 22 de abril, um pronunciamento sobre a conferência, no qual reafirma seu posicionamento crítico em relação ao modelo energético atual e à chamada “falsa transição” que mantém a lógica de exploração dos territórios. No documento, a organização destaca a necessidade de uma transformação profunda, orientada pela justiça climática, pela soberania territorial e pelo protagonismo de povos e comunidades tradicionais. “Seguimos denunciando a falsa transição que mantém a lógica de exploração e reafirmando a urgência de uma transformação profunda: com justiça climática, soberania territorial e protagonismo dos povos e comunidades. É tempo de enfrentar as contradições, pôr fim ao ciclo de violações e construir, desde os territórios, caminhos reais para uma transição justa e popular”, afirma o texto.

Além disso, a Iniciativa de Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional e Agroecologia do Fórum Social Panamazônico (FOSPA), da qual a FASE faz parte, emitiu um posicionamento no contexto da conferência em alerta para os impactos da crise global e da agricultura industrial sobre os territórios e a vida. O documento defende a agroecologia e as economias transformadoras, como a economia solidária e a economia feminista, como caminhos para recuperar territórios, fortalecer mercados locais, reduzir dependências extrativistas e construir sistemas alimentares sustentáveis. Nesse sentido, destaca estratégias de transição agroecológica que revertam os processos de “agricultura industrial”, responsáveis pela intensa redução da biodiversidade e consequente degradação dos ecossistemas, com desmatamento, desertificação, mudança no curso dos rios, uso intensivo de matérias-primas como madeira, minerais e petróleo, além da contaminação por agrotóxicos.

O documento também propõe denunciar os atos de violência socioambiental nos territórios, em especial as ações extrativistas que põem em risco os meios de vida locais, afetando a soberania e a segurança alimentar e nutricional dos povos. Defende ainda a implementação de reformas agrárias integrais que garantam soberania sobre a produção de alimentos, acesso à terra, sementes e água, bem como a reprodução social das comunidades camponesas, promovendo marcos jurídicos agroalimentares que priorizem a vida e criem barreiras para a apropriação privada de terras públicas. Por fim, ressalta a necessidade de priorizar as mulheres no acesso à terra e ao território, como medida para reduzir as desigualdades de gênero e reconhecer seu papel na sustentação das economias locais e na defesa dos bens comuns.

A declaração oficial da 1ª Conferência Internacional para a Eliminação dos Combustíveis Fósseis também foi divulgada ao final da atividade e está disponível para acesso.

*Coordenadora de Comunicação da FASE