Vitoria Rodrigues
03/06/2026 17:03
Nos terreiros de matriz africana a alimentação ocupa um lugar que vai além do preparo da comida, é por meio dela que se preservam memórias, conhecimentos, práticas de cuidado e relações coletivas construídas ao longo de gerações. E, em meio aos desafios enfrentados pelos povos tradicionais nas periferias urbanas da Amazônia, iniciativas voltadas à segurança alimentar e ao fortalecimento cultural dessa prática têm reafirmado o papel dos terreiros como espaços de resistência, saúde e produção de saberes.

Nos terreiros a alimentação é uma forma de diálogo com os Orixás e cuidado com a saúde. Foto: AFAIA/Arquivo Fundo Dema.
“‘Dize-me o que comes que eu te direi quem és’ – O modo de se alimentar dos povos tradicionais de matriz africana. No candomblé cada um mexe a panela do seu jeito e todos estão certos”, com esse nome potente e que por si só traduz a valorização dos saberes ancestrais ligados à alimentação, o projeto comunitário realizado pela Associação dos Filhos e Amigos do Ilê Iyà Axé Omi Ofá Karé (AFAIA), com o apoio do Fundo Dema, reuniu diferentes Povos Tradicionais de Matriz Africana (POTMAS), alcançando dezenas de participantes, em comunidades urbanas e periurbanas de Belém, Ananindeua, Outeiro, Marituba e Castanhal a partir do cultivo de ervas medicinais, rodas de conversa e oficinas sobre saúde e bem viver.
“No terreiro a alimentação é tudo. É uma forma de nos comunicarmos com os nossos Orixás. O alimento diz o que você pode e o que não pode comer, e porquê não pode comer determinado alimento. O alimento também é utilizado para cura quando você faz um ritual, por exemplo, como um borí, que é para dar energia, para dar força à cabeça de uma pessoa”, afirma Marilu Campelo, Iyalaxe do Ilê Iya Omin Ase Ofá Karê e coordenadora do projeto, ao falar da relação ancestral e espiritual construída a partir dos alimentos dentro dos terreiros. Segundo ela, preservar esses saberes também é uma forma de manter viva a memória, a identidade e os modos tradicionais de cuidado presentes nas comunidades de matriz africana.
O projeto promoveu também seminários e pesquisas para compreender como os alimentos circulam nesses espaços, quais práticas alimentares permanecem preservadas e de que maneira elas se relacionam com espiritualidade, saúde e cuidado coletivo. “O ‘Dize-me o que comes que eu te direi quem és’ é uma perspectiva nova de trabalhar com os saberes e com as tecnologias para a alimentação, a alimentação para a saúde e o nosso bem viver, que é pensar a nossa relação com o meio ambiente, com a produção de alimentos, com que tipo de alimentos nós consumimos”, relata Marilu.
“Esse foi um trabalho novo, onde a gente juntou a alimentação com saúde. A gente procurou trabalhar o bem viver, uma perspectiva mais saudável. Precisamos cuidar dos nossos mais velhos, precisamos que as pessoas tenham noção de que precisa ter cuidado com o excesso de sal, saber os valores, os nutrientes que tem os azeites, saber que carnes a gente utiliza. Por exemplo, algo que hoje já é comum nos terreiros, no caso do frango, a gente já não usa mais a pele da galinha, a gente tira, porque a pele está carregada de hormônio, principalmente do animal que vem das granjas, das superproduções de alimentos”, completa.
Além disso, as ações abordaram práticas sustentáveis de cultivo e foram realizados levantamentos em terreiros parceiros para mapear hábitos alimentares e formas de aquisição de alimentos. Durante a oficina “Sob as folhas de Ossãe”, participantes trocaram experiências sobre hortas em
pequenos espaços, quintais produtivos e cultivo de plantas medicinais em vasos e estruturas verticais. As atividades contaram com rodas de conversa em terreiros, escolas e instituições parceiras, além de orientações técnicas sobre manejo e cultivo. Na oficina “Vamos fazer ajeum?”, voltada à troca de conhecimentos sobre alimentos tradicionais presentes nos rituais de terreiro, o debate aconteceu em torno do valor nutricional das oferendas e a importância da preservação dos sistemas alimentares ancestrais.
O projeto alcançou diretamente mais de cem pessoas e seus benefícios para a comunidade são muitos e a longo prazo, o principal deles sendo a profissionalização das baianas de Acarajé. “Essas meninas, esses jovens, porque tem homens também, aprendem esse ofício conosco e depois eles tomam isso como uma geração de renda”, destaca a coordenadora. Além disso, outra grande contribuição do projeto foi ampliar o debate sobre alimentação saudável dentro das comunidades de terreiro, relacionando práticas alimentares ao cuidado com doenças como hipertensão, diabetes e obesidade. A iniciativa também incentivou o consumo de hortaliças e a implementação de hortas comunitárias, ação que segue em andamento.
Para a AFAIA, a experiência fortaleceu redes comunitárias e abriu caminhos para novas ações educativas voltadas aos povos tradicionais de matriz africana. A organização destaca que os resultados do projeto devem servir de base para a produção de novos materiais e para a continuidade das discussões sobre alimentação, saúde e permanência dos saberes ancestrais nos territórios urbanos amazônicos.
*Estagiária de Comunicação do Fundo Dema sob a supervisão de Élida Galvão


