Keka Werneck
24/07/2026 12:19
A coordenadora da Fase Mato Grosso, Cidinha Moura, recebeu a insígnia no evento e estendeu a homenagem a milhares de pessoas que mantêm vivas formas de produzir, de cuidar da terra, de compartilhar conhecimentos e de construir comunidades baseadas na solidariedade e no respeito à diversidade.
Fotos: Marcondes Araújo
A solenidade também marcou o lançamento do “Mapeamento Social dos Povos e Comunidades Tradicionais de Mato Grosso”, um levantamento feito pelo CEPCT-MT, em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Muito mais do que o valor cartográfico, o trabalho reúne informações repassadas pelas comunidades, que identificam seus territórios, contam suas histórias e afirmam suas identidades. O resultado é um instrumento técnico e político para orientar ações públicas, fortalecer a governança territorial e ampliar a visibilidade de dezenas de povos e comunidades tradicionais do estado.
O mapeamento pode ser acessado gratuitamente em:
https://rem.sema.mt.gov.br/wp-
Para o presidente do Conselho Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais, Marcos Antônio Camargo Ferreira, a homenagem à FASE Mato Grosso reconhece uma instituição cuja atuação se confunde com a própria história da justiça socioambiental no Estado.
Fotos: Marcondes Araújo
“A indicação da FASE à Comenda ‘Guardiões da Ancestralidade’ é o justo e necessário reconhecimento a uma entidade que se confunde com a própria história da luta por justiça socioambiental em Mato Grosso. A FASE representa a cooperação técnica e humana que constrói autonomia e cidadania para quem está no campo.”
Segundo ele, a relevância da organização está na capacidade de transformar princípios em resultados concretos para as comunidades.
“O impacto da atuação da FASE está na capacidade de traduzir as pautas do etnodesenvolvimento, da agroecologia e do bem-viver em comida de qualidade na mesa, sementes preservadas e territórios protegidos. Ao empoderar e dar suporte técnico e político às associações de base, a FASE promove a sociobiodiversidade e a governança democrática que este Conselho defende. Por sua integridade institucional, sólida cooperação com os movimentos sociais e papel histórico na salvaguarda dos territórios tradicionais, a FASE foi aclamada como merecedora desta alta honraria.”
Entre os homenageados esteve também o engenheiro agrônomo George Luiz de Lima, analista de Desenvolvimento Econômico e Social da Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (SEAF). Há anos atuando junto aos povos e comunidades tradicionais, ele destacou que o reconhecimento representa um incentivo para quem enfrenta desafios diários na construção de políticas públicas voltadas a esse segmento.
George, que visita comunidades em sua rotina de trabalho, observa que um dos maiores obstáculos a serem enfrentados ainda é fazer com que os próprios órgãos públicos reconheçam plenamente esses grupos como parte da agricultura familiar.
Ele também aponta como obstáculo a formação técnica tradicional pouco voltada aos conhecimentos e práticas ancestrais, de tal forma que quem escolhe outro caminho pode se sentir um peixe fora dágua..
“Durante muito tempo me senti até marginalizado por atuar com esse público. Receber essa homenagem mostrou que estou no caminho certo, legitima minha trajetória. O nosso trabalho exige muito diálogo, aprendizado e respeito, e nunca foi por enriquecimento, mas é gratificante ver comunidades atendidas por projetos vivendo com mais qualidade de vida, geração de renda, alimentação, moradia e dignidade. Esse reconhecimento coletivo mostra que não estamos sozinhos, tem muita gente caminhando conosco.”
Outro homenageado foi Elizeu de Farias Silva, o Xumxum, uma das principais lideranças de Mato Grosso. Ele é do Movimento Negro Unificado (MNU). Morador do bairro Cristo Rei, em Várzea Grande, é reconhecido pelo trabalho de preservação da memória do quilombo urbano da região, certificado pela Fundação Cultural Palmares em 2009.
Segundo Xumxum, embora a comunidade tenha sido desfeita em 1972, sua história permanece viva na memória dos moradores e descendentes. Ao longo de décadas, ele se tornou uma das vozes mais atuantes na valorização da cultura afro-brasileira, da ancestralidade e dos direitos das comunidades quilombolas.
Descendente de povos bantos, da região do antigo Reino do Congo, na África Central, Xumxum considera que a homenagem representa um marco. “É muito importante sermos reconhecidos, respeitados. Como disse o ativista jamaicano Marcos Garvey, quem não conhece e reconhece sua história e sua cultura é que nem árvore sem raiz”.
A agricultora familiar Maria Valéria de Morais Silva, da comunidade Serragem, em Nossa Senhora do Livramento, também participou da solenidade e, com a comenda pendurada no pescoço, afirma que esta é uma conquista construída ao longo de muitos anos de organização comunitária.
Ela é presidente da Cooperativa de Agricultores e Agricultoras Familiares Coopernossasenhora e da União das Associações de Povos Morroquianos. Nasceu e cresceu na região da Serra das Araras – um local rico em inscrições rupestres, cachoeiras e cerrrado – e acompanhou todo o processo de mobilização que levou ao reconhecimento dos povos morroquianos como comunidade tradicional.
Ressalta, porém, que o trabalho está longe de terminar. “Ainda existem muitos sem nem saber quem são”.
Atualmente, a comunidade Serragem, onde ela mora, tem 12 famílias, mas antes eram 25. Muitas deixaram o campo em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida. “O reconhecimento é uma das formas de dizer que existimos e precisamos de políticas públicas. Mas quero ressaltar que é muito bom ser morroquiana, a minha comunidade é uma paz, é um sossego.
No evento, apresentou um grupo de cururueiros de outra comunidade vizinha à dela, a Paratudal. O cururu é uma expressão cultural de Mato Grosso, e é muito forte em Serragem, Paratudal, Lajinha de Cima, Lajinha de Baixo, Cabocla, Espinhalzinho, Sucuri e Campina, e muitas outras, que resistem de geração a geração.
*Comunicadora da FASE MT





