Rebecka Santos
13/08/2026 11:43
Em um país onde as mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, discutir autocuidado é intrínseco ao debate sobre justiça de gênero. Foi com esse propósito que a FASE Pernambuco realizou, no último dia 28, a Oficina de Autocuidado e Cuidado Coletivo, reunindo mulheres de territórios periféricos da Região Metropolitana do Recife para refletir sobre descanso, saúde, economia do cuidado e fortalecimento coletivo.
“É nas rodas da vida que as mulheres se encontram e cuidam umas das outras.” Inspirada nesse princípio, a oficina promoveu uma jornada dedicada à escuta, ao fortalecimento de vínculos, à valorização dos saberes ancestrais e aos processos de cura coletiva. O grupo reuniu mulheres dos dez territórios onde a FASE Pernambuco desenvolve ações: Ilha de Deus, Carolina de Jesus, Flores, Caranguejo Tabaiares, 8 de Março, Aliança com Cristo, Sítio dos Pescadores, Vila Manchete, Peixinhos e Ocupação Lorenzon.
Entre sorrisos, lágrimas, abraços e partilhas, elas construíram um espaço onde puderam imaginar um futuro em que mulheres tenham o direito de descansar sem precisar reivindicá-lo constantemente. Nesse sentido, o encontro resgatou um princípio construído historicamente pelos movimentos feministas: o cuidado é um direito, uma responsabilidade compartilhada e uma dimensão essencial da justiça social.
O percurso metodológico foi um convite para desacelerar, respirar e voltar a atenção para si mesmas. A partir da prática de respiração Nadi Shodhana, conduzida pela educadora da FASE Pernambuco Flávia Moraes, as participantes interromperam, ainda que por algumas horas, o ritmo intenso que atravessa o cotidiano de quem ocupa simultaneamente múltiplos papéis: mãe, filha, trabalhadora, liderança comunitária, ativista, cuidadora, entre outros.
A vivência abriu caminho para uma roda de conversa sobre os momentos em que as mulheres se sentem cuidadas e quando assumem o papel de cuidadoras; o que fazem para cuidar de si e quem, de fato, cuida delas. “Ao refletirem sobre suas rotinas, muitas mulheres reconheceram que grande parte de suas vidas é dedicada aos trabalhos de cuidado não remunerados, um trabalho invisibilizado que, frequentemente, resulta em sobrecarga física e emocional”, compartilhou a educadora da FASE Pernambuco, Mere Nery.
Economia do cuidado ainda sobrecarrega mulheres
O debate dialoga diretamente com a chamada Economia do Cuidado, conceito que evidencia o conjunto de atividades indispensáveis para sustentar a vida – como cozinhar, limpar, cuidar de crianças, pessoas idosas, doentes e da própria comunidade – realizadas majoritariamente por mulheres e, na maior parte das vezes, sem remuneração ou reconhecimento social.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua 2022), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Isso significa que elas realizam cerca de 82% mais trabalho de cuidado do que eles.
Embora o Brasil tenha instituído, em 2024, a Política Nacional de Cuidados, reconhecendo o cuidado como um direito e estabelecendo diretrizes para sua organização entre Estado, famílias, comunidade e iniciativa privada, sua implementação ainda representa um desafio para garantir mudanças concretas na vida das mulheres.
Durante a oficina, as participantes também refletiram sobre como essa sobrecarga se intensifica para mulheres negras e periféricas, atravessadas simultaneamente pelo racismo estrutural, pelo patriarcado, pelas desigualdades econômicas e pela dificuldade de acesso a políticas públicas de saúde, lazer, proteção social e cuidado. Entre os relatos mais marcantes, a maternidade apareceu como uma experiência profundamente atravessada pela ausência de redes de apoio e pela responsabilização quase exclusiva das mulheres pelo cuidado cotidiano.
Primeiro, cuidar de si; depois, transformar o mundo
Ao longo do encontro, as participantes reafirmaram que o autocuidado não representa um gesto individualista, mas uma estratégia coletiva de resistência. Inspiradas na perspectiva feminista do Bem Viver, defenderam que descanso, saúde, tempo livre e lazer também são direitos humanos e condições fundamentais para que as mulheres possam seguir organizando suas comunidades, fortalecendo movimentos sociais e incidindo sobre políticas públicas.
Rompendo com a lógica da subserviência, as mulheres, em sua maioria negras, encontraram nas práticas do autocuidado e do cuidado coletivo ferramentas que as auxiliam na resistência política e na sobrevivência em suas comunidades. Um ato revolucionário que busca atenuar as consequências das desigualdades sociais em suas vidas, sem abrir mão da própria saúde e do direito ao bem viver.
“Ao final do encontro, ficou evidente que rodas como essa representam muito mais do que espaços de formação. São territórios de escuta afetiva, fortalecimento de redes, troca de saberes ancestrais e construção de solidariedade entre mulheres que compartilham desafios semelhantes e que reconhecem em seus pares a potência para resistir, transformar e florescer coletivamente”, destaca Mere Nery.
As reflexões construídas durante a oficina também apontaram caminhos para os próximos encontros do grupo, que aprofundarão debates sobre maternidade, divisão sexual do trabalho, saúde das mulheres, economia do cuidado e estratégias comunitárias capazes de fortalecer o autocuidado como prática cotidiana, política e emancipatória.
*Comunicadora da FASE PE
