Jaqueline Felipe dos Santos
17/08/2026 16:17
Nos dias 7 e 8 de agosto de 2026, a região do Baixo Tocantins, no Pará, recebeu o Encontro Final do Projeto Quintais Agroecológicos das Mulheres da Amazônia, iniciativa desenvolvida no âmbito do Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
O encontro reuniu cerca de 90 participantes, entre agricultoras, agroextrativistas e quilombolas dos estados do Amapá, Maranhão, Tocantins e Pará, além de representantes das organizações executoras do projeto, instituições parceiras e poder público. Durante os dois dias, a programação promoveu intercâmbios entre os territórios, visitas aos quintais agroecológicos, rodas de conversa e momentos de reflexão sobre os resultados, aprendizados e desafios construídos ao longo da execução do projeto.
Estiveram presentes representantes das organizações que executaram o projeto nos quatro estados: o Instituto de Mulheres Negras do Amapá (IMENA), no Amapá; a Associação dos Pequenos Agricultores do Tocantins (APATO), no Tocantins; a Associação Agroecológica Tijupá e a ACESA, no Maranhão; e o Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense (MMNEPA) e a FASE, no Pará.
Também participaram Maria Emília Pacheco, assessora nacional da FASE e integrante da coordenação do GT de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA); Viviana Mesquita, subsecretária de Mulheres Rurais do MDA; e Letícia Tura, diretora nacional da FASE.
Intercâmbio entre mulheres e territórios
A programação teve início na manhã do dia 7 de agosto, com um intercâmbio no Quilombo Moju-Miri, no município de Moju (PA). O primeiro dia foi dedicado a aproximar as participantes das experiências construídas pelas mulheres do Baixo Tocantins, possibilitando que agricultoras de diferentes territórios amazônicos compartilhassem conhecimentos, práticas produtivas e estratégias de organização.
Em Moju-Miri, as participantes se dividiram em grupos para conhecer três quintais agroecológicos de mulheres quilombolas. Parte do percurso foi realizada pelas águas, em embarcações do tipo rabeta, permitindo conhecer experiências localizadas às margens dos rios e observar a relação dos quintais com o modo de vida das famílias e com as características do território.
Durante as visitas, as mulheres puderam conhecer a diversidade presente nos quintais, conversar diretamente com as agricultoras e trocar conhecimentos sobre produção de alimentos, manejo das plantas, criação de pequenos animais, plantas medicinais, conservação da biodiversidade e outras práticas desenvolvidas pelas famílias.
Os intercâmbios também evidenciaram que os quintais vão muito além de espaços físicos de produção. Eles estão relacionados à segurança e soberania alimentar, à geração de renda, à conservação da sociobiodiversidade, à valorização dos conhecimentos tradicionais e à autonomia econômica e política das mulheres.
Após as visitas, as participantes compartilharam um café coletivo, fortalecendo um dos principais elementos da metodologia do projeto: a construção de conhecimentos a partir do encontro, da convivência e da troca direta entre as próprias mulheres.
Da comunidade quilombola às experiências agroextrativistas de Pirocaba
Ainda no dia 7, a caravana deixou Moju-Miri e seguiu para a Comunidade Agroextrativista Pirocaba, no município de Abaetetuba (PA). Na chegada, as participantes foram recebidas pelas mulheres da comunidade com um almoço agroecológico, preparado coletivamente e valorizando os alimentos e a cultura alimentar do território.
No período da tarde, o grupo voltou a se dividir para visitar diferentes quintais agroecológicos da comunidade. O intercâmbio possibilitou conhecer tanto experiências localizadas nas áreas de várzea, na Ilha PAE Pirocaba, quanto quintais situados em áreas de terra firme.
As diferentes paisagens permitiram observar como os quintais são construídos e manejados de acordo com as condições ambientais, sociais e culturais de cada lugar. Em cada experiência, as mulheres compartilharam seus conhecimentos sobre produção, alimentação, uso e manejo dos recursos naturais e as transformações promovidas a partir do fortalecimento dos seus quintais.
O intercâmbio entre mulheres de diferentes estados também possibilitou identificar semelhanças e particularidades entre os territórios amazônicos. Mesmo diante de diferentes realidades, os relatos demonstraram a centralidade do trabalho das mulheres na produção de alimentos, na conservação da biodiversidade e na manutenção dos modos de vida de suas comunidades.
Ao final das visitas em Pirocaba, foi realizada uma roda de conversa, na qual as participantes puderam compartilhar suas impressões sobre o dia, os aprendizados construídos durante os intercâmbios e as experiências que poderiam levar para seus próprios territórios.
Encontro segue no CTTA Tipiti
Depois de um dia inteiro de intercâmbios, a caravana seguiu para o Centro de Treinamento e Tecnologia Alternativa (CTTA) Tipiti, em Abaetetuba, onde as participantes ficaram alojadas. A noite contou com um jantar coletivo e momentos de convivência e integração entre as mulheres e as organizações dos quatro estados.
No dia 8 de agosto, o CTTA Tipiti recebeu a programação de encerramento do projeto. O segundo dia foi dedicado à apresentação e reflexão coletiva sobre os resultados alcançados, os desafios enfrentados durante a execução e as perspectivas para a continuidade e o fortalecimento das experiências dos quintais agroecológicos das mulheres.
O encontro permitiu olhar para a trajetória construída pelo projeto nos quatro estados e, ao mesmo tempo, discutir os caminhos necessários para que as experiências desenvolvidas não se encerrem com o término desta etapa. As falas das mulheres e das organizações reforçaram a importância da continuidade das políticas públicas voltadas às mulheres rurais e do reconhecimento dos quintais como espaços estratégicos para a agroecologia e para o fortalecimento da autonomia das mulheres.
A presença do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, por meio da Subsecretaria de Mulheres Rurais, também fortaleceu o diálogo sobre o papel do Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais e sobre a necessidade de ampliar iniciativas capazes de apoiar diretamente as mulheres e suas formas de produzir, cuidar e organizar os territórios.
Quintais que fortalecem autonomia e Bem Viver
O Encontro Final marcou o encerramento de uma etapa, mas também reafirmou a importância de dar continuidade aos processos construídos nos territórios. Ao colocar as mulheres e seus conhecimentos no centro das atividades, o projeto contribuiu para tornar visível uma produção que historicamente sustenta parte importante da alimentação das famílias e comunidades amazônicas.
Os intercâmbios em Moju-Miri e Pirocaba mostraram, na prática, que os quintais são espaços onde se articulam produção de alimentos, biodiversidade, conhecimentos tradicionais, geração de renda, cuidado, cultura e organização das mulheres.
Ao reunir mulheres do Amapá, Maranhão, Tocantins e Pará, o encontro também fortaleceu uma rede de conhecimentos e experiências que ultrapassa os limites de cada comunidade e estado. As práticas compartilhadas ao longo dos dois dias demonstraram a diversidade da Amazônia e, ao mesmo tempo, os desafios comuns enfrentados pelas mulheres na defesa de seus territórios e de seus modos de vida.
Assim, o encerramento do projeto Quintais Agroecológicos das Mulheres da Amazônia reafirmou que fortalecer os quintais significa também fortalecer a autonomia das mulheres, a agroecologia, a soberania e segurança alimentar, a sociobiodiversidade e a construção do Bem Viver nos territórios amazônicos.
*Educadora popular da Fase Amazônia




