Keka Werneck
10/09/2026 11:40
Mulheres de diferentes partes do Cerrado se reuniram em Várzea Grande (MT), entre 31 de agosto e 3 de setembro, para compartilhar experiências, trocar saberes e fortalecer a articulação em defesa dos territórios, da sociobiodiversidade e dos direitos das mulheres. Durante quatro dias, o IV Encontro das Mulheres do Cerrado promoveu debates, oficinas, intercâmbios e momentos de convivência entre participantes de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Tocantins e Maranhão.
Com o tema “Somos corpo-território: encontrar, cuidar e resistir”, o encontro contou com a participação de Maria Emília Pacheco, assessora do Núcleo Políticas e Alternativas (NuPA) da FASE Nacional. Em sua contribuição, ela chamou atenção para o conceito de ecocídio e para as ameaças que avançam sobre o Cerrado e sobre os modos de vida de seus povos e comunidades.
Fotos: Renata Fortes/Campanha Nacional em Defesa do Cerrado
Ecocídio é destruição
“Ecocídio significa destruição, a devastação da natureza, dos rios, da terra, dos alimentos, inclusive do ar”, explicou Maria Emília. Segundo ela, essa destruição também está relacionada ao desrespeito aos povos e comunidades que vivem e produzem nos territórios.
“Os povos do Cerrado estão cada vez mais cercados, antes pelos fazendeiros, agora pelas grandes corporações, que vêm abrindo fronteiras, incluindo as áreas de mineração”, alertou.
Maria Emília também chamou atenção para a tentativa de controle da natureza por grandes corporações, “como se ela pudesse ser dominada”, e para a relação entre esse modelo de exploração e o agravamento das mudanças climáticas.
Diante desse cenário, ela destacou a urgência de transformações estruturais, que passam pela democratização da terra, pela garantia dos direitos territoriais e pelo enfrentamento das desigualdades. Para Maria Emília, defender os territórios significa também defender a democracia e a construção de justiça social, ambiental, climática e alimentar.
Ao falar sobre a organização das mulheres, ela se emocionou ao destacar a potência das ações coletivas na construção de outras formas de viver. “Sempre me emociono ao ver pequenas vitórias, penso em quanto é possível estender a luta, inclusive porque estamos diante de ameaças à soberania alimentar”, afirmou.
Mulheres que se encontram para fortalecer a luta
O IV Encontro das Mulheres do Cerrado foi organizado pela Articulação de Mulheres do Cerrado, da qual a FASE Mato Grosso faz parte. A programação reuniu debates sobre mudanças climáticas, avanço do agronegócio e desigualdades sociais e seus impactos sobre a vida das mulheres.
Também estiveram em pauta temas como saúde, agroecologia, soberania alimentar, práticas tradicionais de cuidado, redes de apoio e participação política. O encontro contou ainda com momentos de intercâmbio cultural, reunindo culinária, música e dança como parte da valorização dos saberes e das identidades dos territórios.
Além das atividades de formação e debate, a programação incluiu rodas de conversa, oficinas e visitas a comunidades rurais e urbanas. Entre elas, esteve a Casa das Pretas, localizada no Centro Histórico de Cuiabá, espaço que representa uma importante conquista de enfrentamento ao racismo e de afirmação da presença e do pertencimento da cultura negra na cidade.
A força das mulheres na defesa do Cerrado
Coordenadora da FASE Mato Grosso e conselheira titular do Consea pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Cidinha Moura destacou a importância de criar espaços de encontro entre mulheres de diferentes regiões.
“Para nós é fundamental oportunizar que as mulheres se reúnam e troquem experiências. A FASE participa ativamente da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e da Agroecologia, e as mulheres são uma força para o fortalecimento do Cerrado, das florestas e das águas”, afirmou.
Para Cidinha, realizar o encontro em Várzea Grande também teve um significado especial diante do contexto de crise climática vivido na região. Mesmo em um cenário marcado pela seca e pelas altas temperaturas, comunidades seguem produzindo e mantendo seus quintais, demonstrando práticas de resistência, adaptação e cuidado com os territórios.
Ao longo dos quatro dias, as participantes compartilharam desafios, estratégias e experiências de luta, fortalecendo vínculos entre diferentes regiões do Cerrado. O encontro reafirmou o papel das mulheres na defesa da sociobiodiversidade, da soberania alimentar e dos modos de vida tradicionais.
Como resultado das discussões, as participantes construíram coletivamente uma Carta Política, reunindo demandas, compromissos e posicionamentos construídos durante o encontro.
Mais do que registrar os debates realizados, a carta busca fortalecer a articulação entre as mulheres e ampliar a defesa do Cerrado e de seus territórios. Um chamado para que as experiências e resistências compartilhadas em Várzea Grande sigam ecoando e contribuam para alertar a sociedade brasileira sobre as ameaças que colocam em risco a vida, a biodiversidade e os povos do Cerrado.
Fotos: Renata Fortes/Campanha Nacional em Defesa do Cerrado
*Assessora da FASE MT








