Ao mesmo tempo em que movimentos sociais constroem a reta final para a Cúpula dos Povos na Rio+20, jovens, mulheres, trabalhadores, trabalhadoras e ativistas de direitos lutam e se mobilizam nas ruas de centenas de cidades na Europa. Existe muito em comum entre os dois processos. Em vários países da Europa a perda de direitos, a precarização do trabalho, o seqüestro da política pelo sistema financeiro e a fragilização da democracia acumulam as condições para a emergência de amplas mobilizações de massa. Na Rio+20, as corporações e o sistema financeiro ampliam cada vez mais o controle sobre os resultados da conferência oficial, deletando direitos do rascunho do documento final, eliminando conquistas expressas em princípios e convenções aprovados no sistema internacional, entregando ao sistema financeiro o controle sobre a natureza, fortalecendo uma arquitetura institucional que enfraquecerá a idéia de uma ONU dos povos e fortalecerá a tendência de uma ONU voltada aos interesses do capital.

A Rio+20 corre o risco de se tornar o mecanismo de institucionalização e formalização do controle do sistema financeiro e das corporações sobre diversas instituições e regimes internacionais. Ao fazer isso, o frágil arcabouço de direitos conquistado ao longo de décadas de lutas globais corre o risco de perder para o avanço do controle corporativo.

De forma similar, o sistema financeiro seqüestrou e passou a controlar a política em países como Grécia e Itália.

Existem portanto pelo menos dois pontos fortes em comum entre o que acontecerá no Aterro do Flamengo no Rio e o que ocorre nas ruas européias: a financeirização da política e da natureza, e a perda de direitos em prol do aumento dos lucros das corporações e do sistema financeiro.

Tendo a crise global como preocupação central dos governos, a conferência oficial Rio+20 tenderá a ficar polarizada entre saídas frente a crise global via austeridade e recessão ou via desenvolvimentismo e consumismo visando a inclusão social. Como pano de fundo comum a ambos, haverá a legitimação da economia verde como nova forma de manutenção do crescimento econômico, dos insanos fluxos globais de investimentos e mercadorias, e de expansão da acumulação através da entrega da natureza ao mercado financeiro.

Frente a este cenário, a Cúpula dos Povos tem pela frente importantes desafios.
Deverá se somar às vozes dos povos que na Europa estão dizendo nas ruas um amplo não à perda de direitos e à financeirização da política. Deverá também buscar novas convergências que articulem lutas que hoje se realizam em múltiplos planos e territórios, e que potencializem mutuamente as novas e as tradicionais formas de organização dos movimentos sociais. E deverá buscar o difícil caminho do reconhecimento da importância das políticas de inclusão social e de manutenção do emprego, porém apontando a necessidade de alteração do modelo vigente de produção e consumo.

Por estes motivos a Cúpula dos Povos na Rio+20 não será apenas um evento. Será mais um ponto na trajetória de construção e fortalecimento de um movimento global que a cada dia incorpora novos desafios, novas dimensões, novas agendas e atores, e portanto, novas possibilidades e também contradições. Será assim um ponto crucial e estratégico nesta trajetória, pois tudo indica que poderá inaugurar um novo ciclo, onde a unidade antes existente em torno do anti-neoliberalismo poderá se ampliar para uma crítica mais profunda, que passa a colocar a natureza no centro das lutas por direitos e justiça. A luta por emprego e direitos passará a caminhar de mãos dadas com a defesa dos bens comuns e da natureza. Esse poderá ser o legado maior da Cúpula dos Povos na Rio+20 para o movimento global.