*Aercio Barbosa de Oliveira

Ainda estamos sob os efeitos do resultado das eleições realizada no dia 30 de outubro de 2022. Lula presidente do Brasil pela terceira vez, com 60,3 milhões de votos, funciona, de imediato, como paliativo ao aliviar a forte dor provocada por uma enfermidade. Essa parece a percepção de milhões de brasileiros e brasileiras, sobretudo os que votaram no Lula, e, provavelmente, parte das milhares de pessoas que se abstiveram, anularam ou votaram em branco, totalizando 37,9 milhões. A eleição de 2022, para quem ainda acreditava que a decisão do voto é uma escolha puramente racional, nos mostrou que a decisão do voto está carregada de afetos bons e ruins.

O candidato que tentava a reeleição, representante da necropolítica, teve uma votação parecida com a que teve na eleição de 2018, 58 milhões de votos. O inominável não conseguiu avançar nos três maiores colégios eleitorais do país – os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Isso não significa que eleitores e eleitoras do representante das trevas esposam com a necropolítica o racismo, a misoginia, o ódio, a homofobia e tantos sentimentos e atitudes que jogam contra a vida, a civilidade. Não concordo com a descrição de que o Brasil está dividido e de que há 58 milhões de amantes do caos social.

É inegável, no entanto, que o fenômeno do crescimento da extrema-direita, do ódio, da estupidez, do amor à ignorância chegou com consistência no Brasil. O incumbente derrotado, depois de aparelhar a máquina estatal para tentar reverter a condição de ser o primeiro presidente, desde quando foi instituída a reeleição, a não se reeleger, conseguiu mobilizar milhares de reacionários e neofascistas. Não temos, ainda, como quantificar esse contingente, mas é possível considerá-lo expressivo, barulhento e perigoso.

Portanto, nesses próximos quatro anos de governo Lula, uma das prioridades, além de enfrentar a pobreza e a desigualdade, a fome, a falta de moradia, a reconstrução das políticas sociais e tudo que possa impactar diretamente a vida das pessoas, especialmente a população empobrecida, é conter o avanço da extrema-direita em nosso país. Essa tarefa não pode ser apenas do governo. É uma tarefa também dos partidos de esquerda, das organizações e movimentos sociais. Mais do que nunca a disputa de ideias, o empenho para conquistar corações e mentes, impactar a dimensão subjetiva e intersubjetiva, está na ordem do dia. Para tal, as ações de formação política, os processos de educação popular, com os diferentes processos político-pedagógicos, devem se efetivar nos territórios, na imensidão do nosso país.

Não conteremos a extrema-direita apenas com a aplicação da lei contra ações de violência, crime de ódio, de racismo, de violência contra a mulher, de difusão de fake news nas redes sociais etc. Aplicar a lei  é necessário, mas não é suficiente. Entramos num tempo em que valores que orientam a ação das pessoas, a conduta dentro de uma sociedade, passam por transformações. Muitas, não tem vergonha alguma em defender a morte de alguns, a tortura, a volta de um regime de exceção. No Brasil, dá liga à extrema-direita, ideologicamente, o fundamentalismo religioso, o sujeito neoliberal, que segue os princípios empresariais para conduzir a sua vida – maximizar as vantagens e estar preparado para concorrência. Esses dois segmentos são importantes para garantir a existência e organicidade dessa horda que parece viver num mundo paralelo.

Reduzir o desalento material não será suficiente para conter os seguidores da barbárie. Este governo, de reconstrução do nosso precário Estado de Direito, formado por uma ampla coalizão, com democratas de diferentes tons, precisa fortalecer os meios para a autonomia da sociedade civil, estimular uma cultura cívica participativa, crítica e democrática. A nossa empreitada nos próximos anos é enfrentar a causa dessa enfermidade que pode se espraiar por toda a sociedade brasileira. Ainda há tempo e somos muitos para evitar que a doença do neofascismo se espraie pelo corpo social brasileiro.

*Coordenador da equipe da FASE RJ