Jorge Eduardo Durão*

Recentemente, o presidente da Câmara de Deputados, Arthur Lira, fez acender um sinal de alerta para os que apostam na possibilidade de, nas eleições de 2022, barrarmos a continuidade da destruição do país pela extrema direita bolsonarista e seus aliados do Centrão. Frente à perspectiva da eleição de Lula, apontada por todas as pesquisas de intenção de voto, Lira reafirma seu compromisso com os retrocessos e deixando evidente que “permanecendo um Congresso de centro-direita, nossa vontade é não retroagir nos avanços que a gente já teve”. Tais ameaças foram dirigidas explicitamente ao ex-presidente, como resposta à intenção que lhe é atribuída de revogar o teto de gastos e rever a reforma trabalhista.

Como as coisas não caminham bem para a viabilização da alternativa dos sonhos dos donos do dinheiro e de seus porta-vozes na mídia – a chamada “terceira via” –, assistiremos daqui até outubro as tentativas já em curso de enquadramento do candidato que aparece à frente nas pesquisas na moldura das políticas toleráveis para o “mercado” (leia-se interesses do setor financeiro e dos beneficiários do butim do patrimônio público através das privatizações e outros mecanismo de expropriação dos bens comuns). Ao apontar “ruídos com o centro”, decorrentes da perspectiva de revogação dos principais retrocessos a partir de 2016, tais críticos parecem não enxergar que são justamente os pontos de atrito da plataforma lulista, com agenda política e econômica dos últimos governos, que faz dele o candidato preferido da maior parcela do eleitorado.

Derrotar o fascismo não basta

Tudo isso é o pano de fundo para refletirmos sobre a importância do protagonismo do campo popular, da necessidade inadiável de dar voz às demandas e propostas de políticas dos movimentos populares e investir na constituição de uma força política que expresse essas demandas e aspirações. Temos compreensão de que a eleição de um presidente da República que expresse a derrota do fascismo não é o bastante para responder à premente necessidade de se construir um poder popular capaz de pressionar o sistema político, inclusive um governo de ampla frente política que se eleja em outubro, para adotar uma agenda estratégica de transformações sociais. Nosso compromisso é com propostas de transformações estruturais.  Avaliamos que essa não foi a estratégia do ex-presidente Lula ou do PT, ao longo dos seus governos. E entendemos que não é papel do campo popular subordinar sua atuação à questão da governabilidade, o que não exclui o compromisso de apoiar um eventual governo Lula em seus avanços na direção dessas transformações.

Os compromissos da FASE com agendas centrais de interesse do povo brasileiro – clima, biodiversidade, sistemas alimentares e água, defesa dos bens comuns, questão social e urbana e defesa de direitos coletivos face às injustiças de classe, gênero e racismo – implicam numa radicalidade que esbarra nesse contexto político adverso balizado, de um lado, por um Congresso que Arthur Lira qualifica como de “centro-direita” (mas com uma importante bancada de extrema direita) e, de outro, por um governo eleito com base em alianças suficientemente amplas para vencer as eleições e pôr fim à continuidade da destruição do Brasil pelo bolsonarismo.

Uma rápida confrontação da nossa agenda com interesses das classes sociais mais fortemente representadas no Poder Legislativo (nas diversas esferas da federação), revelam o enorme desafio que o campo popular terá de enfrentar nos próximos anos, visando a alteração substancial da correlação de forças na cena política brasileira.

Para recomeçar

Basta começarmos por agendas mais urgentes, como deter o desmatamento e a destruição da Amazônia e do Cerrado, reconstruindo os mecanismos de proteção ambiental destruídos no governo Bolsonaro e revogando a legislação antiambiental, para percebermos o poder dos antagonistas, fortemente articulados no poder fundado no regresso do país à condição de uma economia primária-exportadora. É enorme o desafio de constituição de um bloco alternativo, capaz de se contrapor vitoriosamente ao poder das mineradoras — inclusive da organização por trás daquilo que Bolsonaro chamou, cinicamente, de “mineração artesanal” — e do agronegócio, beneficiário direto ou indireto do desmatamento e forte o suficiente para fazer o Congresso aprovar a criminosa lei do veneno. Não podemos esquecer da bancada da bala, sócia dos retrocessos que favorecem a explosão de violência no campo e nas cidades.

É razoável apostar que, contra essas forças do atraso, exista um enorme potencial de mobilização de parcelas amplamente majoritárias da sociedade, que estão comendo o “pão que o diabo amassou”, a começar pelas recentes catástrofes ambientais – frutos da ação e da omissão dos governos – e seu rastro de morte e destruição, pela fome e insegurança alimentar, pelo caos social urbano – déficit de moradias seguras e falta de saneamento básico -, queda da renda do trabalho e superexploração do trabalho pelos aplicativos como Uber. No entanto, não são menores os obstáculos políticos ao enfrentamento desses problemas, decorrentes do poder dos interesses financeiros que se articulam com o processo de concentração fundiária urbana e rural.

Tudo isso aponta para o desafio de intensa mobilização autônoma dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil, do campo comprometido com as transformações estruturais da sociedade brasileira, com a compreensão de que ingressaremos num período marcado pela necessidade de fortalecimento de frentes, diálogos de convergências, campanhas unificadas, de tudo que possa contribuir para a emergência de uma força política que expresse um projeto de poder voltado aos interesses da maioria da população.

*Jorge Eduardo Durão é assessor da FASE.