Itamar Vieira Junior*

Artigo publicado originalmente em Folha de S. Paulo

A tragédia do governo Bolsonaro é percebida de maneira distinta por nossa sociedade, profundamente desigual.

Para milionários e bilionários, corre tudo bem. No momento, o único problema são as filas para a compra de jatinhos. O Brasil é o segundo país com a maior frota de aeronaves particulares do mundo, atrás apenas dos EUA. A espera por esse tipo de veículo pode adentrar o ano de 2025. Entre o início de 2021 e o início de 2022, a frota teve 8,5% de aumento.

Jatinho aguarda embarque de passageiros – Foto: Yuri G. / Unsplash

Certamente, essa elite econômica que continua a apoiar o atual governo concorda com o ministro Paulo Guedes com a ideia de que, agora sim, o país está no eixo. Antes era “empregada doméstica viajando para a Disney” e filho de porteiro querendo estudar na universidade .

No país que não é o da fantasia do senhor ministro, há um grande contingente de desempregados, pessoas vivendo em situação de insegurança alimentar, sem direito à terra e à moradia digna.

Durante os mais de três anos do atual governo, o desmonte das políticas sociais foi permanente e efetivo. Programas de habitação popular, políticas de demarcação de terras indígenas, criação de assentamentos e regularização de territórios quilombolas foram praticamente abandonados ou reduzidos a quase nada.

Basta pesquisar por informações nos órgãos responsáveis pelas políticas públicas. Segundo o Relatório de Conflitos no Campo, divulgado pela Comissão Pastoral da Terra, o ano de 2021 foi marcado pelo aumento do já alarmante índice de violência no campo: foram 109 mortes decorrentes de conflitos fundiários, alta de mais de 1.000%.

Das 109 mortes, 101 foram no Território Yanomami, graças às ações de garimpeiros que contam com incentivo do governo para explorar em áreas antes proibidas. Os yanomamis pedem socorro. E nós, o que temos feito?

Sem contar a catástrofe ambiental e as denúncias de corrupção envolvendo a pasta da Educação e da Saúde. O ex-ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, parece nem sequer saber manusear uma arma.

Aliás, facilitar o acesso da população às armas foi política de primeira ordem do atual governo. Glorificar a violência foi uma das motivações do cristianismo ao longo da história, e o ex-ministro parece não ter acompanhado nenhum dos avanços civilizatórios dos últimos séculos, incluindo o da educação, mas este é um assunto para outro momento.

E como não recordar os mais de dois anos de pandemia e todo o ultraje com que o presidente e sua claque trataram o mais grave evento sanitário em um século? A permanente sabotagem às medidas sanitárias e o imperdoável atraso na vacinação da população nos deixou o saldo de mais de mais de 660 mil mortos. Fez do Brasil um dos países com a mais alta taxa de letalidade.

A vacinação, ainda que tardia, e a própria evolução do vírus, aparentemente menos letal, foram capazes de nos dar novas perspectivas, mas a devastação da pandemia é muito recente e os cemitérios continuam apinhados de corpos que eram mais que corpos, eram pessoas. Essas pessoas eram mais que números, para as evidências da má gestão caírem no mais absoluto esquecimento.

Muitos estão fatigados com tudo o que aconteceu, do luto à crise econômica, passando pelos ataques à democracia. É natural que não queiram mais ler ou falar sobre o tema. Esse esquecimento se deve em grande medida ao procurador-geral da República e sua inércia em nos dar respostas sobre os indícios levantados pela CPI da Covid.

Tudo isso reverbera na impressionante recuperação dos índices de aprovação do governo. Assusta imaginar que o presidente da República não está sozinho: cerca de 25% da população, segundo as últimas pesquisas, apoiam suas decisões durante o mandato.

Independentemente da continuidade do atual governo ou não, teremos que conviver com a indiferença dos que apoiam esse projeto político de segregação e violência. As eleições na França, nos EUA e em várias partes do mundo demonstram claramente que a direita liberal foi substituída por um projeto extremista.

A insatisfação de grande parte da população não foi levada a sério por liberais e progressistas, e a extrema direita ganhou relevância ao “apontar” supostos culpados pelos dramas sociais urgentes, ainda que não tenha a capacidade de oferecer respostas.

É preciso refletir sobre as necessidades do mundo contemporâneo e propor soluções para os desafios de nosso tempo, que não são os mesmos de duas décadas atrás. Mas, antes, é necessário compreender as engrenagens que nos levaram a este estado trágico. Para uns, o céu engarrafado de jatinhos; para a maioria, restará pedra sobre pedra.

 

* Escritor, autor de “Torto Arado”