Foto: Jonathan Heckler / Agência RBS

Jorge Eduardo S. Durão*

“É preciso reconstruir a própria alma deste país. 

   Recuperar a generosidade, a solidariedade, o respeito às diferenças e o amor ao próximo”. 

(Presidente Lula, em seu discurso da vitória)

Não faria sentido iniciar estas reflexões sem expressar, mais uma vez, a emoção e a alegria de ver novamente a vida política brasileira protagonizada por um ser humano capaz de expressar sua empatia pelos milhões de brasileiros que sofrem. Alegria também pelo fato de, pela primeira vez nos últimos anos, nos sentirmos tomados por um verdadeiro sentimento de esperança. Por outro lado, é preciso reconhecer a evidência de que Bolsonaro recebeu mais de 58 milhões de votos – contando assim com a adesão afetiva de grande parte do eleitorado. É imperativo compreender o significado dessa adesão, pois não podemos cometer o erro fatal de supor que exista hoje no Brasil uma massa fascista de dezenas de milhões de pessoas. Prefiro acompanhar o argumento do neuropsicanalista Emanuel Aragão (que reproduzo aqui de forma simplificada) que constata que milhões de brasileiros em situação de desamparo se identificam com a exploração bolsonarista do medo e do apelo à violência, enquanto outros milhões se sentem amparados pelo compromisso de Lula com o cuidado e com a opção por “um Brasil igualitário, cuja prioridade sejam as pessoas que mais precisam”.  

No dia seguinte da apuração dos votos, no segundo turno de uma eleição decidida por menos de 2% de diferença entre os dois candidatos (mais de 2 milhões de votos), depois de uma espera angustiante pelo veredito das urnas, não poderíamos esperar que a militância identificada com a amplíssima frente democrática – revoltada ainda com todas as violações e manobras ilegais praticadas pelo bolsonarismo ao longo do processo eleitoral – estivesse identificada com a mensagem de Lula, paz e amor. As manifestações de raiva e de indignação não vão desaparecer de um momento para o outro, é evidente. A situação no entanto é mais complicada e não se esgota no terreno das emoções. O silêncio de Bolsonaro e o fechamento de rodovias por bandos extremistas de caminhoneiros – caracterizados pela deputada eleita Marina Silva como “Capitólio à moda de Bolsonaro” – permitem entrever a dureza do combate que será necessário travar no futuro próximo para desmontar as organizações criminosas a serviço do bolsonarismo e derrotar a extrema-direita. O caráter criminoso dos atentados em curso contra o Estado Democrático de Direito, tipificados no Código Penal Brasileiro – com destaque para o crime de responsabilidade praticado por Bolsonaro – impõe a responsabilização criminal dos seus autores, a começar pelo presidente golpista, e sem deixar impunes os financiadores da baderna.

Como deter a insurgência da extrema-direita, sem jogar fora a criança junto com a água do banho, ou seja, sem comprometer a busca da reconciliação entre milhões de brasileiros que foram levados a se odiar, é um desafio político de tal complexidade que não pode ser enfrentado contando apenas com os extraordinários recursos da virtuosidade política do presidente Lula. Há obstáculos políticos de diversas ordens, inclusive aqueles inerentes ao esmagamento da direita tradicional pelo bolsonarismo, e todas as contradições entre o projeto de Lula e o caráter parasitário e predatório da burguesia brasileira. Lula parece ter esperança de que a mesma classe que deu o golpe de 2016, para esmagar a força de trabalho e desconstruir os direitos trabalhistas e previdenciários, venha a apoiar o seu projeto de crescimento econômico para o qual “é preciso que o povo tenha emprego, renda, que viva com dignidade”. Apesar do meu ceticismo em relação a tal desdobramento, o amplo leque de forças políticas que se integraram à frente ampla em defesa da democracia dá margem à expectativa de que – apesar das raízes profundas da desigualdade e do autoritarismo da sociedade brasileira – tenhamos avançado no sentido da constituição de um arco de alianças comprometido com a defesa do projeto civilizatório como contraponto à barbárie bolsonarista.

Entre os elementos positivos a serem considerados no tocante ao desfecho do enfrentamento político em curso, podemos destacar o paulatino alinhamento dos governadores – inclusive aqueles que apoiaram o candidato derrotado – com o restabelecimento da ordem pública e a clivagem que já está sendo verificada, nas próprias redes sociais da extrema-direita, entre bolsonaristas raiz e eleitores moderados do atual presidente, que estão se opondo aos bloqueios das estradas e a outros atos antidemocráticos.

*Assessor da Direção Executiva da FASE e integrante do GNA.