Artigos

04/05/2020Política

Morbidade humana e o colapso do desenvolvimento

Em artigo, Marcelo Calazans, da FASE no Espírito Santo, defende que para enfrentar a Covid-19 é necessário fortalecer as redes de solidariedade que se formaram na sociedade civil brasileira, enfrentando o rebanho do ódio, além de ampliar as políticas sociais do Estado e mantê-las, neste país de eternas emergências e desigualdades


Marcelo Calazans¹

Maio de 2020. Em todo o planeta, mais de 3 milhões de pessoas infectadas pela Covid-19, chegando a um total de mais de 200 mil mortos. Nas cidades, filas de doentes esperam por vaga nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs). Os cadáveres se amontoam nos necrotérios e corredores dos hospitais. Os corpos, embalados em plásticos, se acumulam em contêineres refrigerados. São levados em caminhões. Nos cemitérios, mais covas precisam ser abertas no ritmo acelerado das escavadeiras. Adoecimentos sem visitas. Mortes sem despedidas. Enterros sem ritos.

Embora a contaminação tenha se iniciado no final de janeiro desembarcando em portos e aeroportos, em março a Covid-19 se expande pelas periferias urbanas empobrecidas, depois de circular por guetos de celebridades. No mesmo mês, atinge também povos indígenas e comunidades tradicionais quilombolas, ribeirinhas e de pesca artesanal.

No Brasil, passamos dos 400 mortos por dia, menos de 300 testes por milhão de habitantes. Para conter o ritmo da contaminação e diminuir a pressão sobre o sistema de saúde, é absolutamente necessário o isolamento social. Mas como em um país repleto de desempregados, subempregados, precarizados, escravizados, dezenas de milhões à margem de todo e qualquer direito? Mesmo para os ultraliberais mais ferrenhos, a única resposta possível é: Estado! As forças do mercado se demonstram totalmente incapazes de planejamento e ação, quando se trata de proteger a saúde e a vida humana.

Precisamos do Estado para permitir o isolamento social, para fortalecer o Sistema único de Saúde (SUS), para construir e equipar hospitais, para formar profissionais de saúde, para construir casas populares, para produzir testes, vacinas, remédios, para possibilitar renda mínima e garantir alimento. Para enfrentar essa e as próximas pandemias, é preciso aprofundar o Estado democrático de direitos e enfrentar as desigualdades estruturais sobre as quais se construiu a sociedade brasileira.

Não acredito que a pandemia se trata de um castigo a ser pago pela criatura pecadora diante do criador. Também não se trata de um fenômeno natural, que a Natureza pudesse criar por si mesma, sem a engenharia humana. Pandemias como a Covid-19, tal como o aquecimento global (ou as gripes aviária e suína) se originam do modo como as sociedades modernas vivem, produzem, consomem e habitam o planeta. A pandemia somente se origina e se propaga no horizonte do capitalismo tardio. Sem dúvida, nas emergências serão cada vez mais necessárias as vacinas e os medicamentos, os isolamentos e medidas sanitárias. Mas, se a tarefa mais estrutural é evitar a eclosão e disseminação de novas pandemias e se antecipar às emergências, importa cuidar da saúde do planeta, junto com a saúde das pessoas.

Bolsonaro “tá ok e daí?”, rompe diariamente o isolamento social, retarda a emergência da renda mínima, discrimina os grupos de risco, agride o pacto federativo, arma suas milícias físicas e digitais e, com discurso irresponsável, busca mobilizar a população contra o parlamento nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF), prefeitos e governadores dos Estados. Um tirano genocida que quer governar por sobre qualquer lei e estado de direito e, pior, mantendo algo entre 15% e 35% de apoio na sociedade brasileira, dependendo do “inimigo” contra quem se confronta. O isolamento social que o presidente tanto deplora, incentivando as carreatas da morte, e mesmo as políticas de emergência (aprovadas pelo congresso), que o executivo tanto retarda, por ironia trágica, acabam por fortalecer sua estratégia de poder autoritário.

Para enfrentar a Covid-19 é necessário fortalecer as milhares de redes de solidariedade que se formaram na sociedade civil brasileira, enfrentando o rebanho do ódio. Também é estratégico ampliar as políticas sociais do Estado (renda mínima, soberania e segurança alimentar, fortalecimento do SUS etc.), e mantê-las, neste país de eternas emergências e desigualdades. É preciso aprofundar e universalizar o Estado democrático de direitos. Urge destituir Bolsonaro.

[1] Coordenador do programa da FASE no Espírito Santo e Campanha Antipetroleira Nem Um Poço a Mais.

 

 

 

Enviando sua mensagem