Paula Schitine*

Depois de percorrer cinco regiões petrolíferas – os municípios de Presidente Kennedy (ES), Campos, Macaé e a região de Jaconé (RJ) na Bacia de Campos – a caravana “Nem Um Poço A Mais” chegou ao Rio de Janeiro para dois atos de protesto contra a construção do Porto Central por empresas financiadas pela Holanda.

A campanha que tem o apoio da FASE Espírito Santo reuniu um grupo formado por líderes de 30 organizações da sociedade civil ligadas à defesa da pesca, agricultura familiar e natural, direitos humanos e direitos das mulheres, do Brasil e de países como Argentina e Holanda.

“A caravana foi muito boa e importante, passamos por vários municípios e muitos deles estavam destruídos pela atividade petroleira e temos que nos unir”, afirma Marilda Leppaus, integrante do Movimento dos pescadores de Jacaraípe, no Espírito Santo.

Marilda Leppaus – Movimento dos pescadores de Jacaraípe/ES

Manifestantes cobram resposta do Consulado da Holanda

No Rio, a primeira parada da caravana foi em frente ao Consultado dos Países Baixos, da qual a Holanda faz parte. Os manifestantes não puderam entrar no prédio mas ocuparam a calçada com cartazes de repúdio ao que chamam de “invasão holandesa”.

“Há cinco dias estamos percorrendo territórios, lugares onde indústrias petroleiras já se instalaram e que trazem profundas desigualdades sociais, ambientais e econômicas”, relata a educadora da FASE Espírito Santo, Daniela Meireles. “Este grupo está construindo argumentos para resistir à construção do Porto Central, em Presidente Kennedy no sul do Espírito Santo, onde empresas holandesas investem no empreendimento e, por isso hoje estamos em frente ao Consultado da Holanda, em mais uma tentativa de diálogo para que este País recue e saiba dos impactos e problemas que eles estão causando”, reforça.

Daniela Meireles – Educadora FASE Espírito Santo

Na carta enviada ao Cônsul Geral dos Países Baixos, Roland Martins, as organizações questionam sobre os impactos a 400 famílias da região que vivem da pesca artesanal, as garantias à salvaguarda de comunidades quilombolas do sul do estado, a segurança de meninas e mulheres com a presença de novos trabalhadores precarizados para as obras de construção; a integridade da Igreja local, e ainda alertam para a destruição de 1.100 hectares de terra protegida da Mata Atlântica.

A grande pergunta ao cônsul é: que órgãos de governo e quais empresas holandesas estão envolvidas na exploração petroleira em sua infraestrutura na Bacia do Espírito Santo e Bacia de Campos.

Os manifestantes também lutam, contra a construção de um Terminal Graneleiro, em Jaconé, distrito de Saquarema, no Rio de Janeiro. “É um grande porto e essas obras estavam interrompidas e agora o governador autorizou a continuidade do-porte e uma obra de grande impacto que eles dizem que vai gerar empregos mas a própria empresa garante que 300 empregos e atrapalha a vida de agricultores e o turismo de surfe”, protesta Márcia Ribeiro integrante da SOS Jaconé Porto Não.

Segunda parada sem explicações

O segundo ato de protesto no Rio foi em frente ao prédio da empresa marítima holandesa Van Oord, que se mostra presente no território mas não se posiciona sobre sua participação nas obras do Porto Central.

Um grupo de manifestantes tentou uma resposta da empresa no local mas ouviu de uma funcionária que não há nenhum responsável disponível a conversa. O coordenador da FASE Espírito Santo, Marcelo Calazans diz que não ficou surpreso com a recepção. ” A gente já sabia que essa empresa não dialoga com a sociedade civil organizada. Essa empresa já foi expulsa de Recife pela destruição que provocou nos portos de Suape e de Açu”, relata. “As empresas holandesas são devastadoras. A Van Oord investe 10% no projeto do Porto Central mas nem isso é uma informação transparente. Ela trabalha na surdina. A Van Oord vai ser expulsa do Espírito Santo”, garante.

Protesto contra a empresa Van Oord no centro do Rio.

*Paula Schitine é jornalista da comunicação da FASE.