Por Fernanda Damasceno

Durante a décima edição do FOSPA  – Fórum Social Pan-Amazônico de 2022, em Belém do Pará, a mesa “Soberania Alimentar contra a fome, a grilagem, de terras e a destruição da sociobiodiversidade”, que faz parte da Casa dos Bens Comuns e da Natureza teve como palestrantes convidados a antropóloga Maria Emília Pacheco, assessora da FASE, além de José Mayuma, indígena do Peru; Lourdes Eamara, também do Peru e Arturo Munoz, governador do resguardo de Guacumayas, na Colômbia. 

Maria Emília Pacheco Foto: João Paulo Guimarães

Abrindo a mesa, Maria Emília contextualizou a situação da fome no Brasil: “Vai ficando cada vez mais claro que o aumento das doenças, como a pandemia, se dá pelo aumento da chamada agricultura industrial (…) O agronegócio, com seus monocultivos, praticam uma guerra contra a natureza. Enquanto existem políticas públicas que desmontam direitos, outras são feitas para substitui-las’.

Segundo ela, os programas “Adote um parque” e o “mercado de carbono” são dois exemplos de financeirização da natureza, em que as empresas particulares tentam tornar privados bens que deveriam ser comuns à sociedade.  Maria Emília ainda afirmou que a região amazônica é a mais afetada por esse movimento, já que os índices de fome na região norte do país são os maiores do Brasil

Logo em seguida, José falou sobre a relação da cultura alimentícia e o colonialismo que vem prejudicando os povos da Amazônia. “A modernidade nos vende a ideia de que nos falta muita coisa, que precisamos comprar muitas coisas, assim crescemos, mas eu não vim aqui achando que me faltava algo, provoca.” 

Para o indígena, a natureza já oferece tudo o que precisamos, por isso não há necessidade de produtos industrializados e, principalmente, ele chama atenção para a ideia de uma sociedade que está viciada em consumo. José complementa dizendo que o capital influencia diretamente a forma como nos relacionamos com a comida: “precisamos descolonizar nosso estômago”. 

Lourdes Maria – Bolívia Foto: João Paulo Guimaráes

Semelhante a fala de seu colega, Arturo complementa: “devemos cultivar nossa comida o que precisamos pra viver”. Ele cita o exemplo da pandemia, em que os supermercados ficaram vazios e logo as pessoas das cidades que dependem deles correram risco de ficar sem comida. O indígena disse ainda que não devemos depender da indústria alimentícia e que tal dependência apenas nos adoece além de apagar a cultura de nossos ancestrais.

Lourdes, indígena boliviana, conta ainda que a soberania alimentar é só um dos direitos negados aos indígenas. Ela relatou que muitas pessoas de sua comunidade, incluindo seu marido, vieram a falecer durante a pandemia, e faz um apelo durante a mesa: “precisamos de ajuda”. 

Maria Emília fechou a mesa afirmando que, mesmo vindo de lugares tão distantes, a indústria alimentícia, a mineração, o desmatamento e a agricultura industrial são grandes problemas para as diversas Amazônias.