Keka Werneck
25/02/2026 12:38
Com apoio da FASE Mato Grosso, a rede Rota de Comercialização “Caminhos da Agroecologia” (ROTA) reuniu em Cáceres nos dias 12 e 13 de fevereiro, em uma reunião ampliada, a coordenação e representantes de organizações da agricultura familiar que atuam em 24 municípios da região de fronteira, com o objetivo de ouvir diversas vozes e tirar um plano de ação em comum para 2026.
Foram dois dias intensos de diálogo, avaliação e construção coletiva e a presença expressiva, para Saguio Santos, presidente da Coopervales e membro da coordenação da ROTA, representou o interesse e o esforço das organizações para estarem juntas este ano. “O evento deu a oportunidade da gente debater grandes questões nacionais e desafios das comunidades locais em quatro eixos centrais. Fortalecimento institucional e sociopolítico; o enfrentamento das dificuldades da produção; a agregação de valor aos produtos da agricultura familiar; e ampliação do acesso a mercados”, detalha Saguio, que na FASE Mato Grosso contribui como educador popular.
Em ano eleitoral, um dos principais encaminhamentos foi a decisão de construir posicionamentos institucionais conjuntos. A ROTA deliberou contribuir para a reeleição do presidente de Lula ou de candidatos alinhados ao campo popular, porém elaborando uma carta de intenções da agricultura familiar para dialogar com a esquerda e firmar compromissos. No âmbito estadual, a estratégia é dar apoio a candidaturas parceiras da pauta agroecológica.
Para Vilmon Alves Ferreira, presidente da Centro de Tecnologia Alternativa (CTA) E membro da coordenação da ROTA, a reunião foi marcada pela forte participação e a profundidade nos debates. “As propostas foram bem discutidas e nossas pautas são do passado, do presente e do futuro, porque é uma continuidade. É brigar por projetos, por políticas públicas e estrutura para as famílias lá na base”, ressaltou. Ele destacou ainda que o encontro foi um momento rico de troca de experiências e saberes.
No eixo da produção, ficou evidente a necessidade de fortalecer a captação de recursos. As organizações apontaram a importância de acessar políticas públicas como o Plano Safra, projetos da Conab e demais linhas disponíveis, conhecendo caminhos e editais para não ficarem de fora das oportunidades.
A questão do leite apareceu, novamente, como uma das mais urgentes. O preço baixo tem levado produtores a afirmarem que estão “pagando para trabalhar”. Para enfrentar o problema, foi criado um Grupo Temático com a tarefa de estudar alternativas, desde a captação de recursos até a possibilidade de instalação de agroindústrias que permitam maior autonomia e melhor remuneração.
Na agregação de valor, a avaliação foi direta: os produtos agroecológicos já são de primeira linha, sem agrotóxicos, mas é preciso avançar na apresentação, identidade e divulgação. A proposta é construir uma marca coletiva, criar um selo de qualidade e investir na comunicação para fortalecer a imagem da produção da ROTA.
Miguelina de Oliveira Campos, da Associação de agricultores e agricultura familiar de São Manoel do Pari, em Nossa SenHora do Livramento, que participou do encontro, saiu da reunião ampliada feliz com o resultado. “Gostei muito de ter ido e participado de toda a discussão. Foi muito bom para as associações e para as famílias, para cada agricultor familiar ali. Todos puderam colocar suas ideias e pensar junto no que é possível a ROTA trazer de bom para nós”, relata.
Ela cita a proposta apresentada por sua associação de levar ao Legislativo um projeto para reduzir tributos sobre os produtos da agricultura familiar. A ideia é articular uma frente parlamentar para diminuir a carga tributária, tornando os alimentos mais acessíveis. “Muitas vezes o orgânico é caro. Então, quem tem condições paga e a maioria da população não tem acesso, isso tem que mudar, para todos terem direito de comprar o alimento de boa qualidade”.
No debate sobre acesso a mercados, a Coopervales ficou encarregada de organizar a distribuição em feiras, ampliar vendas diretas, estruturar um catálogo de produtos e orientar a disputa por políticas públicas como o PAA e o PNAE, garantindo que alimentos frescos, produzidos nas proximidades, cheguem às escolas e contribuam para uma alimentação mais saudável das crianças. Além disso, ficou encarregada também de animar as organizações da rede, para que sigam lutando conscientes dos processos e das pedras no caminho.
Shirlei da Costa, motorista do Programa Programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA), resumiu o sentimento coletivo. “A experiência foi 10. Quando a gente olha no olhar de cada um, vê aquele brilho de interesse. Foi uma reunião objetiva, sempre fortalecendo a agricultura familiar e as organizações parceiras. A FASE é parceira lado a lado. Quando a gente está quase ajoelhando diante das dificuldades, a FASE nos ajuda a levantar e a fazer acontecer.” A ARPA compõe a diretoria da ROTA. Segundo ela, o encontro mostrou que ninguém está sozinho e que o planejamento construído sai do papel com expectativa real de virar prática.
Trajetória
A trajetória da ROTA é marcada por organização e persistência. O movimento começou ainda na década de 1980, em Vila Bela da Santíssima Trindade, com o Movimento Unificado do Leite (MUL), numa das principais bacias leiteiras do estado. À época, a sede da FASE Mato Grosso funcionava no município. Anos depois, já com a sede em Cáceres, o processo se ampliou e, em 2018, passou a se chamar oficialmente ROTA, consolidando-se como articulação regional da agricultura familiar agroecológica.
Hoje, a ROTA segue reafirmando que fortalecer a agricultura familiar é fortalecer o território, a economia local e a soberania alimentar. Com planejamento, unidade e mobilização, as organizações saem do encontro mais conscientes dos desafios – e mais decididas a enfrentá-los coletivamente.
*Assessora da FASE MT
