Com objetivo de debater o papel histórico de agricultores e agroextrativistas na conservação da biodiversidade, práticas de manejo de plantas nativas e de conservação e armazenagem de sementes, o 3º módulo do programa de Formação Multiplicadores e Multiplicadoras em Agroecologia reuniu 30 participantes no Projeto de Assentamento Agroextrativista PAE Lago Grande, na comunidade Cabeceira do Ouro, em Santarém, Pará.

Foto: FASE Amazônia

O encontro promovido pelo programa da FASE na Amazônia, em parceria com a Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (Feagle), Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santarém (STTR) e o Grupo Mãe Terra, através do Projeto Amazônia Agroecológica, tem como objetivo promover a implantação de iniciativas agroecológicas como quintais produtivos, viveiros de mudas e apoio aos circuitos de comercialização, além de gerar renda às comunidades para recuperação e conservação da floresta com apoio do Fundo Amazônia*.

No resgate histórico sobre o mapeamento da perda das sementes e suas variedades crioulas, foram listadas 54 variedades entre espécies agrícolas anuais, manivas e tubérculos pelos agricultores e agricultoras familiares. Apesar disso, na elaboração do calendário de monitoramento do plantio, floração e colheita das espécies agrícolas, frutíferas e florestais, 157 espécies cultivadas nas áreas de roças e quintais produtivos foram mapeadas. O que, segundo Samis Vieira de Brito, educador do programa da FASE na Amazônia, traz evidências concretas sobre a importância dos agricultores e agricultoras como guardiões e guardiãs da biodiversidade local numa estreita relação das comunidades com o território. “Garantir o uso compartilhado dos recursos naturais é de suma importância para garantir a seleção, conservação e multiplicação do banco de sementes do PAE Lago Grande”, afirma.

Foto: FASE Amazônia

“Antigamente, nossa agricultura era mais equilibrada, tinha muita floresta, muita caça, a terra era boa e toda semente plantada crescia bonito. A gente colhia fartura sem praga alguma para atacar. Hoje já sentimos uma grande diferença, mas mesmo assim nunca deixamos de abrir nossos roçados para garantir o alimento da nossa família”, lembra seu Francisco, 83 anos, agricultor convidado especial da comunidade Soledade.

De acordo com o agricultor, mesmo sentindo muita diferença entre passado e presente, nunca deixou de abrir o roçado para garantir o alimento da família. “Lembro das caixas de madeiras, que eram vedadas com breu ou cera de abelha, onde era guardado as sementes de um ano para o outro. Na feira, a gente trocava farinha com tambaqui, com banana, com vinho de açaí. Eram algumas práticas que se perderam, mas a terra é nossa e aqui estão as nossas raízes só precisamos nos unir e acreditar”.

Darlon Neres, agricultor da comunidade Cabeceira do Marco, diz que é preciso resgatar a cultura e a ancestralidade para fortalecer a luta em defesa do Bem Viver. “A agroecologia também é Bem Viver e como foi agora o III módulo do programa de formação em agroecologia, resgatar as nossas sementes que já vem se perdendo há um bom tempo e, de fato se a gente não criar mecanismos e ferramentas para proteger essas sementes crioulas a gente vai perder. E não é isso que a gente quer, pelo contrário. Queremos continuar produzindo sustentável, comida de verdade, alimentação de verdade para os nossos comunitários e para as nossas famílias”.

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