FASE Espírito Santo
30/09/2026 10:19
No norte do Espírito Santo, o Dia Internacional de Luta contra os Monocultivos de Árvores, celebrado em 21 de setembro, foi marcado por encontros que reafirmaram a importância da memória, da ancestralidade e da organização comunitária na defesa dos territórios e das águas. Nos dias 19 e 20 de setembro, comunidades quilombolas, pescadores, organizações e integrantes da Rede Alerta Contra os Desertos Verdes se reuniram no Sapê do Norte para compartilhar experiências de resistência e recuperação territorial.
As atividades tiveram início no sábado (19), na comunidade quilombola de Linharinho, em Conceição da Barra, com o lançamento do jogo de tabuleiro “Guardiões do Rio São Domingos”, realizado no Ponto de Memória Jongo de Santa Bárbara, às margens do rio São Domingos. Acolhidos pelos orixás e pela sabedoria de Gessi, tivemos neste dia diálogos e trocas dignas de águas integradoras.
Construído de forma coletiva por quilombolas, pescadores e a FASE Espírito Santo, o jogo nasce das memórias e histórias das comunidades que vivem no território e têm no rio uma referência fundamental para seus modos de vida. A proposta é aproximar crianças e jovens dessas histórias por meio de uma ferramenta lúdica, fortalecendo a memória coletiva e os vínculos com o território.
A iniciativa também recupera a experiência da expedição realizada em 2018 pelo Rio São Domingos, quando uma equipe multidisciplinar percorreu o território e registrou impactos relacionados à expansão dos monocultivos de eucalipto sobre as águas e sobre a vida das comunidades que vivem em seu entorno.
As comunidades e organizações participantes da expedição seguem questionando os impactos observados no território e a forma como eles são reconhecidos pelo poder público. Para os moradores, os relatos e experiências de quem vive às margens do rio são fundamentais para compreender as transformações provocadas pelo modelo de ocupação territorial baseado nos monocultivos de árvores.
O lançamento do jogo foi, assim, também um momento de valorização dos saberes comunitários. Entre histórias, memórias e trocas, as águas do São Domingos foram reafirmadas como parte da vida, da cultura e da identidade das comunidades que vivem em seu entorno.
Retomar o território, recuperar a vida
No domingo (20), a programação seguiu com uma visita às retomadas quilombolas de Coxi e Córrego do Alexandre, no Sapê do Norte. As duas comunidades integram a Comissão Quilombola do Sapê do Norte e, desde 2023, desenvolvem processos de retomada e recuperação de áreas ocupadas por monocultivos de eucalipto.
O avanço dos monocultivos na região, especialmente a partir do final da década de 1960, transformou profundamente os territórios quilombolas. As comunidades relatam a perda de áreas destinadas aos cultivos e à criação de animais, além de restrições ao acesso à água e a outros recursos fundamentais para a reprodução de seus modos de vida.
Diante da espera pela regularização de seus territórios, comunidades quilombolas passaram a organizar processos de retomada e reconversão dessas áreas. Com a retirada dos eucaliptos, os territórios vêm sendo novamente ocupados por roças, criações, moradias e vegetação nativa, em um processo que as próprias comunidades associam à recuperação das águas e das condições de vida.
A visita reuniu ainda representantes de outras comunidades quilombolas em luta pela defesa e recuperação de seus territórios, como Volta Miúda, na Bahia, e Macanudos e Rincão da Chirca, no Rio Grande do Sul. Os relatos compartilhados destacaram a ancestralidade e a organização coletiva como elementos fundamentais para enfrentar conflitos, perseguições e ameaças e fortalecer as lutas territoriais.
As experiências do Sapê do Norte dialogam com outras lutas quilombolas e comunitárias espalhadas pelo país. Em diferentes territórios, comunidades vêm construindo estratégias para proteger as águas, recuperar áreas degradadas, produzir alimentos, preservar seus modos de vida e afirmar seus direitos territoriais.
Para a FASE, que atua historicamente junto a organizações populares, movimentos sociais e comunidades na defesa de direitos e da justiça ambiental, fortalecer essas experiências significa reconhecer os conhecimentos e as estratégias construídas pelos próprios sujeitos dos territórios.






