*Paula Schitine

No último sábado, 9 de julho, a FASE RJ, em parceria com a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial e o Instituto Marielle Franco, realizaram a Oficina “É tudo pra ontem! – juventude, cuidado e proteção nas favelas”. Os objetivos do encontro buscavam pensar sobre estratégias de proteção a partir das dinâmicas dos cotidianos das juventudes e redes de proteção entre os próprios jovens; construir fluxos de cuidado e proteção a partir de casos que ocorrem nos territórios e apresentar redes, possibilidades e limites das estratégias de proteção. A atividade ocorreu durante todo o dia, ao ar livre, no espaço do Centro Cultural de Tradições Afrobrasileiras Ylê Asè Egi Omim, em Santa Teresa.

A oficina discutiu temas como cuidados de saúde mental, proteção física e segurança digital tendo como foco a realidade de atinge cotidianamente jovens homens e mulheres, negros e negras, moradores das favelas e periferias pelo Brasil. Segundo o educador da FASE RJ, Bruno França o objetivo era juntar jovens das favelas e periferias que vêm lidando com diversas situações de violência e violações nas suas atuações. “Quase todos/as, se não todos/as, os/as jovens moradores de favelas e periferia já foram vítimas ou presenciaram pessoas próximas sofrendo violência policial nos seus territórios ou fora deles. Por isso, nós convidamos jovens com atuação na defesa dos Direitos Humanos em seus territórios, jovens com quem a FASE RJ e os parceiros mantêm contato e apoio, no sentido de fortalecer suas ações e contribuir para a construção de estratégias de proteção e cuidado, incluindo sua própria proteção e cuidado, que possam ser colocados em prática em situações de violência e violações de direitos”, explica.

Participantes durante a dinâmica “World Café” ou “Café Mundial”.

Dez jovens de diferentes favelas e periferias da Região Metropolitana do Rio de Janeiro participaram da oficina que foi dividida em dois momentos. No início da manhã, eles se dividiram em três grupos e tiveram a oportunidade de discutir questões a partir de seus pontos de vista sobre os temas da oficina. “O World Café, ou Café Mundial, é uma dinâmica onde os participantes trocam ideias e partilham vivências sobre determinado assunto a partir da condução de um facilitador. A metodologia possibilitou que os jovens conversassem sobre todos os temas que envolvem proteção e cuidado e apresentassem diferentes pontos de vista sobre o assunto, a partir de suas experiências de vida e relatos de violações”, explica Rachel Barros, educadora da FASE RJ.

Cultura Digital e saberes ancestrais africanos

Uma das facilitadoras da oficina, Viviane Gomes, que integra o coletivo “Blogueiras Negras” e outras redes de ciberativismo ligadas ao feminino e gênero, conta que o nome deste evento “É tudo pra ontem!” é perfeito: “A gente trabalha com essa urgência. O contexto brasileiro e o contexto carioca não são fáceis. Nem de fácil leitura e nem de fácil vivência. Então a gente está sendo atacada por diversas forças que vão desde as policiais até as paramilitares, passando pelo governo, pelo racismo estrutural, machismo. Então toda vez que a gente tem a oportunidade de se reunir com pessoas que atuam no território é importantíssimo”, avalia. “Falar de cuidado, proteção e segurança parece ser algo que não é posto para nós, por isso, temos que aprender a nos proteger”, ressalta.

Neste momento, os participantes recebem informações sobre Cultura Digital.

Durante a oficina foram trazidos conhecimentos sobre saberes ancestrais africanos desconhecidos pela maioria, como o pioneirismo dos egípcios na escrita. Mais de 3 milênios antes dos gregos, há cerca de 6.000 anos, os povos do Nilo no antigo Egito já escreviam e registravam a sua história, desenvolvendo três tipos de escrita. “Eu nunca imaginei que não fossem os europeus os criadores da escrita e saber que foram os africanos nos dá um poder e mais orgulho das nossas origens”, diz Caio Reis, jovem estudante morador de Duque de Caxias.

A estudante Ianoy Rayane de Oliveira, de 27 anos relata casos de violência policial.

Violência policial e Direitos Humanos

Durante a segunda parte da oficina, os jovens sistematizaram e apresentaram ponto debatidos durante a realização dos grupos, e relataram momentos de tensão e abusos sofridos diariamente nos seus territórios e fora deles pelas forças policiais. Para eles e elas, ouvir outras pessoas que passam pelas mesmas situações foi uma forma de fortalecimento necessária para criar mecanismos de proteção para além do Estado. “É importante discutir essas questões até para deixar outras pessoas cientes dos seus direitos”, afirma Édipo Bragança, jovem morador de Itaguaí.

A estudante Ianoy Rayane de Oliveira, de 27 anos conta que participou das formações oferecidas pela FASE RJ durante os dois anos do “Se Liga no Território” e que tem muito interesse nesse tipo de atividade. “Eu trouxe algumas situações como jovem, negra e favelada e situações que a gente passa e que o estado acaba violentando a gente e nós nem sabemos quando aquele ato é de fato uma violência. Então, é muito importante a gente entender quais são os nossos direitos e eu tive contato com muitos jovens que não sabem. E é maravilhoso porque conhecimento é tudo”, resume.

Rede de proteção

Os participantes da oficina tiveram acesso a diversos mecanismos de cuidados e proteção, desde grupos de alerta até organismos oficiais preparados para receber denúncias de violência e violações de direitos.

O coordenador executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, Fransérgio Goulart, que apresentou parte desses mecanismos, lembra que a oficina foi delicadamente criada em conjunto com a FASE RJ e Instituto Marielle Franco para os jovens que conhecem e atuam sobre a realidade de seus territórios. “Eles fizeram um verdadeiro diagnóstico da situação que vivem e produzem cotidianamente estratégias de proteção para essa sobrevivência. Por exemplo, uma grande estratégia adotada é a oralidade, porque para se proteger nem tudo precisa ser escrito. Eles podem guardar essas estratégias como uma caixinha de segredos para impedir que o Estado tenha acesso e perpetue essa produção de morte e prisão”, afirma.

O jovem Mauro Lima, jovem educador social do “Conexão G de Cidadania LGBT de Favelas” sugere recorte de gênero e sexualidade ao tratar de temas como segurança nas favelas.

Ao final da oficina, foi divulgada uma lista de organismos e organizações não estatais de Direitos Humanos, a partir das redes que os próprios jovens têm acesso, e programas de proteção de defensores e defensoras de Direitos Humanos no estado do Rio de Janeiro. “Essa lista foi comunicada a eles para que eles tenham conhecimento caso possam sofrer uma ameaça. Além dessa lista, outras instituições inclusive internacionais foram apresentadas porque os problemas que eles vivenciam aqui nas favelas outras favelas do mundo vivenciam. A gente não está descolado do mundo. E assim a gente apresentou essa rede de proteção mais ampliada para a gente pensar na proteção de forma integra”, explica o coordenador.

 

Gênero e Sexualidade

Outra questão trazida pelos jovens é sobre a violência contra mulheres e pessoas LGBTQIAP+, particularmente trans e travestis. Os relatos de medo, solidão e experiências de humilhação e violações de direitos mostram a frequência com que ocorrem no cotidiano. “Os agentes policiais recebem treinamento para saber como proceder com esta população, mas não temos acesso a esse conteúdo. Então, o que a gente vê na ponta é essa violência acontecendo. Então, espaços como esse são importantes para que a gente possa reconhecer essas questões de gênero e sexualidade”, conclui Mauro Lima, jovem educador social do “Conexão G de Cidadania LGBT de Favelas”.

*Paula Schitine é jornalista da comunicação da FASE.