Gabriela Polydoro
25/08/2025 14:13
O encontro ocorreu no espaço cultural Canto das Flores, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, reunindo educadores, militantes e integrantes de coletivos e organizações para debater o tema “COP30 e as lutas socioambientais: o que está em jogo para o clima?”.
O debate contou com a mediação de Clara de Lima (FASE Rio) e Carmem Castro (Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS); a abertura de Denise Amador (Plante Rio); e as contribuições de Aercio B. Oliveira (FASE), William Cruz (Rede de Educação Popular da Baixada Fluminense – REP-BXD), Bia Nunes (Associação de Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Rio de Janeiro – Acquilerj), Rosa Peralta (KOINONIA), Ana Luisa Queiroz (Instituto PACS)) e Renato Cinco (Coalizão Pelo Clima).
A atividade faz parte de um ciclo iniciado em fevereiro deste ano, abordando temas como o colapso ambiental, a crise hídrica, a cadeia minero-siderúrgica e a Mata Atlântica Fluminense. A mediadora Clara de Lima, educadora da FASE Rio e integrante do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Socioambiental Núcleo Rio, abriu o debate contextualizando sobre as rodas de conversa realizadas anteriormente. Segundo ela, o objetivo da iniciativa é fortalecer a ação política e ampliar a rede de parceiros para o próprio Fórum no Núcleo Rio. “Iniciamos esse período de rodas de conversa em fevereiro, abrindo com o tema sobre colapso climático. Foi um momento importante para dialogarmos sobre o que se entende sobre mudanças climáticas e crise climática, a partir de uma perspectiva anticapitalista, e para que as dimensões de gênero, classe, raça e território estejam presentes nesta e nas demais rodas de conversa”, afirma.
- Clara De Lima
- Carmen Castro
- Denise Amador
Conexão entre cidade e clima
Representando a FASE Rio, Aercio B. de Oliveira defendeu a integração das agendas urbanas e socioambientais frente aos eventos extremos, especialmente diante da realidade brasileira. “Mais de 80% da população brasileira, dos seus 213 milhões, vive em cidades. Dois terços dessa população vivem sobre o bioma Mata Atlântica. Ou seja, quando a gente pega e observa no noticiário os eventos extremos, que ocorrem no intervalo cada vez menor, é justamente nos grandes centros urbanos nas grandes metrópoles que estão no litoral brasileiro, nos vales sobre o bioma Mata Atlântica que é mais impactado”. Ele destacou ainda que aproximadamente 17 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas, muitas em áreas de risco, e que as políticas urbanas precisam incorporar a agenda climática para enfrentar esses problemas.
Além disso, Aercio também apresentou quatro principais eixos estratégicos para o debate sobre mudanças climáticas: reconhecer as desigualdades históricas e estruturais; tratar da concentração populacional em regiões mais vulneráveis; reforçar a necessidade de políticas urbanas abrangentes incluindo moradia, saneamento, mobilidade, e estabelecer um orçamento público compatível com os desafios existentes. “Adaptação precisa ser vista e adaptação é cara. Sem compromisso financeiro dos governos, em todos os níveis, a adaptação será apenas um discurso”
Desafios nos territórios

“Quando a gente pensa em clima, a gente está pensando na nossa própria sobrevivência”, comenta Willian.
William Cruz, da Rede de Educação Popular da Baixada Fluminense (REP-BXD), comentou sobre como falar de mudanças climáticas na Baixada Fluminense é, antes de tudo, falar sobre sobrevivência. Ele também trouxe o exemplo da Reserva de Tinguá, que abrange cinco municípios da Baixada Fluminense, como uma “trincheira de luta” contra a especulação e as invasões ilegais promovidas por milícias que loteiam áreas destinadas à reforma agrária. “Já que a gente tem essa pressão fundiária, então, como que a gente consegue garantir, através de uma política, que essa área de acontecimento seja, de fato, um cinturão de proteção a essa reserva, a partir de uma perspectiva agroecológica, por exemplo”.
William também apresentou problemas estruturais nas escolas da região da Baixada, agravados pelo calor extremo, como salas superlotadas e sem ventilação, a falta de bebedouros e até o uso de água de ar-condicionado para preparar a alimentação para as crianças. “Elas colocavam essa água. Lógico, não é culpa da trabalhadora, alguém permitiu que isso acontecesse, ou até o orientador que quisesse. Elas enchiam o balde e levavam para a cozinha para fazer o alimento.”, relata.
Quilombos ameaçados e exclusão dos debates
A liderança quilombola Bia Nunes, da Acquilerj, trouxe ao debate a realidade das comunidades tradicionais e sua exclusão histórica de espaços de decisão como a COP30 e o G20. “A gente, quando fala da capital, sempre fica muito preocupada, porque quase tudo acontece aqui. Dificilmente as coisas chegam no interior, dificilmente as coisas chegam na Baixada, e a gente tem várias discussões, vários debates que não chegam lá dentro, que não alcançam a nossa população. Nós temos um quilombo chamado Deserto Feliz, que fica em São Francisco de Itabapoana. As mulheres de lá não estão escutando o que a gente está falando, porque a nossa voz não chega, não ecoa nesse lugar.”

Ela criticou o uso do termo “quilombo urbano”, que considera uma narrativa que legitima as invasões e a urbanização forçada de territórios ancestrais. “Nós temos falado nos lugares que a gente chega que não existe quilombo urbano. Existe um quilombo urbanizado. Porque a gente precisa, a todo o tempo, estar lembrando que os nossos quilombos, os nossos territórios foram invadidos”.
Bia comentou sobre a situação de seu próprio quilombo, Maria Conga, que perdeu parte de suas terras para a construção de um condomínio do programa Minha Casa, Minha Vida, projeto do Governo Federal destinado a mais de 2 mil pessoas de fora da comunidade. No estado do Rio, segundo ela, existem 54 comunidades quilombolas, sendo 76% rurais, muitas enfrentando ameaças como portos, lixões e empreendimentos industriais.
Comunidades tradicionais na linha de frente da justiça climática

Durante a roda de conversa, Rosa Peralta da KOINONIA chamou atenção para a invisibilidade das comunidades tradicionais na produção de dados públicos, o que compromete sua participação em políticas de adaptação às mudanças climáticas. Ela també
m comentou sobre os esforços da instituição em coletar informações públicas e mapas familiares dessas comunidades, buscando fortalecer essas populações para que possam produzir os seus próprios dados e levá-los às mesas de debate. “Existem poucos dados disponíveis para gente poder incluir nas políticas públicas que faltam, estão no tempo de processo de elaboração nesse momento, políticas de litigação, políticas de adaptação, onde estão esses pontos de comunidade tradicionais. Se eles estão em lugares estratégicos nas nascentes, com toda a região”.
Campanha contra megaprojetos e desigualdade climática no Rio de Janeiro
Durante o encontro, Ana Luisa Queiroz, coordenadora de projetos do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), destacou a luta histórica contra violações causadas por megaprojetos, especialmente pela maior siderúrgica da América Latina, localizada em Santa Cruz (RJ), a Ternium Brasil (antiga TKCSA). Em sua fala, ela também abordou os impactos ambientais e sociais ocasionados por essa atuação, como as emissões que representam mais da metade dos gases de efeito estufa do Rio de Janeiro e a omissão do distrito industrial no Plano Municipal do Clima.
Neste contexto, o Instituto Pacs lançou em 2024 a campanha “Rio Capital do Caô Climático”, que combina pesquisa, comunicação e mobilização popular usando o G20 como gancho para ampliar a visibilidade do tema. “É importante denunciar essa arquitetura da impunidade, que permite que empresas poluam e violem direitos sem responsabilização, e levar essa denúncia para espaços como a COP30”, afirma Ana Luisa.
Ecologia e Marxismo

“Política é programa. Quando a gente não tem nosso próprio programa, bem pensado, bem formulado, a gente cai no programa dos outros. A gente vai realizar o programa dos outros”, comenta Renato
Renato Cinco, da organização Coalizão Pelo Clima, destacou a importância de criar um programa popular anticapitalista voltado a enfrentar a crise climática, criticando tanto o negacionismo ambiental, quanto a ilusão do “capitalismo verde”.
Em sua fala, ele alerta que o planeta já passou de 1,5°C de aquecimento e pode alcançar 2°C até 2034, trazendo consequências catastróficas para o Rio de Janeiro, como enchentes e ondas de calor extremas. “O Instituto Pereira Passos (IPP) já tem os estudos do que significa dois graus da gente perder o Rio das Pedras, as áreas aterradas no centro da cidade, a Barra da Tijuca, a Baixada Fluminense, vai para debaixo d’água. E não é mais como a gente imaginava até pouco tempo atrás, na perspectiva das próximas gerações. É nessa geração. É nas gerações atuais”, afirma.
Além disso, Renato mencionou que diversas organizações, incluindo a Coalizão pelo Clima, estão organizando o “Encontro Anticapitalista pelo Clima e pelo Fim dos Genocídios”, programado para acontecer entre os dias 20 a 23 de novembro. “Nosso encontro tem como objetivo central avançar no debate na construção de um programa popular anticapitalista pela sobrevivência.”
Entre denúncias, reflexões e sugestões, a quinta roda de conversa do FMCJS – Núcleo RJ reafirmou o compromisso coletivo de articular resistências e promover convergências entre as lutas locais e globais, visando o bem da sociedade e do planeta.
Para a FASE, encontros como este espaço de diálogo são essenciais para ampliar a participação social, fortalecer redes e assegurar que as vozes das comunidades urbanas e tradicionais estejam presentes na elaboração de políticas climáticas justas, inclusivas e mais eficazes para toda a população.
*Estagiária de Comunicação sob supervisão de Isabelle Rodrigues