13/01/2026 14:37

O encontro reuniu mulheres formadas nas capacitações promovidas ao longo dos últimos dois  anos, representantes de territórios populares, coletivos e organizações da sociedade civil. O evento foi um espaço de troca de experiências, fortalecimento de redes e visibilidade das iniciativas produtivas construídas pelas participantes. Além de celebrar as conquistas do projeto, o seminário teve como objetivo fazer uma reflexão coletiva sobre os desafios e perspectivas para o trabalho justo e o acesso à renda digna, especialmente para mulheres negras, periféricas, trabalhadoras do cuidado, empregadas domésticas e atuantes em movimentos sociais.

A programação contou com três mesas de debates, reunindo pesquisadoras, lideranças comunitárias, agentes do projeto e participantes, além de uma apresentação cultural que serviu como momento de confraternização, celebração e valorização da produção cultural periférica. Ao longo do seminário, ocorreu ainda uma exposição com 10 mesas exibindo produtos feitos por mulheres e coletivos dos territórios apoiados pelo projeto, proporcionando espaço para divulgação, troca de experiências e fortalecimento de redes.

 

Caroline Santana e Clara de Lima, educadoras da FASE RJ, abriram o seminário com uma contextualização do projeto e destacaram a importância desse momento de diálogo como uma oportunidade de celebração e de construção de novos caminhos. “O objetivo é a gente pensar coletivamente as possibilidades e os horizontes de ações articuladas pelo projeto ‘Trabalho Justo para Mulheres’. A ideia é olhar para o que a gente tem no cenário e construir caminhos coletivos. Além disso, fortalecer a luta pelo direito ao trabalho e acesso à renda de forma digna para as mulheres de favelas e periferias”, falou Caroline. Ela também destacou que o seminário marca a celebração do trabalho realizado por dezenas de mulheres ao longo dos dois anos do projeto, além de abrir espaço para diálogos com novos grupos.

Caroline também destacou a diversidade de territórios e coletivos presentes, como Maré, Associação de Mulheres de Atitude com Compromisso Social (AMAC), , MNU, Serviço Social da UNIG, MST, Marias da Taquara, Sítio Santa Bárbara, Elas por Elas da Providência, Casa Cuidado, entre outras. Ela pontuou que o projeto foi viabilizado por recursos de emenda parlamentar destinada pela deputada federal Talíria Petrone e vinculada ao Ministério das Mulheres.

Perspectivas institucionais e políticas públicas – Trabalho justo, resistência cotidiana e desigualdades estruturais

“Antes de fazer a minha apresentação, eu vim para cá pensando muito no incômodo do que está acontecendo nesses últimos dias de intensa violência. Quando a gente coletiviza os nossos sentimentos individuais, a gente se fortalece. Então, eu quero dizer aqui da minha indignação, da minha tristeza, do choque que a gente vive enquanto mulher vendo todo dia as barbaridades que estão sendo cometidas contra as mulheres”, ressaltou Andrea Gama, professora da Faculdade de Serviço Social da UERJ, na primeira mesa de debates, “Perspectivas institucionais e políticas públicas voltadas à Economia Popular e ao Trabalho Digno para Mulheres”. Andrea afirmou ainda que os impactos dessas violações ultrapassam as vítimas e afetam toda a sociedade.

A professora está coordenando a pesquisa nacional sobre trabalho, família e políticas sociais”, desenvolvida em parceria entre universidades públicas de diferentes regiões do país. Ela apresentou os resultados da pesquisa e contextualizou o estudo que analisa a inserção de homens e mulheres no mercado de trabalho e a distribuição do trabalho doméstico e de cuidados em quatro tipos de arranjos familiares, todos compostos por pessoas que exercem trabalho remunerado e convivem com responsabilidades de cuidado. “Um primeiro aspecto que a gente não pode deixar de discutir quando pensa nesse trabalho justo é que as mulheres, ao se inserirem no mercado de trabalho, levam consigo o trabalho doméstico e o trabalho de cuidado. Apesar das mulheres entrarem cada vez mais no mercado de trabalho, os homens não fazem o movimento de divisão mais igualitária de cuidados nos domicílios. Então, esse é o primeiro aspecto que é central”, explicou.

O debate também contou com a participação de Carol da Providência, trabalhadora ambulante, liderança comunitária e idealizadora do coletivo Elas por Elas, do Morro da Providência. Carol abordou sobre as dificuldades de ser mulher e trabalhar como camelô e entregadora de aplicativo nas ruas. “Falar sobre trabalho justo pra mim também não é muito fácil, porque eu gostaria de entender quais mulheres têm trabalho justo ou de alcance. A grande maioria dessas mulheres que trabalham na rua hoje como ambulantes e entregadoras de aplicativos são mulheres negras, são mães solos, são mulheres faveladas, e eu não vejo trabalho justo para essas mulheres”, comentou. Ela também relatou situações recorrentes de violência institucional e criminalização do trabalho ambulante. “Nós somos criminalizadas diariamente. Não temos acesso a banheiro, à água potável, a políticas públicas ou mesmo a uma licença para trabalhar. Quando a guarda municipal chega, o que encontramos é violência e intolerância”, complementou.

Experiências e resultados do projeto “Trabalho Justo para Mulheres”

Na segunda mesa, intitulada “Experiências e resultados do projeto ‘Trabalho Justo para Mulheres’”, participaram mulheres lideranças locais que fazem parte do projeto e aplicaram seus conhecimentos em suas comunidades. O debate abordou as principais ações realizadas, os produtos desenvolvidos e os impactos alcançados durante toda a iniciativa.

Na abertura, Clara de Lima fez uma apresentação do projeto e suas etapas de desenvolvimento. Na primeira, 12 mulheres foram capacitadas para construção de um questionário para elaboração do Diagnóstico Socioeconômico e Territorial Participativo, construindo coletivamente um questionário para mapear condições de trabalho, redes e percepções sobre trabalho justo, com apoio técnico da ONG CAPINA. A equipe realizou  116 entrevistas nos  quatro territórios participantes: Manguinhos, Maré, Gamboa e Pavuna, com foco em compreender as condições de vida e de trabalho de mulheres negras e mulheres de favelas. A segunda etapa focou na formação de 45 mulheres em comunicação e divulgação de economia popular, em parceria com a Utópika. Na terceira etapa, foram desenvolvidas as mentorias e 8 Estudos de Viabilidade Econômica, apoiando mulheres e suas iniciativas de trabalho.

Ana Paula Lopes, do Fórum Social do Manguinhos, que fez parte do processo de pesquisa e diagnóstico socioeconômico e territorial, destacou que, em muitos casos, as mulheres atuam diariamente nos negócios da comunidade, mas não se veem como proprietárias formais. “Foi preciso refazer o mapeamento e compreender quem, de fato, era responsável pelos empreendimentos, porque muitas trabalhadoras não se reconheciam como donas de seus próprios negócios”, explicou. Ela também apontou que a desconfiança foi uma barreira no início da pesquisa: “Você chega pra perguntar, o povo quer saber o porquê. Por que você está interessado em saber o que eu vendo? Por quanto eu vendo, se eu sei fazer a precificação correta ou não, se eu estou tendo lucro ou não. É um tipo de desconfiança. Assim, a gente acabou fazendo primeiro com conhecidas, vizinhas, amigas e parentes, para ter um pouco mais de confiança no território”, contou Ana Paula.

Clara fez ainda um panorama sobre os resultados da pesquisa e apresentou as principais conclusões do diagnóstico socioeconômico realizado nos quatro territórios acompanhados pelo projeto. O resultado foi um cenário marcado por precarização do trabalho e informalidade em relação aos benefícios sociais: 65%  das mulheres entrevistadas trabalham sem qualquer vínculo formal e 66% não contribuem para a Previdência Social, o que as deixa desprotegidas em situações de doença, maternidade ou aposentadoria no futuro.

Durante o encerramento, foram apresentados dois materiais produzidos a partir do projeto. O primeiro é o Passaporte da Maré, uma publicação que reúne serviços e iniciativas de mulheres do território, permitindo que moradoras conheçam e visitem outros empreendimentos e recebam descontos. Em seguida, foi apresentado o Caderno Mão na Massa, que é um plano de organização pessoal e financeiro voltado a trabalhadoras autônomas. O caderno reúne dicas de comunicação, orientações sobre precificação, formalização e proteção social, além de espaços para registro de atividades e metas. “Quando a gente olha para o  diagnóstico,  percebe que a maior parte das mulheres  tem jornadas de trabalho muito extensas. Assim, o caderno de organização também auxilia no registro de tempo,  e organização de seus trabalhos”, explicou Clara.

O conteúdo foi adaptado para cada território – Manguinhos, Maré, Gamboa e Pavuna –, considerando cada local e suas especificidades.

O que é Trabalho Justo para Mulheres

“O trabalho justo para as mulheres é reconhecer que nenhuma de nós começa no mesmo lugar. A gente sempre parte de pontos diferentes”, afirmou Cyntia Mattos, idealizadora da Casa Cuidado e pesquisadora da UERJ. Também participaram Rachel Barros, secretária executiva do Ministério da Igualdade Racial, para falar sobre os sentidos do trabalho justo e as estratégias de fortalecimento da autonomia econômica feminina. Clara de Lima e Caroline Santana estavam na mediação da roda de conversa.

Durante o debate, Rachel Barros destacou a centralidade das mulheres negras e periféricas na luta por trabalho digno e políticas de cuidado. Ela ressaltou que, apesar de conquistas históricas, ainda persiste um cenário marcado por desigualdades estruturais, principalmente para trabalhadoras domésticas, chefes de famílias e moradoras de comunidades. “Mesmo com conquistas importantes, muitas ainda não têm garantidos direitos básicos como creche, saúde, educação e condições dignas para exercer suas atividades.”

Segundo ela, a invisibilidade do trabalho doméstico e do cuidado permanece como um desafio central para todas as mulheres. Além disso, Rachel ressaltou o papel da sociedade civil na defesa de direitos e na incidência de políticas públicas: “se a gente tem um fundo voltado para pensar em reparação, para investir em política, a sociedade civil tem que cobrar muito sobre isso, para onde esse dinheiro vai, como é que isso vai ser investido. Nós, mulheres negras, queremos melhorias na educação, queremos políticas de cuidados, porque nós somos maioria da população brasileira”, falou Rachel.

O seminário foi encerrado com a apresentação da atividade cultural “Maria fala de Maria”, que colocou em destaque a força da expressão artística como meio de resistência, preservação da memória e afirmação das mulheres nos territórios. A performance contou histórias reais de “Marias” que tiveram que batalhar muito na vida e trabalhar desde muito jovens para ajudar a família.

Ao final, o encontro se consolidou não apenas como o encerramento do projeto, mas também destacou o compromisso coletivo com a construção de redes, parcerias e estratégias conjuntas na luta pelo trabalho digno e justo para mulheres de favelas e periferias.