Isabelle Rodrigues
10/07/2026 11:17

Como enfrentar a crise climática quando o desmatamento, a mineração, os monocultivos e outros grandes empreendimentos continuam avançando sobre a Amazônia? Para povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas e agricultores familiares do Pará, a resposta sempre existiu e está sendo fortalecida nos próprios territórios, por meio da agroecologia, da organização comunitária e da defesa coletiva dos bens comuns.

Essas experiências estiveram no centro do encontro “Amazônia Comunitária: territórios por Justiça Climática e Bem Viver”, promovido pela FASE, na terça-feira, 8 de julho.

O encontro reuniu lideranças de comunidades da região nordeste paraense para compartilhar conquistas, desafios e estratégias construídas ao longo dos últimos anos. Mais do que denunciar os impactos do atual modelo de desenvolvimento, os participantes mostraram que já existem alternativas concretas capazes de produzir alimento, conservar a biodiversidade, proteger as águas e fortalecer a autonomia das comunidades.

Ao longo do dia, ficou evidente que essas agendas caminham juntas. Defender o território significa proteger as florestas, garantir água, fortalecer a soberania alimentar, ampliar a participação das mulheres e assegurar que as próprias comunidades decidam sobre seu futuro.

O território como resposta à crise climática

Durante o encontro, a coordenadora da FASE Amazônia, Sara Pereira, ressaltou que os avanços socializados no encontro são resultados da execução do Projeto “Amazônia Comunitária” apoiado por ASW. Ela explicou que o projeto articula três dimensões. Uma é a promoção da agroecologia, segurança alimentar e nutricional. As demais são a autonomia econômica e política das mulheres e o enfrentamento à violência de gênero; e a garantia de direitos territoriais como elemento essencial para a proteção da floresta e da luta por justiça climática e bem viver. 

“A gente não consegue continuar toda essa nossa ação de defesa dos territórios, de promoção da agroecologia e de garantia dos direitos das mulheres se não tivermos um país em democracia. A defesa da democracia não é um discurso genérico; é uma pauta concreta da garantia dos nossos direitos e da nossa própria vida”, pontuou.

Sua fala reforçou que enfrentar a crise climática exige muito mais do que políticas ambientais isoladas. Significa garantir condições para que povos e comunidades tradicionais permaneçam em seus territórios, onde produzem alimentos, preservam a floresta e mantêm formas de vida que historicamente contribuem para a conservação da Amazônia.

Agroecologia que transforma a vida

Os resultados desse processo ganharam rosto no depoimento da agricultora, educadora popular e vice-presidenta da Associação dos Agroextrativistas, Pescadores e Artesãos de Pirocaba (ASAPAP), Daniela Amorim, município de Abaetetuba, no nordeste paraense.

Ao contar sua experiência, Daniela mostrou como a agroecologia mudou a relação de sua família com a produção de alimentos. Hoje, o quintal reúne horta, galinheiro e sistemas agroflorestais cultivados sem agrotóxicos, aproveitando os próprios recursos da natureza para adubar a terra e fortalecer a produção.

“Quando eu saí da horta para vir para cá trazendo uma caixa cheia de alimentos, eu fiquei toda arrepiada. Trouxe cheiro-verde, couve, orelha-de-macaco… É muito bom saber que aquilo que coloco na mesa das minhas filhas fui eu quem produziu, sem veneno”, disse.

O relato sintetiza uma transformação que ultrapassa o espaço da propriedade. Produzir alimentos saudáveis fortalece a autonomia das famílias, gera renda, reduz a dependência de insumos externos e reafirma conhecimentos construídos pelas próprias comunidades.

Para Daniela, esse processo também passa pela participação política, condição que a comunidade dela apostou após se organizar e ocupar, por exemplo, o Conselho de Segurança Alimentar do município.

“Não adianta só produzir. A gente precisa estar onde as políticas públicas são efetivadas. Só conseguimos construir melhorias para os nossos territórios quando estamos organizados, informados e participando”, reforçou.

Justiça socioambiental nasce dos territórios

Ao analisar os resultados apresentados durante o encontro, a assessora da FASE e ex-presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, Maria Emília Pacheco, destacou que as experiências revelam uma compreensão ampla da justiça climática.

Segundo ela, proteger a Amazônia significa reconhecer que não existe separação entre natureza e os modos de vida dos povos que habitam esses territórios.

“É melhor falar em justiça socioambiental, porque estamos falando de povos que têm uma relação com a natureza e que não separam a floresta, os rios e a terra dos seus modos de viver e de produzir.”

Maria Emília destacou ainda que uma das conquistas mais importantes desse processo foi o fortalecimento da capacidade das comunidades de defender seus direitos diante da pressão de grandes empreendimentos. Nesse contexto, os protocolos de consulta livre, prévia e informada representam um instrumento concreto de proteção coletiva.

Territórios fortalecidos nas suas diversidades 

Além de ser um espaço para os relatos e as trocas de experiências das lideranças, o encontro também serviu para avaliar os resultados acumulados pelo Projeto Amazônia Comunitária ao longo dos últimos anos. Para a educadora popular da Fase Amazônia, Jaqueline Felipe dos Santos, um dos avanços mais significativos foi o fortalecimento das organizações comunitárias, que ampliaram sua capacidade de se organizar, defender direitos e incidir sobre políticas públicas.

“Muitas comunidades se mobilizaram para constituir ou reativar suas associações, passaram a construir dinâmicas para manter esses espaços vivos e, a partir deles, fortalecer sua capacidade de incidência. Isso tem permitido pautar o poder público e o sistema de justiça na defesa dos seus direitos e na proteção dos territórios”, afirma.

Segundo ela, outro aprendizado importante foi compreender que as respostas à crise climática precisam partir das realidades locais e suas diversidades. “Cada território tem sua cultura, seus saberes e suas formas próprias de construir soluções. É justamente por isso que a agroecologia faz tanto sentido. Não existe receita pronta. As iniciativas desenvolvidas pelo projeto fortaleceram a diversificação da produção, a adaptação às mudanças do clima e a troca de conhecimentos entre as comunidades”, enfatiza.

Jaqueline ressalta ainda que enfrentar as mudanças climáticas exige fortalecer a articulação entre os territórios porque “nenhuma comunidade enfrenta esses desafios sozinha. Quando elas dialogam, compartilham experiências e constroem agendas comuns, ampliam sua capacidade de enfrentar problemas que são coletivos”.

É preciso ter espaços permanentes de intercâmbio 

Na avaliação do Educador Popular da FASE Amazônia, Lourenço Bezerra, o encontro demonstrou a importância de criar espaços permanentes de intercâmbio entre comunidades de diferentes municípios. Para ele, além de renovar as energias das lideranças, esses momentos permitem reconhecer os avanços construídos coletivamente e compreender que os desafios vividos em cada território fazem parte de um contexto mais amplo.

“Quando os territórios se encontram, eles percebem a dimensão dos problemas e também das soluções que estão construindo. Essa troca fortalece as organizações comunitárias e mostra que as alternativas para enfrentar as mudanças climáticas precisam ser pensadas junto com quem vive nesses territórios”, destaca.

Para Lourenço, esse aprendizado também deve orientar a formulação das políticas públicas. “As políticas construídas de cima para baixo dificilmente dão conta da realidade das comunidades. O projeto mostra que, quando as soluções são construídas com os territórios, elas fortalecem a segurança alimentar, geram renda e ampliam a capacidade de enfrentar os impactos das mudanças climáticas.”

*Coordenadora de Comunicação