O “Seminário de Pesquisa Agronegócio, sistemas alimentares e mudanças na alimentação na Amazônia: estudo de caso”, realizado na região de Santarém, no Pará, teve como principais objetivos apresentar a metodologia e debater sobre a caracterização do perfil agroalimentar e socioespacial do território para identificar os principais impactos nos sistemas alimentares com a expansão do cultivo da soja, bem como discutir sobre a participação e Políticas Públicas para a Soberania alimentar. O evento é resultado do Projeto JUSTFOOD – Transição justa para sistemas alimentares sustentáveis e saudáveis no contexto de mudanças climáticas.

Este evento foi organizado pelo Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – CERESAN, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, Universidade Federal Fluminense – UFF, em parceria com Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santarém e a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE. O encontro foi voltado ao público em geral principalmente para lideranças ligadas aos movimentos sociais, gestores públicos municipais, professores e estudantes de Santarém.

Além disso, foi realizada uma série de encontros focais para dialogar sobre a dinâmica dos hábitos alimentares identificando as percepções dos diversos segmentos sociais (povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares, assentados, coletivos de mulheres dentre outros) buscando compreender sobre as alterações na alimentação “composição dos cardápios, locais de compras dos alimentos, quem produz” etc. Outro ponto abordado foi discutir sobre a importância da participação social e das políticas públicas voltadas para a soberania e segurança alimentar e nutricional com gestores municipais e representantes de conselhos ressaltando a importância da reestruturação, ampliação e fortalecimento dos espaços de governança e de participação social.

“Para nós, povos indígenas e populações tradicionais da Amazônia, discutir soberania, segurança alimentar e nutricional é necessário um atento e diferenciado para a nossa cultura alimentar, pois precisamos fortalecer os conhecimentos ancestrais e as práticas de manejo da produção dos alimentos que foram fundamentais para nossa sobrevivência e reprodução no interior da Amazônia”, afirma Raquel Tupinambá – mulher indígena, agricultura, do povo Tupinambá do Tapajós Amazônia, cacica de Surucuá, coordenadora do Conselho Indígena Tupinambá do Baixo Tapajó Amazônia e doutoranda em Antropologia Social pela UNB. “Sem cultura alimentar indígena não há segurança e soberania na Amazônia”, resume.

Situação alarmante

De acordo com o 2º inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da pandemia da COVID -19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) apenas 4 entre 10 famílias têm acesso a plena alimentação, ou seja, são 33 milhões de pessoas submetidas à fome, o que significa mais da metade da população brasileira (58,7) convivendo com a insegurança alimentar em algum grau. “Diante disso, garantir política públicas voltadas para o fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia e de iniciativas exitosas como o PAA e o PNAE, bem como o combate às desigualdades sociais são primordiais para o combate à fome, pois o acesso alimentação saudável é um direito e bens comuns que precisam ser garantidos”, afirma, Samis Vieira de Brito, educador popular da FASE Amazônia.