28/11/2025 15:49
A realização da COP 30 em Belém deixou um saldo ambivalente do ponto de vista da FASE. De um lado, avançou a participação popular, o reconhecimento das populações afrodescendentes e a retomada do multilateralismo como eixo central da governança climática. De outro, fracassou em construir consensos sobre financiamento climático, indicadores globais de adaptação e metas para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis.
A coordenadora da FASE Amazônia, Sara Pereira, destaca que esta foi “a COP com maior participação popular da história”. Para ela, a presença de movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, populações tradicionais, periferias urbanas e organizações de diferentes países deu ao evento um caráter plural inédito: “A pauta climática entrou na vida das pessoas. Falou-se de comida no prato, transporte, saúde, direitos. A COP da Amazônia consolidou o clima como tema cotidiano e de justiça climática”, afirma.
Participação popular e centralidade dos territórios
Com mais de 23 mil inscrições e uma marcha que reuniu mais de 70 mil pessoas, a Cúpula dos Povos foi apontada pelos dirigentes da FASE como o maior símbolo da força da sociedade civil nesta edição.
Segundo Evanildo Barbosa, diretor executivo da FASE, a Cúpula se destacou ao produzir diagnósticos e proposições concretas sobre financiamento, proteção territorial e direitos dos povos tradicionais. “A sociedade civil se colocou como contraponto e afirmou: é preciso ser consultada. Os territórios deixaram claro que não querem ser zonas de sacrifício.”
Ele também destaca a consolidação do eixo Cidades e Periferias Vivas como passo estratégico para conectar agendas urbanas, ambientais e sociais no enfrentamento ao colapso climático: moradia, mobilidade, saneamento, resíduos sólidos e governança climática.
- Fotos: Verde Filmes
Diversidade e alimentação saudável
A participação popular também é destacada por Letícia Tura, diretora executiva da FASE, como marca da COP da Amazônia. “Foram diferenciais, não só a participação, mas a mobilização e a diversidade de movimentos sociais que se envolveram nesse processo: do campo, das cidades, das florestas, dos diferentes biomas brasileiros, de diferentes países. A mobilização indígena e dos extrativistas. Todos articulados em torno da Cúpula dos Povos, que foi uma construção de dois anos e meio. Então foi uma intensa mobilização social, que se fez repercutir por dentro da COP.”
Outro divisor de águas, para ela, foi a introdução do debate sobre a alimentação saudável na discussão do clima. Na Cúpula dos Povos foi constituído um Grupo de Trabalho (GT) de sistemas alimentares saudáveis, onde se pensou da produção até o descarte, o que levou à oferta inédita de alimentação orgânica dentro da Conferência – reflexo da força crescente dos movimentos de agroecologia e saúde coletiva.
Retomada do multilateralismo
Para Evanildo Barbosa, a COP 30 redesenhou o papel do Brasil na diplomacia climática. “Depois de passar por países de regimes mais fechados, a COP encontrou no Brasil uma sociedade civil articulada. Isso deu prestígio geopolítico ao evento”, avalia.
Ele acrescenta que a conferência sinalizou a “volta do multilateralismo”, ainda que “usando aparelhos”, em referência às tensões geopolíticas e ao avanço da extrema direita em diversos países. Mesmo assim, segundo ele, há convergência global crescente para a adoção de políticas climáticas coordenadas.
Reconhecimento das populações afrodescendentes
Os coordenadores da FASE celebram a inclusão, pela primeira vez, do termo “afrodescendentes” no principal texto negociado da COP 30. “uma decisão histórica”, como definiu Sara Pereira: “É o reconhecimento da importância das populações de matriz africana e quilombolas no combate à crise climática e como primeiras vítimas do racismo ambiental.”
Financiamento climático e adaptação: avanços e lacunas
Um dos principais avanços identificados por Sara foi a decisão de triplicar o financiamento para adaptação, chegando a US$120 bilhões. Ela destaca que o aumento é fundamental para projetos que melhorem a resiliência climática, especialmente em países vulneráveis.
Entretanto, os coordenadores apontam frustração com a ausência de consensos sobre o Mapa do Caminho para redução dos combustíveis fósseis, a definição de indicadores globais de adaptação e compromissos claros para eliminar o desmatamento.
Evanildo lembra que essas agendas permaneceram em aberto e foram assumidas pelo governo brasileiro como tarefa a ser trabalhada ao longo de 2025 e 2026, enquanto o Brasil perdurar detendo a presidência da COP.
Sara reforça que o contexto geopolítico contribuiu para o impasse: “Com os Estados Unidos ausentes e um cenário internacional marcado por negacionismo climático, não houve condições para decisões mais fortes”.
- Fotos: Verde Filmes
Um legado de participação e politização climática
Para a Fase Amazônia, o principal legado da COP30 foi ter territorializado o debate climático. “A região Norte, por muitas vezes invisibilizada, mostrou sua potência e organização política”, afirma Sara.
A conferência, dizem os coordenadores, não entregou avanços estruturais na redução de combustíveis fósseis, mas deixou uma mensagem clara: não é mais possível adiar metas ambiciosas, não é possível discutir o clima sem pensar em território e nas pessoas que os habitam.
A sinalização do “Mapa do Caminho”, proposta pelo governo brasileiro para se buscar soluções alternativas aos combustíveis fósseis, foi um avanço na visão de Letícia Tura, mas é preciso discutir as soluções alternativas. “Para mim, o mais importante não é só saber se vamos sair dos combustíveis fósseis, mas para onde vamos. Isso requer uma discussão mais ampla, mais global”, sintetiza.





