Pedro Claudio Cunca Bocayuva (Diretor da Fase)

O Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) se lança em mais uma empreitada de fortalecimento das redes sociais e produtivas que partem das periferias, com a inauguração do Centro de Inteligência Coletiva Lorenzo Zanetti em Parada de Lucas, no Rio de Janeiro. Ao longo da sua história de construção de conexões urbanas, apoiadas na força organizada da juventude na periferia urbana do Rio de Janeiro, o GCAR conseguiu construir pontes entre as comunidades. O trabalho contribui, ao lado de muitas organizações que mostram a força da periferia, para romper as fronteiras e as exclusões econômicas, sociais e culturais.

O GCAR gerou acesso e mobilidade social a partir dos modos de organização da cultura, pela música, pela dança, pela trama das linguagens. Assim, foi tecendo um fio que se relaciona com as forças e tendências que buscam tornar a cidade um espaço para todas e todos. Na base desse processo, as lideranças dessa organização diferenciada articulam uma potência local que busca transformar o conflito em força sócio-produtiva. Força esta que se organiza promovendo ações que ajudam a romper as invisibilidades de corpos, fortalecendo lógicas e pontes de construção de saber, invertendo a agenda das prioridades fixadas pela agenda das classes dominantes. As estratégias de sobrevivência dos grupos populares garantem, com grande esforço, a reprodução das comunidades, das famílias e dos indivíduos. Este esforço depende do fortalecimento de sua autonomia, do reconhecimento de seus saberes, das pontes de acesso ao espaço público, à mídia, aos direitos. Isso exige uma verdadeira plataforma de idéias e práticas, sobre a qual se dá a construção de um caminho para expressar os saberes e as linguagens do corpo político e produtivo das grandes maiorias.

O GCAR vem mostrando que é preciso tecer redes, construir pontes, como uma outra forma de luta, um outro conjunto de práticas e instituições que aprofundam a democracia. Por isso, no seu projeto institucional, a apropriação crítica e cooperativa dos avanços técnicos e das metodologias educativas se formaliza na construção de núcleos e espaços de educação cidadã, de organização da cultura, de acesso à informação e ao conhecimento.

O grande educador Darcy Ribeiro já afirmava a necessidade de o Estado construir um espaço institucional rico em recursos, em tempo, em atividades e em qualidade para o ensino público. O grande educador Paulo Freire já apostava na força geradora da palavra que se escreve no círculo de cultura para que se faça a leitura e transformação das posições sociais desiguais em matéria de propriedade, poder e saber. Mas foi com Lorenzo Zanetti e o SAAP-FASE que as lideranças do GCAR compreenderam a força transformadora de uma prática pedagógica que rompe com os estereótipos, que permita o reconhecimento de saberes que se inscrevam num outro território, em outros corpos, na pluralidade, na diferença e nas formas de comunicação livre e horizontal. Os anos de experiência de Lorenzo como educador popular, como um mestre na periferia, permitiu-lhe identificar-se com essa força de protagonismo juvenil que se manifesta em organizações sociais como o AfroReggae.

O trabalho de apoio do SAAP-FASE aos grupos de jovens na chave da cultura e da arte educação compreendeu o impulso que emergia com a nova potência de transformação capilar de organizações como o GCAR, que se tornou uma referência para a construção de novos sujeitos sociais coletivos. Lorenzo viu de maneira pioneira as lutas de uma nova geração que emergia dos contextos de invisibilidade a que estavam relegadas as classes populares na cidade partida. Uma invisibilidade que se dava por força da guerra travada para excluí-los de maneira forçada do ciclo de uma redemocratização truncada, num ambiente de crise das velhas formas de poder político e no momento em que fomos varridos pela ignorância do darwinismo social do mercado globalitário. Mas o transbordamento dos conflitos e a pluralidade das vozes se tornaram uma força que não pode ser contida por muros, cercas, grades e armas.

Como enfrentar novos desafios de organização para os jovens, crianças e suas famílias brutalizadas por um novo ciclo de transformações contraditórias, na política, na economia e nas formas culturais? Como romper o ciclo de guerra e apartação social permanente contra o corpo das maiorias afro-descendentes e mestiças que vivem nas periferias das grande megalópole carioca? O AfroReggae percebeu que a única saída se ligava ao direito à cultura como chave do reconhecimento de um valor mais forte de dignidade e humanidade. Por que, afinal, as novas tecnologias não tentavam instrumentalizar o mundo da vida e a subjetividade das criações imateriais nascidas dos hibridismos e da potência produtiva e criativa das classes populares? No centro das disputa por corações e mentes para as mudanças tecnológicas e produtivas, estava o conjunto de novas cadeias produtivas, a nova produção imaterial, a nova economia da comunicação e da informação em rede que articula o local, o global e o nacional.

O GCAR, partindo da força organizada dos jovens nos territórios, decide transformar os riscos derivados da ampliação das distâncias materiais e políticas, que se dão por força das novas desigualdades ligadas aos sistemas de produção com base nas novas tecnologias de informação e comunicação, em oportunidades de construção de vias de acesso. Seguindo os passos e os ritmos próprios da organização local comunitária e os ritmos acelerados das mudanças técnicas e produtivas, pela via da cultura, o Grupo decide enfrentar o desafio das novas tecnologias de comunicação e informação (NTIC) pela ótica da pedagogia transformadora, a partir do corpo oprimido na periferia da cidade. O tema da inclusão social e da inserção produtiva na sua relação com os novos contextos de aprendizagem e reestruturação da economia se colocou de forma muito clara para o GCAR. Pois periferia é parabólica, é celular, mas o controle e o comando dos poderes econômicos no capitalismo da hipermodernidade é digital.

O GCAR já vem usando as conexões via satélite e a mídia ao lado da mobilização presencial das conexões de milhares de jovens, procurando unir os lugares, rompendo fronteiras e interdições, produzindo compromissos, realizando tréguas e mediações de diálogo. Por isso, o Grupo captou criticamente a necessidade do novo passo para incrementar a sua dinâmica de inteligência coletiva com o ciberespaço. Nesse processo, associou o esforço de pensar as conexões digitais da periferia e da juventude com a imagem de Lorenzo Zanetti, que faleceu durante o processo de construção do centro de inclusão digital em Parada de Lucas. Ao rememorar a importância de seu processo formativo na linha da educação popular para a autonomia, as lideranças do AfroReggae decidiram, em diálogo com a FASE, que a inclusão digital deve ser lida na chave de um projeto político educativo diferenciado, em que a marca própria da experiência do GCAR deveria ser garantida a partir de sua capacidade de articular as linguagens e saberes que se traduziam nas bandas, conjuntos, grupos e companhias de dança e música. O projeto de criação de um centro de inclusão digital se desenhava quando Lorenzo Zanetti nos deixou.

Em Parada de Lucas – paradoxalmente um ponto isolado em sua própria história conhecida apenas por quem ali vive e trabalha, mas no ponto aberto para uma avenida chamada Brasil que o torna invisível na mancha urbana para a população motorizada, num agrupamento de mais de 19 mil pessoas que só aparece de forma estigmatizada na grande mídia – mais de 15 jovens articulam uma combinação original de ensino na arte dos quadrinhos, ao ritmo da capoeira, ao som do violino e na rede dos seus primeiros 40 computadores. Já são 400 participantes, da manhã até a noite, no espaço do Centro de Inteligência Coletiva Lorenzo Zanetti. O Centro já promove o acesso e a alfabetização digital e tecnológica, na lógica diferenciada de uma trama de saberes, numa construção de um diálogo em movimento para a construção de autonomias. Com o Centro, a comunidade de Parada de Lucas virtualiza suas conexões, superando parte das barreiras que a separam das potências tecnológica e cultural que mudam a vida da metrópole. O trabalho do GCAR abre brechas nas vias de navegação e articulação capazes de fortalecer uma potência que, assim todos ambicionamos, possa romper as desigualdades, construir novas pontes de saber e cidadania.

Ao lado do Grupo Cultural AfroReggae nesse novo passo de construção de espaços e formas de mobilização democrática e produtiva da juventude, da infância e das comunidades, a FASE, como instituição voltada para o direito à cidade e o desenvolvimento humano solidário e sustentável, reconhece e se compromete com a iniciativa de fundar o Centro de Inteligência Coletiva Lorenzo Zanetti. Seguindo os passos de Lorenzo, nos colocamos ao lado da comunidade de Parada de Lucas para contribuirmos com o AfroReggae no impulso de apoiar o protagonismo juvenil local como força social de transformação cultural e produtiva. Entendemos o Centro de Inteligência Coletiva Lorenzo Zanetti como parte de um projeto político-educativo que dá continuidade a uma luta que articula os territórios da cidade na chave da inteligência coletiva organizada como direito à cultura, mobilizando a juventude e a comunidade periférica para a superação da violência das desigualdades.